Uma das tradições mais bacanas de qualquer cidade são as bancas de jornais e revistas. Em todos os municípios, este espaço é dedicado a uma boa conversa, busca por passatempo, cultura e até um docinho, além de muita socialização. Com a pandemia do novo coronavírus e a consequente queda na circulação de pessoas, os jornaleiros tiveram que correr atrás do cliente para manter as vendas e continuar neste ofício centenário.

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Em Curitiba, são atualmente 175 bancas de jornais e revistas localizadas em ruas e terminais de ônibus. O trabalho desta turma é considerado essencial e mesmo com a covid-19 os proprietários puderam seguir com suas atividades. No entanto, com os decretos municipais e mudanças no protocolo de segurança da cidade, como a adoção de bandeiras (amarela, laranja, vermelha), o movimento das pessoas na cidade cai e isso impacta diretamente no funcionamento deste comércio.

Segundo o Sindicato dos Jornaleiros do Paraná (Sinjor-PR), a queda no volume de vendas chegou a 50% na média geral em algumas bancas. É bom ressaltar que além da pandemia, a localização e o tipo dos produtos comercializados influenciam diretamente na receita. Bancas localizadas próximas de escola, que normalmente são as de maior movimento, foram as mais prejudicadas de acordo com o sindicato.

Vânia de Almeida, 58 anos, é responsável há 13 anos com a banca que fica ao lado do Colégio Estadual Professor Elysio Viannam, no bairro Guabirotuba, em Curitiba. Sem as aulas presenciais, ela acredita que está perdendo 85% do faturamento mensal.

“Sem os alunos, professores e pais que consomem perto de 85% do faturamento com salgados, doces e refrigerantes, hoje estou ganhando uma merreca e tem dia que saio no negativo. Eu não posso investir na compra de salgadinhos, pois eles irão estragar. É o pior momento, e ainda tem os ladrões que roubaram a fiação do poste na semana passada”, disse a proprietária da banca da Vânia.

Sem aulas presenciais, Vânia acredita que está perdendo 85% do

Adaptação

O presidente do Sinjor-PR, Laércio Skaraboto, reforça que a ausência de aulas presenciais e os decretos prejudicam no dia a dia, mas o setor está se adaptando ao momento. “Não tendo aula e a mudança nos decretos atrapalham, mas como falamos no nosso meio, é melhor que pingue do que seque. Tem pouco cliente, mas sempre vende algo. A Tribuna do Paraná segue vendendo e produtos alimentícios também”.

Uma novidade recente, já destacada em matéria aqui na Tribuna, foi a volta das figurinhas do palhaço Zequinha. “Agora chegou o álbum e as figurinhas do Zequinha que estão muito bem nas vendas e está dando um respiro para a gente”, relatou Laércio, dono da banca Cândido Abreu, no Centro Cívico, há 34 anos.

Desde 2015, as bancas de jornais e revistas de Curitiba podem comercializar vários produtos, além das revistas e jornais. Os espaços foram revitalizados até para aumentar o público e proporcionar a venda de outros itens, como artigos de papelaria, fotocópias, plastificação, vendas de CDs, DVDs, pendrives e cartões de memória, entre outros. A alteração na lei acabou beneficiando muitos jornaleiros que vendem produtos que antes jamais estariam em uma banca de jornal.

Uma novidade recente, já destacada em matéria aqui na Tribuna, foi a volta

Venda pela internet e melhora na pandemia

Se tem alguns donos de banca reclamando da piora na receita, para outros a pandemia trouxe oportunidade e o rendimento de alguns até melhorou. Alexandre Gonçalves, 46 anos, é o dono da banca AKI Revistaria, localizada na Rua Capitão Leônidas Marques, no bairro Uberaba, teve 40% de lucro comparado 2020 a 2019.

O segredo de Alexandre foi apostar nos colecionadores de carrinhos de brinquedos (miniaturas), jogos e revistas para o público infantil e idosos. “No meu caso eu invisto em colecionismo e parte do meu faturamento hoje é online, com as peças colecionáveis. Com as crianças em casa e os idosos sem sair, as pessoas procuraram revistas infantis e palavras cruzadas. Muitos estão sem ir no jogo de futebol, no restaurante, em um barzinho e o dinheiro foi usado para comprar um carrinho do Senna que ele tanto queria antes. O colecionismo avançou demais na pandemia”, afirmou Alexandre.

Aliás, o dono da Aki Revistaria alerta os colegas jornaleiros para que mudem a forma utilizada há décadas para seguir com o ofício. “Não dá para lutar contra o digital. Hoje, quem não alterou o modo de venda que eu usava há 16 anos quando abri a banca está fadado a morrer”, completou Alexandre.