O ano está próximo de acabar e o sentimento da grande maioria das pessoas é que 2020 demorou para ir embora. Com a pandemia do novo coronavírus, a insegurança apareceu no trabalho, no estudo e até mesmo dentro de casa perto dos nossos familiares. De repente, tivemos que nos adaptar às mudanças e sem muito tempo para desculpa. Essa alteração radical na vida com privações e impedimentos incomoda e apesar de vivermos a expectativa de uma vacina, o medo acompanha adultos e crianças. Como os pais podem lidar como desafio de manter uma família alegre e motivada, mesmo diante de um ano tão difícil?

Diante de tantas incertezas, um cenário segue preocupando pais e psicólogos. A pandemia deixou marcas dentro das casas e os filhos estão tendo ou tiveram momento de confusão dentro das suas próprias mentes. A proibição de estar no colégio, na casa da amiguinha, na residência do vovô, na igreja, no parque e até do simples sorvete acabou com uma realidade simples para uma criança. O entendimento da gravidade da doença não foi o grande obstáculo, mas sim, as consequências deste vírus maldito que matou milhões de pessoas pelo mundo.

Com esta alteração radical no dia a dia, os psicólogos tiveram um aumento significativo na procura por atendimentos tanto para adultos quanto para crianças de todas as idades. Engana-se quem acha que os pequenos não ficam aflitos com a doença. Entre as principais queixas infantis estão a ansiedade, medos excessivos, dificuldades para dormir ou manter um sono tranquilo, irritação, crises de choro sem motivo aparente e até mesmo episódios de ataques de pânico. A psicóloga Priscila Badotti, 41 anos, especialista no tratamento infantil acredita os efeitos psicológicos do isolamento social nas crianças são intensificados pela ausência de um lugar seguro como a escola ou a saudade de estar próximo de algum parente que a criança tanto gosta.

“As crianças sentem saudades dos avós, dos tios e primos que, temporariamente, não estão podendo encontrar. Sem poderem ir à escola também estão carentes das interações com seus pares, amigos e professores. Desde o nascimento, nós construímos uma relação com o outro, primeiro no círculo familiar e depois essas relações são ampliadas para a convivência com nossos pares. A escola promove com segurança esse espaço de socialização fora do ambiente familiar, possibilitando, entre outras coisas, a troca de experiências, estímulos e o sentimento de pertencimento a um grupo, também muito importante para o processo de construção da identidade da criança”, disse a psicóloga.

Uma outra situação que a pandemia impôs nas casas é o trabalho home office dos pais. Se antes a reclamação era de uma possível ausência em grande parte do dia, agora isto acabou. No entanto, nada adianta estar no mesmo ambiente se a atenção está no computador ou se o choro de um bebê atrapalha na hora de uma reunião. “A queixa frequente era que os pais precisavam ser mais presentes e ter tempo de qualidade com seus filhos. Na pandemia, as famílias estão convivendo mais, porém, nem sempre esse momento tem sido de qualidade, visto que muitos pais estão se dividindo entre home office, os afazeres domésticos, aulas online e os cuidados com os filhos. Na minha experiência como psicóloga infantil, tenho recebido muitas crianças com queixas oriundas dos efeitos da pandemia e do isolamento social, especialmente crianças de 5 a 10 anos de idade, em fase de alfabetização e primeiros anos escolares”, relatou Priscila.

Verdadeiro desafio

Rodrigo e Bárbara estão casados há 14 anos e da relação nasceram a Tarsila, a Stella, o Ivan e a Laís. Foto: Geron Klaina/Tribuna do Paraná.

Risadas, brincadeiras, alto astral e muita união. A casa da família Zanetti Papov, no bairro Cristo Rei, em Curitiba, é um exemplo que o amor vale sempre a pena. Rodrigo e Bárbara estão casados há 14 anos e da relação nasceram a Tarsila, a Stella, o Ivan e a Laís. Com esta turma animada e disposta a uma boa bagunça, o segredo para manter a boa relação esta em um ambiente saudável.

Antes da pandemia, Tarsila de 10 anos e Stella de 8 anos frequentavam presencialmente o Colégio Integral, no Centro Cívico. A mais velha na quinta série e a outra na terceira. A convivência com os professores e os amigos da escola eram intensos e isto provocava uma adesão até melhor com os pais ao relatar coisas que aconteciam dentro da instituição escolar.

Com a covid-19 e proibição de estar no ambiente de ensino, as aulas passaram a ocorrer pela internet. No começo e por ser algo novo, a motivação das meninas dava gosto de ver, mas com o passar dos meses virou desinteresse. “Nós passamos por diversas fases nesta pandemia. Teve o momento da adaptação de ser legal por estar em casa, uma espécie de férias com aulas online. A novidade de ficar no computador e ver os amigos por uma tela as motivaram. Os professores se esforçaram demais. Aí teve a fase da confusão dentro de casa com o barulho que atrapalhava, ou seja, os obstáculos começaram a aparecer. Mais tarde pintou a fase do desinteresse, pois acabou a novidade e a empolgação, ou seja, ficou chato. Elas ficaram mais introspectivas e falavam menos. Houve uma regressão na parte da comunicação”, relatou Bárbara que ainda tem a Laís, de oito meses.

Estratégias para evitar o desgaste

A atenção dos pais nas atitudes dos filhos é fundamental para que possíveis problemas possam ser sanados. Uma boa conversa é primordial para entender o que se está passando e qual medida deve ser adotada. Bárbara reforça que algumas estratégias foram utilizadas para tentar substituir algum tipo de medo ou receio dos filhos. “A gente tenta compensar trazendo algo de fora do mundo delas. Estamos trazendo novidades como uma bala diferente, uma roupa ou acessório diferente no caso das meninas. Isto é ruim para os pais, mas é um aprendizado para a gente também. Estamos saturados e acreditamos que o Ivan de três anos é o que está mais sofrendo. Ele não tem tantas atividades, pois a menina ainda tem as aulas e lições para fazer. A gente motiva com atividades utilizando folhas para ele pintar, tintas e inovando. Como ele não está tendo contato com amiguinhos, ele regride”, confessou a mãe.

No Mundo de Tarsila

Tarsila (na esquerda) está buscando a tranquilidade em um livro que ela mesmo está escrevendo. Na direita, está Stella. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná.

Se não está nada fácil na cabeça das crianças, Tarsila está buscando a tranquilidade em um livro que ela mesmo está escrevendo. A ideia é relatar o desaparecimento de uma garota que vai para um lugar sem coronavírus. “O livro está deixando eu mais leve e chama A Garota Desaparecida. Neste lugar não tem a doença e as pessoas moram em um campo. Imagino que estou lá e tira todo este peso das costas. Eu desabafo com meus pais e acho que todas as crianças devem fazer o mesmo. Isto é muito bom”, avisou a filha mais velha da família que sente falta de viajar e estar com os amigos do colégio.

A esperança por dias melhores está próxima com a vacina, mas o amor, a união e a dedicação serão sempre insubstituíveis. Não é mesmo Stella? “ Eu tenho três irmãos e nunca vou estar sozinha’, completou a sensata menina de 8 anos de vida.