A primeira reunião ministerial do novo governo rendeu bons dividendos na mídia. Sem saber tudo o que dentro do salão oval do Palácio do Planalto se passou, destacou-se o caráter ascético do longo encontro, movido a suco de acerola, informou-se que o tratamento padrão e interno ficou no velho “companheiro”, afirmou-se que o presidente Lula reafirmou aos mais chegados assessores o seu propósito de dar prioridade ao que já anunciara – o combate à fome e outros programas voltados à área social.

O presidente enfatizou também, segundo foi divulgado, que falta de dinheiro não é desculpa para omissão no trabalho e que o controle de gastos exige a máxima rigidez, a começar pelo corte de dez por cento nos gastos previstos de cada ministério para sobrar cobertor à esticada na estrutura com novas pastas. Ética foi outro termo lembrado ao final do primeiro encontro iniciado com um elogio à elegância da ministra Benedita da Silva, encarregada da Assistência e Ação Social.

Coisa que pouca importância despertou na mídia – mas assume relevante importância para a sociedade – foi uma outra ordem articulada pelo estreante presidente, segundo o pouco que vazou do encontro. Lula teria ordenado a seus assessores que “tudo o que for anunciado e prometido terá de ser cumprido”.

A ordem, se assim foi dada de fato, tem dois significados diametralmente opostos. O primeiro representa um dique nos ímpetos e arroubos de uma equipe formada por pessoas, nem todas muito afeitas ao trato da coisa pública. Sabendo que têm que se cumprir, é natural que as promessas sejam contidas no limite das possibilidades de realização. Ou, por outra, antes de falar é bom pensar duas vezes e avaliar se o que está sendo dito pode ser sustentado, seja agora, seja ao longo do período de governo. O segundo aspecto do conselho presidencial representa um alento aos eleitores que, assim, vêem renovadas as possibilidades de cumprimento de tudo quanto foi prometido em campanha.

Sabe Lula – e foi isso que ele tentou fazer ver à sua equipe – que há uma tremenda carga depositada sobre seus ombros em função das esperanças despertadas ao longo da campanha. Frustrar essa expectativa, reaquecida com a festa cinematográfica de sua posse, seria o mesmo que assinar sentença de morte política, para não dizer provocar uma reversão completa desses bons fluidos que até agora o transformaram numa espécie de superestrela, capaz de andar na rua, em meio à gente, distribuindo autógrafos e abraços, sem temor nem surpresas.

As críticas atiradas sobre o governo passado, assim como essa visão genésica demonstrada no discurso de posse, onde se tem a impressão que o Brasil começa agora, com a era Lula, reforçam a natural preocupação com o cumprimento das promessas. Nem seria ético imaginar o contrário. Por isso, essa recomendação talvez tenha sido a mais grave e mais importante de todas quantas foram proferidas dentro do salão oval, que Lula achou “pouco acolhedor” e muito “pesado”. Afinal, o governo está agora emparedado pela conjugação do verbo cumprir. E já.