O nível dos reservatórios de Curitiba e região metropolitana atingiu a marca de 45% nesta terça-feira (26), o melhor índice desde o dia 11 de novembro, quando a média nos reservatórios chegou a 26,7%. As chuvas acumuladas dos meses de novembro, dezembro e janeiro foram determinantes para que viesse esse alívio hídrico. Mas, poderia ser melhor e o culpado disso é o relevo curitibano e também um pouquinho de falta de sorte.

Pelo menos essa é a explicação do meteorologista Paulo Barbieri, especialista do Sistema Meteorológico do Paraná – Simepar. No acumulado de janeiro foram registrados 156 mm de chuva (a previsão é de que até o final do mês chegue a 200 mm). A questão é que em Guaraqueçaba, distante cerca de 100 km da capital (numa linha reta) a precipitação chegou a 700 mm.

“Está chovendo em outras regiões. Estamos com um fluxo de umidade muito grande vindo da região Norte do Brasil e tem influenciado em todas as regiões. Aqui também, mas de uma forma bem mais leve. A instabilidade está presente na região, talvez não da forma como esperávamos”, disse à Tribuna. Em locais como Santa Catarina, especificamente em Florianópolis, e São Paulo, na capital, diariamente ouve-se falar de alagamentos e chuvas torrenciais.

A culpa é de quem?

“A culpa é do relevo”, disparou o meteorologista, que ainda riu quando questionado se trava-se de “falta de sorte” de nossa parte. “O homem lá de cima não tá ajudando”.

E não é que é isso mesmo? O problema é que Curitiba está localizada numa área que não é ideal para a ocorrência de chuvas. Quem explica mais sobre isso é o professor de geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Fábio Braz. “Ele (Paulo Barbieri) está totalmente correto. Chamamos o estudo de geomorfologia e do lado Leste de Curitiba temos a Serra do Mar, que funciona como uma barreira climática natural que impede que a umidade vinda do mar chegue até aqui”, explicou.

A Serra do Mar funciona como um grande paredão, que faz com que Curitiba não sofra com grandes precipitações. Foto: Arquivo/Jonathan Campos/Gazeta do Povo.

De acordo com o professor, este fator é determinante para que Curitiba não sofra com grandes precipitações. “Não quer dizer que não chove, mas não estamos numa região favorecida por chuvas. Estamos bem perto do mar, mas numa altitude elevada e com um verdadeiro muro entre nós que é a Serra do Mar”.

Curitiba vem numa retomada interessante de chuvas. Foram cerca de 200 mm em novembro, 150 em dezembro e até o final do mês a média deve chegar novamente em 200 mm. Neste ritmo, levando em conta o ritmo de chuvas de fevereiro e março, a situação do rodízio no abastecimento de água em Curitiba e região deve ser resolvida até o final de março.

A previsão do Simepar é que o tempo continue chuvoso nos próximos dias. “A gente vem de nove ou dez dias seguidos de chuva e até o final do mês a previsão se mantém. Na sexta-feira uma frente fria pode trazer ainda mais água na parte sul da Grande Curitiba”, prevê o meteorologista do Simepar.

Otimismo com cautela

O rodízio mais duro, no padrão 36 horas com água por 36 horas sem água começou em agosto. De lá para cá passamos a acompanhar com apreensão a situação dos reservatórios de Curitiba, que secaram numa velocidade espantosa. Graças às chuvas e também ao esforço da população – se não de maneira forçada pelo rodízio, pela mudança de hábitos para economizar água – a situação melhorou.

Em 2020 os reservatórios que abastecem Curitiba e região secaram numa velocidade espantosa Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná.

De 1º a 26 de dezembro o nível subiu 9,7% e em janeiro subiu cerca de 4,2% até esta terça-feira. “Não foi tão bom quanto esperávamos. Temos que ter os pés no chão, torcer para que chova e esperar para tomarmos outras medidas para reduzir o rodízio e até pensar em extingui-lo”, explicou Julio Gonchorosky, diretor de Meio Ambiente da Sanepar, que chegou a afirmar, em setembro, que os reservatórios poderiam secar se não chovesse pra valer em Curitiba e região.

Com a melhora no nível dos reservatórios, muita gente esperava que a Sanepar voltasse um “passo” atrás e, apesar de mater o rodízio, tornasse-o menos severo. Contudo, o foco da Companhia de Abastecimento do Paraná ainda é que o nível dos reservatórios atinja uma média de 60% até o final de março. Se isso acontecer dentro do previsto, o rodízio será encerrado.

“Se percebermos uma tendência de alta em fevereiro e março, podemos analisar uma flexibilização do rodízio. Mas precisamos de segurança para termos um outono e um inverno mais tranquilos. Para isso, seria muito importante terminarmos janeiro com 50% no nível médio dos reservatórios”, disse Julio Gonchorosky.

Se fevereiro e março se mantiverem na média de chuvas, a perspectiva é otimista. “Se as chuvas vierem dentro da média, temos possibilidade de atingir a meta. Mas Esperamos que chova mais, parece que Curitiba tem um bloqueio. É cercado por chuvas fortes, mas aqui não. É incrível”, comentou.

A população tem se esforçado e ganhou elogios do representante da Sanepar. “Com o rodízio conseguimos economizar 1800 litros por segundo. A população já economizou 15 bilhões de litros. Estamos com a economiza de 18%, próximos da Meta20% que propusemos. Estamos chegando lá”, concluiu.