A busca por ajuda de pessoas para parar de beber no Alcoólicos Anônimos (AA) disparou no Paraná desde o início da pandemia de coronavírus em março, com cerca de 250 novas procuras por ajuda por mês. Antes da pandemia, a média era de 100 novas buscas mensais. O aumento foi de 150%.

Para os membros do AA, dois fatores são responsáveis. O primeiro deles é a publicação de constantes pesquisas mostrando que o consumo de álcool tem aumentado na pandemia. O segundo fator, na verdade, é uma facilidade. Por causa do isolamento social para prevenir o contágio da covid-19, agora as reuniões são por videoconferência na internet. Ou seja, a pessoa não precisa ir até uma das sedes do AA.

Para participar das reuniões on-line do Alcoólicos Anônimos, basta acessar o site de reuniões virtuais. Reuniões ocorrem de segunda-feira à sexta-feira, a partir das 20h. Essa nova forma de ajuda para quem tem problema com bebida chamou a atenção, já que nem os membros esperavam que os grupos online fossem funcionar tão bem. Houve, inclusive, um crescimento da participação de mulheres.

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Com os atendimentos on-line na pandemia, os familiares dos membros do AA também estão participando mais das reuniões do Al-Anon, o programa de ajuda e suporte aos membros do AA. O anonimato tanto no AA como no Al-Anon segue sendo preservado.

“Os encontros têm sido todos virtuais. No início, achamos que poderia não dar certo e as salas foram criadas como alternativa provisória. Agora, com a grande adesão, vamos avaliar a sequência dessa atividade, quando a pandemia passar”, enfatiza César, um dos membros do AA que organiza as sessões em Curitiba.

César explica que a sessão on-line segue a mesma dinâmica das presenciais. “Quem chega no grupo não precisa ligar a câmera, mas a pessoa percebe que está em um local acolhedor e, aos poucos, vai criando coragem para fazer o seu relato”, aponta.

Segundo o AA, que completou 52 anos de existência no início deste mês de setembro, na pandemia ocorrem cerca de 3 mil reuniões mensais no Brasil, com cerca de 20 mil novas pessoas. No Paraná, são 200 reuniões e 4 mil pessoas atendidas. O estado tem 250 grupos ativos.

De acordo com César, o perfil das pessoas que procuram ajuda mudou em comparação com o período anterior à pandemia. “Estamos tendo mais mulheres e famílias. Cerca de 70% das novas procuras por mês, no Paraná, são desse grupo de pessoas. As famílias são encaminhadas para o Al-Anon, o programa de Doze Passos que é para familiares e amigos de alcoólicos”, conta o membro. A média de idade de quem procura a instituição segue a mesma, com pessoas entre 30 a 45 anos.

É o caso da Viviane, de 46 anos, que procurou o AA e chegou até a Al-Anon, onde participa das reuniões pela internet junto com o marido. “Vi que estava no limite. Em um momento de desespero, entendi que estava doente. Procurei o AA na internet. Uma pessoa atendeu, conversou comigo, tentou me acalmar e me indicou o grupo de familiares e amigos de alcoólicos”, conta ela, que se trata on-line desde abril. “Já tinha pensado em procurar ajuda antes da pandemia, mas a pressão social me impedia. Fui muito bem acolhida virtualmente”, revela.

Da vida antes da pandemia, Viviane conta que o problema com a bebida sempre existiu entre o casal, mas ficava camuflado na rotina. “Vendo por esse lado, ficar mais tempo em casa apenas reforçou o que não queríamos enxergar”, disse.

Mais gente bebendo

Outro fator que pode ter contribuído para o crescimento da busca pela ajuda do AA é o aumento da venda de bebida alcoólica no comérci. Números que aparecem em pesquisas nacionais recentes amplamente divulgadas apontam 27% de crescimento nas vendas em supermercados e 38% em distribuidoras. Isso mesmo com a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de que a comercialização seja limitada no combate ao novo vírus.

“São dados que podem se refletir em mais consumo dentro de casa. O isolamento também evidencia a dependência. Não há estudo específico do AA sobre a pandemia, mas, em uma rápida análise, se cruzamos os dados com o número de famílias que têm procurado ajuda, faz sentido levar em conta esse fator”, reflete César.

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Dados do Ministério da Saúde mostram que o alcoolismo é um mal que atinge cerca de 12% dos brasileiros. Conforme aponta o AA, em situações de confinamento, como a que o mundo está vivendo em decorrência da pandemia, o problema pode se tornar insustentável. De acordo com a presidente da Junta de Serviços de AA do Brasil (Junaab), Camila Ribeiro, os pedidos de ajuda a partir do formulário no site aumentaram na ordem de 150%.

“Antes da pandemia tínhamos média diária de quatro a seis pedidos de ajuda por e-mail, que é nosso elo de ligação com sociedade. Hoje, os pedidos de ajuda são de 10 a 15”, ressalta Camila. 

Números de pesquisa interna revelam que cerca de 68% dos dependentes que frequentam o AA nunca mais voltaram a beber. “Ali nos fortalecemos. São 12 passos. Essa troca de experiência nos mostra que somos importantes, que temos que cuidar de nós mesmos para podermos cuidar do outro. Um dia de cada vez”, finaliza Viviane referindo-se ao lema do Alcoólicos Anônnimos.

Para saber mais acesse o portal www.aapr.org.br.