Na última segunda-feira (15) a Universidade Federal do Paraná adiou mais uma vez a realização da primeira fase do vestibular 2020/2021. A prova, que estava marcada para o último dia 28 de fevereiro, já havia sido adiada para o dia 28 de março. Ainda não há data definida para a realização do concurso. A confirmação vai depender da evolução da pandemia do coronavírus nos próximo meses e isso é imprevisível. É claro que, neste momento, as incertezas sobre o futuro estão presentes na vida da maioria das pessoas, mas como ficam as expectativas dos mais de 30 mil inscritos no maior vestibular do Paraná?

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Especialistas em educação avaliam que a indefinição tem por consequência um número alto de desistências no concurso. “Eu trabalho com a preparação de jovens para o vestibular há décadas e nunca vi tamanha falta de planejamento da Universidade Federal do Paraná. É o concurso mais importante. É uma universidade pública e isso atrapalha todo o calendário letivo da instituição. É inadmissível que os alunos tenham que desistir de uma instituição de qualidade por causa disso”, afirmou Renato Ribas Vaz, professor e sócio-fundador do Grupo Positivo e diretor do curso pré-vestibular, em Curitiba. O psicólogo Ivo Carraro, que é especialista em psicopedagogia e orientador no cursinho, diz que a pandemia já mostrou para os jovens que não é possível ter controle sobre a realidade, mas os sucessivos adiamentos do vestibular e a indefinição sobre quando o concurso vai acontecer, causa nos estudantes “um desespero”.

“O adiamento das provas da UFPR coloca os vestibulandos numa montanha-russa. Eles fizeram um planejamento e seguiram esse plano, mas a pandemia bagunçou tudo e a tendência é que esses jovens se desesperem e hesitem.  Eles acabam por repensar se devem continuar a seguir o plano, que na cabeça deles era o ideal”, afirma Carraro.

“Sentimento de que empurraram com a barriga”, diz estudante

Foi o que aconteceu com o Arthur Fortes Vaz, de 17 anos, atualmente aluno do curso de Direito de uma universidade particular da capital. “Minha pretensão era a universidade federal e eu estava me preparando para isso até agora. Ao contrário do ENEM, as coisas foram sendo adiadas. Meu sentimento é de que eles empurraram com a barriga”. Antes do segundo adiamento do vestibular, Arthur havia recebido uma proposta de bolsa para ingressar na universidade particular. Com o agravamento da pandemia, Arthur resolveu aceitar a bolsa e desistiu de prestar vestibular para a universidade pública. “A falta de coordenação da atitude da federal só piora a nossa ansiedade, que no ano do vestibular já existe por natureza. Estar nesse processo seletivo que vai definir grande parte da nossa vida já causa uma ansiedade muito grande. A federal adiou o vestibular como se fosse o adiamento de uma consulta médica”, afirmou Arthur ao explicar a sua decisão.

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Renato Ribas Vaz explica que, além das desistências, a indefinição por parte da universidade vai impactar o calendário letivo nos próximos anos. “Os alunos que ingressarem na Federal não sabem quando vão conseguir começar a estudar de fato. As aulas vão começar, na melhor das hipóteses, em agosto e terminam quando? E os alunos que vão começar a preparação para o vestibular neste ano acabam ficando sem nenhuma perspectiva”, afirma.

Ana Kusma, inscrita no vestibular da Federal para o curso de medicina e que tenta uma aprovação na instituição desde 2018, acha que é importante que a prova seja realizada. “Eu realmente espero de coração que o núcleo de concursos da Federal consiga achar uma data boa e que ajude os estudantes a conseguirem realizar a prova. Várias pessoas sugeriram ingressar com a nota do ENEM ou até cancelar a prova, mas acho que isso não é uma coisa positiva porque vários vestibulandos estão se dedicando há mais de 1 ano para essa prova sem as aulas. Muitos estudantes de escolas públicas não conseguiram ter a chance de ter aulas em sistema EAD e isso é bem triste. Eu espero que todos consigam realizar prova de forma igualitária”, afirmou.

Adiamentos sucessivos mostrariam falta de planejamento da UFPR

O impacto para os alunos que não têm condições de pagar por uma universidade particular é ainda maior. “Esses alunos se dedicaram, nós atendemos cerca de 400 alunos gratuitamente. É um absurdo o que estão fazendo com essas famílias. Uma definição, mesmo que fosse para dizer que a prova será realizada após o fim da pandemia já traria um norte para esse pessoal. Numa instituição de 100 anos não cabe uma indefinição como essa. Consideramos esses adiamentos sem planejamento incompetência do núcleo de concursos”, explica o professor Renato. “O que nós queremos é uma definição da instituição, para que a gente possa prever algum horizontes para os estudantes, que estão sofrendo muito com tudo isso”, finaliza o professor Renato.

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Ivo Carraro defende que não é o momento de mudar o planejamento. Para o psicopedagogo, mudar as regras de admissão no vestibular neste momento só causaria ainda mais insegurança nos estudantes. “Não é o momento de permitir que o aluno ingresse na universidade pela nota do ENEM. Qualquer nova mudança vai deixar os alunos ainda mais confusos. Na minha opinião, a universidade deve manter as regras vigentes e os alunos devem ter paciência agora. Eles devem continuar a projetar seus sonhos, e mesmo que seja lá em dezembro, o vestibular vai acontecer em algum momento. Eu digo para os alunos: não se preocupem com o futuro. O momento é especial, deixem que o futuro venha até vocês. Mantenham o plano. Vai chegar a hora da prova e da aprovação. Vamos manter a esperança. Nesse momento, a saúde é a prioridade”, finaliza.

A reportagem da Gazeta do Povo tentou contato com UFPR, mas a instituição ainda não informou a nova data das provas e nem se haverá mudança nas regras do concurso.