Embora o desejo de não retornar mais à bandeira vermelha já tenha sido explicitado recentemente pelo prefeito de Curitiba, Rafael Greca (DEM), e também pela secretária da Saúde, Márcia Huçulak, os números atuais da pandemia do coronavírus na cidade mostram que a doença ainda não está controlada e que uma “nova explosão” de casos de infecções, como ocorreu entre março e abril, pode chegar “a qualquer momento”. A avaliação é do professor Emanuel Maltempi de Souza, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em entrevista à Gazeta do Povo, ele considera que a troca de bandeira foi “prematura” – Curitiba saiu da bandeira vermelha e voltou para a bandeira laranja, reduzindo as restrições, nesta quarta-feira (9).

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O professor justifica que a média de 800 casos novos por dia ainda é “muito alta” e lembra da possibilidade de a variante indiana [B.1.617] chegar em Curitiba – o primeiro caso no Paraná já foi confirmado pela Fiocruz, na cidade de Apucarana. “Quando a gente tem um número tão grande de casos novos e 20 mortes por dia, em média, com praticamente 100% de leitos de UTI ocupados, a gente tem um cenário que pode explodir a qualquer momento. Em fevereiro, nós tínhamos um cenário que era um pouco melhor do que este aqui, e aí apareceu a variante P.1 [variante amazônica] e explodiu. Março e abril foram os meses com mais mortes. Se a variante indiana entrar aqui neste momento, nós também podemos ter uma situação tão ruim quanto aquele período ou até pior”, avalia ele.

“Do ponto de vista do controle da doença, o ideal é que a gente mantivesse as restrições de circulação, de eventos que levem a aglomeração, até que nós tenhamos um número baixo de casos novos”, opina ele. No boletim divulgado na quarta-feira (9) pela Secretaria da Saúde, registrou-se mais 919 casos de infecção e mais 25 mortes. Já a taxa de ocupação dos leitos de UTI ficou em 102%; a de leitos de enfermaria em 96%.

Na terça-feira (8), ao anunciar a mudança de bandeira, a própria secretária da Saúde, Márcia Huçulak, reconheceu que os números ainda eram uma preocupação, mas indicou que a redução das restrições tinha relação com a desaceleração da taxa de retransmissão do vírus, que durante a vigência da bandeira vermelha caiu de 1,16 para 0,89. “Se houver qualquer descuido ou falta de adesão aos protocolos, poderemos voltar a ter maiores restrições. Continuar na bandeira laranja ou até mesmo alcançar a amarela depende de todos”, disse ela.

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No mesmo dia, o prefeito Rafael Greca também destacou a queda na taxa de retransmissão ao justificar o retorno à bandeira laranja, mas fez um alerta. Embora a expectativa seja a de nunca mais apelar à bandeira vermelha, a medida não está descartada. “Esperamos que tenha sido a última bandeira vermelha desta longa provação. Mas não hesitarei em fazer nova bandeira vermelha, se for necessário. Porque nosso principal objetivo é salvar vidas. Nosso principal objetivo é, enquanto não acontecer a imunização plena, evitar o colapso dos serviços de saúde de Curitiba”, disse o prefeito.

Efeitos da vacinação

Questionado sobre o andamento da campanha de vacinação contra a Covid-19 em Curitiba e quando isso começaria a influenciar nos números e nas bandeiras de restrição, o professor pontua que a quantidade de imunizados ainda é baixa em relação a toda a população e que, no atual ritmo, os benefícios “claros” podem começar a ser sentidos somente entre final de julho e início de agosto.

“A gente vai começar a ver um efeito claro sobre os números da doença quando a gente estiver perto de 25% a 30% de imunizados [com duas doses]. Hoje em dia a gente vê um efeito pontual. Por exemplo, internações em uma faixa etária dos mais idosos está caindo acentuadamente. Se antes, por exemplo, tínhamos 1.000 pessoas na UTI, 70% eram acima de 60 anos. Hoje, nós continuamos com 1.000 pessoas na UTI, porque os leitos estão lotados, mas a maioria dos pacientes agora tem de 40 a 60 anos. Houve um deslocamento para faixas etárias menores. Espero que a mortalidade global caia. Ainda vamos ver isso”, aponta ele.

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Com uma população de quase 2 milhões de habitantes, Curitiba vacinou cerca de 550 mil moradores com a primeira dose até esta quarta-feira (9), mas, deste grupo, pouco mais de 230 mil pessoas também foram contempladas com a segunda dose, que é quando se encerra o ciclo de imunização, considerando as vacinas utilizadas até aqui no Paraná (Coronavac, da Astrazeneca e da Pfizer). Ou seja, até agora, mais de 10% da população está vacinada em Curitiba com as duas doses.

Além disso, lembra o professor, o ideal é que se chegue à chamada imunidade coletiva, quando 70% a 75% da população está vacinada. “Na imunidade coletiva, se uma pessoa ficar doente, as chances de ela passar para outra pessoa são baixas, porque ela vai interagir com alguém que provavelmente está vacinado. Mas temos outro problema depois. A Covid-19 também afeta crianças e jovens e precisamos pensar na imunização deles. Para mim, esta questão não está resolvida”, afirma ele.