“A batata está valendo tanto quanto o ouro”, assim definiu Sebastião Maciel, de 66 anos, sobre o reflexo da greve dos caminhoneiros na Central de Abastecimento (Ceasa) do Tatuquara, em Curitiba, nesta quarta-feira (30). Da mesma opinião compartilham outros compradores, os próprios vendedores e até mesmo os produtores, que estão lidando com o básico que conseguem para suprir as necessidades da população.

Geralmente, Sebastião utiliza dois caminhões para carregar os produtos comprados na Ceasa, mas, nesta quarta-feira (30), estava somente com um carro comum. Foto: Gerson Klaina
Frequentador da Ceasa há 18 anos, Sebastião conta que nunca viu situação parecida com essa. Foto: Gerson Klaina

Sebastião contou que frequenta a Ceasa todos os dias, há 18 anos, e nunca tinha visto algo parecido acontecer. “Está assustador. Nós viemos hoje quase que só passear aqui, porque não tem quase nada de produto. Se continuar do jeito que está, a situação vai só piorar”, avaliou.

Nesta quarta-feira, décimo dia da manifestação dos caminhoneiros, a Ceasa até abriu normalmente, mas a venda dos produtos foi muito menor do que o comum. A Tribuna do Paraná apurou que o mercado do produtor recebeu 50 agricultores, que comercializaram cerca de 40 toneladas. Já nos boxes atacadistas, o comércio movimentou em torno das 200 toneladas de hortigranjeiros, quando o comum é movimentar entre 2.300 a 2.500 toneladas, de modo geral.

Somente com o básico, Sebastião comentou que comprou só o que realmente precisava para abastecer o restaurante que trabalha. “Pegamos só o que era necessário para manter o restaurante funcionando, pois também tem os funcionários que precisam continuar trabalhando. Mas o saco de batata, com 50 quilos, custou R$ 180 quando o preço normal é R$ 60, um absurdo”.

Pagando R$ 180 na batata, Sebastião ainda pagou menos do que alguns compradores, que chegaram a desembolsar R$ 280 pela mesma quantidade. “O preço varia porque tem pouca oferta e muita demanda, aí já viu, né? Cobram o valor que querem”.

Ceasa tem recebido somente 200 toneladas de alimentos, enquanto em dias normais recebe mais de 2 mil. Foto: Gerson Klaina
Ceasa tem recebido somente 200 toneladas de alimentos, enquanto em dias normais recebe mais de 2 mil. Foto: Gerson Klaina

Comprando só o essencial

Usando o próprio carro para buscar os alimentos, o comerciante Luiz Antônio, que tem três frutarias, disse que também comprou só o essencial. “Das minhas três frutarias, duas nós fechamos. Para você ter uma ideia, geralmente carregamos dois caminhões aqui e hoje eu vim de carro. Tá feia a coisa mesmo, de três lojas fizemos uma e o que temos já está acabando”, contou.

O comerciante disse não ser contrário à manifestação dos caminhoneiros, mas explicou que a situação começou a apertar. “Pra gente começou a pesar, porque temos contas e funcionários para pagar. Como não tem produto para vender, não temos dinheiro entrando”, disse Luiz Antônio enquanto colocava no carro os brócolis que comprou. “Pelo menos o brócolis não subiu o preço”, brincou.

Além da batata, outro item que subiu muito o preço foi a cebola: de R$ 65 o saco com 19 quilos, para R$ 120. Mesmo com o preço lá em cima, dobrando o valor, o alimento até era encontrado em alguns boxes da Ceasa, mas quem procurou por tomate e ovos, por exemplo, voltou com as mãos abanando. O pouco que chegou de um carregamento de ovos, nesta quarta-feira, acabou tão rápido quanto o combustível nos postos da cidade.

João ainda tem bananas armazenadas, mas tem receio de que as frutas comecem a apodrecer sem transporte. Foto: Gerson Klaina
João ainda tem bananas armazenadas, mas tem receio de que as frutas comecem a apodrecer sem transporte. Foto: Gerson Klaina

João Herchen, de 33, vendedor de bananas, cresceu na Ceasa e nunca tinha visto uma crise tão forte atingindo a central. “Nós não fomos tão atingidos porque tínhamos banana armazenada, mas o reflexo vai vir nos próximos dias, pois a fruta precisa de um cuidado diferente. Na roça, está sobrando e estragando alimentos, pois os produtores não conseguem mandar, com medo de os caminhões ficarem presos pelo caminho”.

E o preço final?

Com os números lá em cima, obviamente que o reflexo dos valores vai afetar o bolso dos consumidores. Em alguns casos, como nas frutarias de Luiz Antônio, a tentativa continua sendo a de manter o mesmo preço praticado antes, mas é difícil não subir o valor. No comércio, por exemplo, o quilo da batata teve que ser vendido a R$ 5.

“As pessoas falam que o comerciante está vendendo por um preço absurdo, mas o que acontece é que os comerciantes também estão comprando por um preço absurdo. Claro que isso vai refletir”, explicou o dono das frutarias, que pagou R$ 180 na batata na manhã desta quarta-feira. “O problema é que a coisa vai continuar feia pelos próximos dias, nem sabemos quanto tempo vai levar”.

Vai melhorar?

Segundo a própria Ceasa, a expectativa é de que até a próxima quarta-feira (6), a unidade de Curitiba esteja de volta aos números normais de abastecimento de hortigranjeiros, pelo menos. Apesar disso, quem frequenta a central todos os dias, acredita que vai longe para melhorar a situação. “Avaliando pelo contexto geral, vai ser ruim por, pelo menos, mais uns 10 dias. Depois a coisa começa a normalizar, mas isso se a greve acabar mesmo, porque por enquanto o que a gente vê é notícia de que acabou, mas os caminhoneiros continuam mobilizados”, considerou Sebastião.