A recomendação de evitar a circulação de pessoas devido à pandemia de covid-19 está impactando todas as áreas de trabalho. No caso dos motoristas de aplicativo de transporte, como Uber e 99, com a falta de passageiros, o dinheiro no bolso está cada vez menor e a devolução do carro as locadoras de Curitiba aumentou neste período. Segundo a Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (ABLA), a movimentação de locações diárias caiu 90% e de frotas 30% em âmbito nacional.

Com a queda no número de corridas, os motoristas, que na maioria das vezes só têm esta fonte de renda, estão decidindo cortar todas as despesas. O aluguel de veículo com a inclusão do seguro chega perto dos R$ 1,5 mil por mês e, para não acumular dívidas, o jeito foi devolver os carros para as locadoras.

Luciane Venturi, 41 anos, iniciou nos aplicativos em novembro de 2019. Separada e com duas filhas menores de idade, buscou no transporte de passageiros uma solução financeira. Ela trabalhava dez horas por dia e tinha uma média de 20 corridas. Com o coronavírus, passou a ficar parada nas ruas, pois chegou a ter apenas duas corridas em um dia de trabalho. Sem grana, a solução foi entregar o Fiat Argo, no dia 24 de março. “Não poderia ficar no aplicativo, pois só estava gastando com combustível. Cheguei a ter só duas corridas em vários dias. Aí decidi entregar o carro, pois não teria condições de pagar a locadora. Perdi meu ganha pão”, confidenciou Luciane.  

Em dois dias de trabalho, os ganhos de Luciane chegaram a apenas R$ 35,46. Foto: arquivo pessoal.

Sem trabalho, Luciene está recebendo ajuda da família no momento. A filha mais nova (Emy), tem dificuldades respiratórias e para evitar a possibilidade de ser infectada, a família se mudou para um sítio em Campo Largo, região metropolitana de Curitiba. “Estou dependendo exclusivamente dos meus parentes. A Emy, tem o pulmão bem afetado desde que nasceu e gasto com curativos. Recebo ajuda do governo federal na sonda de aspiração. Se tivesse que comprar, não daria”, desabafou Luciene.

Quanto ao futuro, a motorista espera com ansiedade a aprovação no cadastro emergencial do projeto chamado de “coronavoucher”, que vai beneficiar várias categorias, entre elas taxistas e motoristas de aplicativos, para receber um auxílio de R$ 600 durante os próximos três meses. “Esta ajuda é mínima, pois tenho gastos no cartão de credito e outras contas. O problema que a dívida vai aumentar e possivelmente não terei crédito para retornar ao aplicativo”, relatou Luciene Venturi. Os pagamentos do auxílio emergencial começam nesta terça-feira (14).

Ajuda da categoria

O caso da Luciene e de tantos outros motoristas de aplicativos em Curitiba e na região Metropolitana causa preocupação na categoria. Paulo Sérgio de Lima, 37 anos, representante da classe, tem escutado muitos relatos de dificuldade com pessoas em necessidade até para se alimentar. “A situação está muito difícil e estamos tentando ajudar de alguma forma como a doação de cestas básicas. As locadoras até estão dando descontos para o motorista seguir com o carro, mas mesmo assim está complicado. A ajuda do governo é importante, mas isto não vai mudar a vida do motorista ”, disse Paulo Sérgio.

Locadoras de veículos

De acordo com a ABLA, um em cada quatro motoristas de aplicativos usa veículo alugado no país, atingindo 200 mil pessoas. No Paraná, são 414 locadoras de veículos, com 3.112 empregos. A Localiza, empresa com maior número de motoristas de aplicativo relatou em nota para a Tribuna do Paraná que está oferecendo condições especiais para o aluguel de carros e possui um canal de relacionamento digital específico para atendimento a esse público.