Motoristas de aplicativos dizem estar cansados da insegurança que passam diariamente enquanto trabalham. Depois de mais uma morte, do motorista Valmir João Nichel, que foi encontrado no final da tarde de domingo (13), no limite de Curitiba com São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), os colegas de trabalho mobilizaram, na manhã desta segunda-feira (14), uma manifestação e foram recebidos pelo secretário de segurança do Paraná, Júlio Reis.

O protesto dos motoristas foi feito em frente ao Palácio Iguaçu e mobilizou pelo menos 60 carros, conforme os próprios trabalhadores. Segundo eles, todos têm trabalhado com medo, pois desde o começo do ano já foram cinco mortes só em Curitiba e região. No fim da manhã, alguns dos motoristas foram atendidos pelo secretário para expressar suas principais necessidades relacionadas a segurança durante o trabalho.

“Recebemos a garantia de que a segurança vai ser reforçada, com medidas mais rígidas. Além disso, a própria secretaria está marcando uma reunião com as empresas de aplicativo, para ser discutido um novo sistema de segurança para os motoristas. Estaremos presentes nesse contato direto das empresas e a secretaria”, disse Arnaldo Milki.

Além da reclamação sobre a falta de segurança, os motoristas também pediam que as investigações dos crimes relacionados às mortes registradas fossem mais rápidas. “E o secretário se dispôs a colocar todo o efetivo da polícia para investigar ainda mais rápido estes crimes”.

Segundo o secretário Júlio Reis, as investigações de assassinato de motoristas de aplicativos já têm sido conduzidas com mais agilidade. “Tanto que boa parte dos casos foram esclarecidos, com prisões realizadas, e a polícia tem tratado o assunto com absoluta prioridade”, destacou, reforçando que, em alguns dos casos, os motoristas não estavam trabalhando. “E aí, nestes casos, o crime pode ter ligação com alguma questão pessoal, mas ainda assim é nossa prioridade”.

Sobre a explicação do próprio secretário, o motorista Arnaldo Milki explicou que, em pelo menos grande parte dos crimes, os motoristas estavam sim trabalhando. “Acontece que o motorista hoje é chamado pelo aplicativo e o bandido faz com que ele feche a corrida. Então, para as empresas, os motoristas não estavam trabalhando, mas 90% deles estava sim de serviço”.

Na questão da tecnologia, o secretário avaliou que é importante que os aplicativos reforcem a segurança e, por isso, foi marcada uma reunião com o departamento de inteligência. “A tecnologia precisa trabalhar a nosso favor. Pela forma do trabalho, os motoristas estão mais expostos e por isso precisamos avançar no sentido de que a tecnologia nos auxilie. Além disso, vamos orientar a Polícia Militar para que as blitze que têm sido feitas sejam ainda mais rigorosas, não focando apenas nos motoristas, mas também nos passageiros”.

Paralisação

A manifestação desta segunda-feira teve a participação de poucos motoristas porque, segundo avaliação dos próprios trabalhadores, foi feita às pressas depois da morte de Valmir. Apesar disso, nesta terça-feira (15), a promessa é de um novo protesto, maior, na Câmara de Vereadores de Curitiba (CMC), a partir das 10h. “Nós também vamos à Assembleia Legislativa à tarde e a nossa intenção é a de paralisar todos os serviços de aplicativos em Curitiba nesta terça-feira”, adiantou o motorista Arnaldo Milki.

Velório e sepultamento

O desaparecimento do motorista, encontrado morto neste domingo, tinha sido publicado pela família dele nas redes sociais e foi notificado à Polícia Civil. Valmir teria sumido por volta das 20h de sábado (12) e visualizou o Whatsapp pela última vez às 22h. Antes de o corpo ser achado, o carro foi encontrado.

A Polícia Civil já começou a investigar, pela Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), mas ainda não divulgou nenhuma motivação para o crime. Há suspeita que seja um latrocínio – que é o roubo com morte. O velório e o sepultamento vão ser na capela do Cemitério do Umbará, mas os horários ainda não foram definidos.

A reportagem solicitou resposta sobre a reunião e sobre as mortes às empresas Uber, Cabify e 99 Pop.

99 Pop

À Tribuna a 99 informou em nota que é uma empresa preocupada com a segurança de seus passageiros e motoristas. “O assunto é prioridade máxima do aplicativo, e um de seus três pilares fundamentais: promover transporte rápido, econômico e seguro”.

De acordo com a 99, para garantir que o serviço seja seguro, plataforma montou uma equipe especializada, formada por mais de 30 pessoas incluindo ex-militares, engenheiros de dados e até psicólogos e ainda promove treinamentos para seu condutores. “Com isso, 99,99% das corridas são seguras atualmente”.

Para garantir a segurança dos motoristas a 99 ainda informou que pede que todos os passageiros informem CPF ou cartão de crédito antes da primeira corrida, que faz um mapeamento das áreas de risco na cidade e que possui inteligência artificial, que monitora o perfil de todas as corridas em tempo real, avisando o motorista em caso de chamadas perigosas, entre outras iniciativas.

Outra medida seguida é manter um canal de atendimento exclusivo para incidentes de segurança no 0800-888-8999, que oferece auxílio imediato. “A assistência pode incluir o envio de um carro em ocorrências em que o veículo tenha sido levado, por exemplo”.

Uber

A Uber afirma que tem adotado no Brasil a tecnologia de machine learning para identificar riscos com base na análise, em tempo real, dos dados das milhões de viagens realizadas diariamente por meio do aplicativo, bloqueando as viagens consideradas mais arriscadas. Além disso, a Uber informa que possui outras camadas de tecnologia, como a verificação de dados dos usuários, informações que são conferidas com a base de dados do governo federal ou junto às instituições financeiras, no caso de pagamentos com cartão de crédito.

Durante a viagem, segundo a Uber, é possível compartilhar localização e o tempo de chegada em tempo real com quem o usuário ou o motorista desejarem. Em caso de assaltos ou outros crimes, a orientação da plataforma é que o motorista procure a polícia.

“Infelizmente, a violência urbana permeia a vida nas cidades. Em caso de assalto ou qualquer tipo de violência, orientamos os usuários a contatar imediatamente as autoridades policiais. É importante também fazer um Boletim de Ocorrência para que os órgãos competentes tenham ciência do ocorrido e possam tomar as medidas cabíveis. Em caso de investigações e processos judiciais, a Uber sempre se coloca à disposição das autoridades para colaborar com as investigações, nos termos da lei”.

Ainda de acordo com a empresa, os motoristas parceiros contam com um número de telefone 0800 para registrar casos de emergência e solicitar apoio da Uber, depois que estiverem em segurança e tiverem contatado as autoridades competentes.

Cabify

Em nota, a Cabify lamenta o ocorrido e salienta que está aberta ao diálogo sobre como auxiliar em questões relacionadas à segurança pública. A empresa está em contato com o Poder Público Paranaense e participou de audiências sobre o tema com a Secretaria de Segurança de Curitiba. A empresa acredita que todos têm o direito de ir e vir em um ambiente seguro, repudiando qualquer tipo de violência em relação aos passageiros e motoristas parceiros. Buscando garantir a segurança dos motoristas parceiros e usuários que utilizam a plataforma, a Cabify investe e desenvolve continuamente tecnologias para reduzir os possíveis riscos de segurança de todos os envolvidos na plataforma de mobilidade.

“Essa tecnologia traz informações de todas as etapas de uma viagem – o pedido, a aceitação do motorista parceiro, a finalização da corrida e o pagamento – fazendo com que todas as viagens tenham diferentes tipos de registros, inclusive por GPS, mostrando as informações da viagem. Com isso, é possível que a equipe da Cabify possa dar suporte em caso de incidentes, tendo conhecimento, sempre respeitando a legislação vigente, do motorista parceiro, do usuário, do trajeto feito e dos seus históricos”.

A Cabify afirma que oferece, ainda, o Seguro de Acidentes Pessoais a Passageiros (APP) e para o suporte aos usuários e motoristas parceiros, conta com um serviço de atendimento 24 horas. “A empresa faz, ainda, sessões informativas presenciais com dicas de atendimento de qualidade e de segurança, além de sempre estar à disposição das autoridades locais no sentido de auxiliar em eventuais investigações“.

Inimigo a bordo