Para a secretária municipal de Saúde de Curitiba, Márcia Huçulak, o anúncio do governo do Paraná do calendário de aplicação da primeira dose da vacina de Covid-19 até setembro não teve respaldo técnico, mas sim apelo político. Em entrevista à Gazeta do Povo, Márcia Huçulak reclamou que o calendário anunciado pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) não foi pactuado na Comissão Intergestores Bipartite do Paraná (CIB), onde o estado e municípios definem as diretrizes do SUS.

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“Houve pressa na divulgação do calendário. Faltou combinar com quem bota a bola para rolar”, critica a secretária de Curitiba. “É uma mensagem equivocada esse calendário diante do desequilíbrio no envio de doses”, completou Márcia, referindo-se à reclamação enviada ao governo estadual quarta-feira (16) reivindicando que a capital receba mais vacinas, em comparação a outros 191 municípios que teriam recebido mais vacinas proporcionalmente.

Na entrevista, a secretária também revela que o prefeito Rafael Greca (DEM) informou pessoalmente o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, da situação. E garante que a Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba tem condições de cumprir a meta do governo do estado, desde que haja doses. “Temos condições de concluir a vacinação até antes desse calendário, daqui 22 dias, se tiver garantia de doses. Boto as equipes para trabalhar dia e noite, fim de semana, feriado e conseguiríamos vacinar todos acima de 18 anos em 22 dias”, ressalta. Leia a entrevista a seguir:

Qual avaliação a senhora faz do calendário de conclusão da vacinação em setembro anunciada pelo governo do Paraná?

Esse calendário tem mais apelo político do que técnico. Isso porque quem tem vacina para distribuir no país é o governo federal. Então só quem controla a produção é que pode se comprometer com datas. A gente está vendo uma série de dificuldades do Ministério da Saúde na entrega de doses desde o início da vacinação, como o atraso do envio das vacinas da Jansen essa semana, a fábrica do Butantan que ficou um mês sem produzir por atraso no insumo.

Entendo o governo do estado que quer vacinar a população o quanto antes e nós também queremos muito. Mas as condições não estão sendo justas. Chega de prometer o que não se pode dar garantia de que será cumprido. Temos que fazer do jeito curitibano, porque só prometemos o que podemos cumprir.

Não tenho nada contra o calendário do governo. Mas se criou uma celeuma desnecessária, porque para garantir o calendário até setembro, precisamos de garantia de doses. Por exemplo, eu queria muito anunciar a vacinação nessa semana do público de 40 anos. Mas para isso Curitiba precisa de 253 mil doses que foram pedidas ao secretário estadual de Saúde Beto Preto. Quem mais tem interesse em vacinar a população somos nós, até porque temos visto o efeito positivo da vacina nos outros países em que as pessoas já podem circular sem máscara, em que as mortes caíram.

A senhora e o prefeito Rafael Greca têm sido muito cobrados porque a vacinação não avança. O que a senhora tem respondido?

A gente está sendo muito cobrado com gente dizendo que temos vacina em estoque e não estamos aplicando. Mas veja, começamos o dia nesta quinta-feira com 41.750 doses. Só que se pelo nosso cronograma deveriam ser aplicadas 43.420 doses só nesta quinta. E vale ressaltar que boa parte das remessas que recebemos já chega carimbada, já vem com destino obrigatório de quem vai ser vacinado, os grupos prioritários.

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Por exemplo, tivemos que separar na última remessa 9.200 doses para forças de segurança – lembrando que nesse caso muitos policiais da região metropolitana vem se vacinar aqui em Curitiba -, 15.346 para profissionais da educação de nível superior, 3.200 para o pessoal da limpeza pública, 1.080 doses para detentos nas prisões…. Essas doses não posso aplicar na população que está nas faixas por idades.

Os trabalhadores de saúde é outro caso. Inicialmente o governo havia decidido imunizar apenas quem trabalhava realmente no atendimento clínico. Agora, o estado abriu a vacinação para um total de 14 atividades profissionais ligadas à saúde, como médicos veterinários ou profissionais que são da saúde mas que não atuam em unidades de saúde, como nutricionistas de restaurantes. Só aí são mais 20 mil pessoas. Diante disso tudo não consigo avançar na população geral, no pessoal que vai tomar a vacina por faixas de idade.

O governo do estado procurou a prefeitura de Curitiba para avaliar se a capital poderia de fato cumprir a meta de conclusão da vacinação até setembro?

Não houve pactuação desse calendário por parte do governo no Conselho Intergestores Bipartide [CIB], que é onde estado e os municípios pactuam as decisões do SUS. Isso não foi levado ao CIB, o que colocou a decisão em xeque não só em Curitiba, mas também em outros municípios que receberam doses desproporcionalmente. Enquanto há cidade vacinando pessoas com 18 anos, há cidades que estão até pior do que Curitiba, que nem chegou ao público de 58 anos. Aí são os prefeitos que ouvem por que a vacinação não avança.

Houve uma pressa na divulgação do calendário. Faltou combinar com quem bota a bola para rolar. Se os grandes centros recebessem mais doses, o impacto da vacinação seria maior, porque é onde as pessoas mais circulam, onde há mais aglomerações. A probabilidade de ter aglomeração em uma cidade de apenas 2 mil habitantes é muito menor do que em Curitiba, onde nossa equipe de fiscalização flagrou esse mesmo número de 2 mil pessoas só em um evento religioso numa igreja ano passado.

Qual foi a reação do prefeito Rafael Greca quando a senhora apresentou o relatório do desequilíbrio proporcional no envio de vacinas a Curitiba?

O prefeito já vinha me cobrando, e com razão, por que não avançávamos a vacinação por idades. Eu expliquei que boa parte dos lotes já vinham com vacinas “carimbadas”, que obrigatoriamente teríamos que aplicar nos grupos prioritários definidos. Por isso após a vacinação dos idosos nós passamos a defender a vacinação da população por idade, sem grupos prioritários, que seria a melhor forma de organizar. Apresentamos a proposta inclusive ao Ministério da Saúde, que na sequência acatou a ideia.

A prefeitura levou essa reclamação de que Curitiba estaria recebendo menos vacinas proporcionalmente diretamente ao Ministério da Saúde?

O prefeito é amigo do ministro Marcelo Queiroga e relatou a situação ontem mesmo [quarta] em mensagem por WhatsApp. O prefeito tentou ligar, mas o ministro não podia atender. O ministro Marcelo Queiroga tem nos atendido. Quando publicamos o decreto da bandeira vermelha, por exemplo, ele nos ligou para saber qual era o quadro.

E com o secretário estadual de Saúde Beto Preto, a senhora conversou após a divulgação do calendário de vacinação até setembro?

Não falamos com o Beto Preto. Mas quando levei o relatório do desequilíbrio de doses em Curitiba, o prefeito tentou ligar para o governador Ratinho Jr, que não pôde atender por questão de agenda. Então o prefeito foi atendido pelo chefe da Casa Civil, Guto Silva. Na sequência foi feito o ofício enviado ao governo do estado relatando esse desequilíbrio.

Essa não é a primeira vez que a prefeitura de Curitiba, em especial a senhora, entra em choque com decisões do governo do estado ao longo da pandemia. A senhora também reivindicou mais doses quando o governo anunciou o programa de vacinação aos domingos e a vacinação de professores, que acabou interferindo na aplicação das grávidas. Como a senhora avalia a relação da prefeitura com o governo do estado ao longo da pandemia?

O diálogo com o governo é bom. Até porque o prefeito é da base do governo. Mas houve uma contaminação política no anúncio do calendário que deveria ser uma decisão técnica. Se não tiver doses, não tem cronograma. O problema não é calendário, não é de datas, é de doses de vacina.

Não tenho interesse em brigas, não gosto de ficar cobrando ninguém, o que é muito chato. Mas cobro critério, que neste caso não está transparente. É uma mensagem equivocada esse calendário diante desse desequilíbrio de doses.

Qual é a capacidade de fato de Curitiba para cumprir essa meta do governo se tiver doses suficientes?

Temos condições de seguir o cronograma do governo, desde que haja doses. Se tivéssemos doses suficientes, com garantia de entregas, temos capacidade de concluir a aplicação antes antes de desse prazo, daqui 22 dias. Boto as equipes para trabalhar dia e noite, fim de semana, feriado e conseguiríamos vacinar todos acima de 18 anos em 22 dias.

Sesa

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde se posicionou sobre as declarações da secretaria de Saúde de Curitiba:

“A Secretaria de Estado da Saúde desenhou o calendário da vacinação estimando a frequência do envio de doses que chegam ao Paraná pelo Ministério da Saúde, especialmente dos lotes das últimas entregas. É, certamente, um cronograma referencial para aplicação da população em geral por idade. O que não impede, por exemplo, que municípios que estejam mais adiantados possam acelerar a vacinação em outras faixas. Não faria qualquer sentido exigir que um município segurasse a continuidade da imunização por idade caso já tivesse completado a anterior. A Sesa ressalta que o calendário leva em conta a frequência de vacinas que estão chegando ao Estado, bem como o ritmo de distribuição pelo Ministério da Saúde.”