Uma boate está provocando uma enorme polêmica no bairro Juvevê, em Curitiba. A casa Dom Corleone foi inaugurada na última quinzena de janeiro e a vizinhança está preocupada com o aumento na circulação de pessoas em um período de pandemia de coronavírus. O estabelecimento foi multado em R$ 10 mil pela Ação Integrada de Fiscalização Urbana (AIFU) por desenvolver atividade diferente da que está especificada no alvará e também por descumprir as medidas restritivas para o enfrentamento da disseminação da covid-19. Desde sábado (30), a boate está interditada e a direção espera resolver pendências para reabrir. “Os vizinhos estão de mimimi e terão que me engolir. Se alguém pagar R$ 2 milhões, eu vendo na hora”.

A Dom Corleone tem como entrada principal a Rua Moyses Marcondes e com um grande letreiro preto com a imagem do mafioso que ficou conhecido no cinema com o filme “O Poderoso Chefão”. Para quem passa por ali, é impossível não notar a frente do estabelecimento. Outra forma de ingressar a boate é pela Rua Campos Sales, via rápida que segue até o Centro Cívico. Alguns meses atrás, o espaço era de uma borracharia, mas com a morte do dono, a área foi transformada em quartos que são utilizados para os relacionamentos “mais quentes”.

Segundo uma moradora que pediu para não ser identificada, o grande problema é que o local está alterando o dia a dia do bairro, que tem tradição de ser um ambiente tranquilo para morar. “Antes ali era um restaurante e fechou. Fomos acompanhando a obra e se transformou em uma casa de entretenimento masculino, como falam hoje em dia. Fizemos várias denúncias em relação a aglomeração e até do alvará, de que eles estavam funcionando de maneira diferente do proposto. Alguns comerciantes estão com medo de denunciar, pois o dono se apresenta como sendo uma pessoa com amigos influentes”, disse a mulher por telefone para a Tribuna do Paraná.

Questionada pela reportagem sobre barulho ou mesmo algum outro tipo de incômodo, a denunciante reforçou que a natureza da operação deixou a vizinhança aflita e cuidadores de carro ficam abordando os homens para que conheçam o Dom Corleone. “Não tem barulho mesmo, mas na rua está tendo abordagens para que as pessoas entrem e conheçam o local.  É uma situação de exposição para nossas crianças e adolescentes do entorno. Não é possível ter uma casa de entretenimento masculino em plena área residencial, ao lado de estabelecimentos frequentados por crianças. Na sexta-feira (29), houve uma grande operação policial e desde então está fechado”, relatou a mulher.

Imagem de abril de 2009 do Google Maps mostra como é a rua em que está localizada a boate. Foto: Reprodução.

Multa e notificação 

A Tribuna do Paraná teve acesso aos documentos das vistorias realizadas pela AIFU, que conta com o auxílio de policiais militares e guardas municipais. Em vistoria realizada no dia 27 de janeiro foi constatado que o estabelecimento tem alvará para o ramo de restaurantes e similares, mas estava funcionando como atividade de bar no momento da visita dos agentes. O estabelecimento foi notificado para paralisar as atividades de bar com entretenimento, restaurante e pensões desenvolvidas no imóvel e apresentar defesa. Foi multado em R$ 10 mil e precisa regularizar o imóvel que apresenta pendências desde quando era um restaurante com antigo dono. Ainda na sexta-feira, uma nova denúncia levou a AIFU novamente na Dom Corleone e desde então, a casa está fechada.

E aí, Dom Corleone?

O dono da boate é Paulo Antônio Fogaça, empresário que reside em Maringá, no noroeste do Paraná. Segundo o responsável pelo empreendimento, a Dom Corleone vai ajudar o bairro na questão da segurança até pela circulação de pessoas e que tudo foi viabilizado com antecedência para evitar transtornos. “Todo dia vai ter monitoramento na rua pelos meus funcionários e a criminalidade vai ser zero. Eu tenho alvará para restaurante e já pedi a alteração. No entanto, não vou deixar estragarem meu comércio. Se eu fechar a minha casa, Curitiba vai ter que fechar por inteira. Não tem barulho, não tem exposição do cliente, um lugar discreto. É um bar executivo e tenho uma estrutura que ninguém tem no bairro”, disse Fogaça, que afirmou ainda que pretende recorrer da multa de R$ 10 mil. Em 2003, Paulo chegou a se envolver em outra polêmica em uma boate em Maringá.

Perguntado pela reportagem quanto aos vizinhos que estão reclamando do tipo de serviço realizado dentro da boate, Fogaça rebate e faz até uma proposta de venda do lugar. “O que pensam os moradores do Juvevê eu não estou nem aí. É um mimimi e eles terão que me engolir. É só fazer uma transferência de R$ 2 milhões que acaba o problema. Meu público é discreto, tenho 14 funcionários e nesta sexta-feira (05) vou pagar o salário de todos. Passando o período de experiência, eles serão registrados. Não estou aqui para sacanear ninguém e só entra na minha casa quer quiser. Não existe abordagem na rua como foi falado e estou providenciado uma nova cobertura além da retrátil que já temos. Só não permito de maneira alguma droga e menor na casa. E já aviso que estou montando outra boate, a Intocáveis, uma ainda maior ali na Rua Alberto Foloni, no Ahú”, completou o dono da boate.