A prefeitura de Curitiba mais do que dobrou o aporte a hospitais que prestam atendimento público, passando de R$ 13,2 milhões para R$ 31,2 milhões – aumento de aproximadamente 136%. O reajuste não acontecia desde 2012, quando o município passou a reforçar o caixa da rede hospitalar além do repasse do Sistema Único de Saúde (SUS). A meta da prefeitura é principalmente agilizar a entrada dos pacientes nos hospitais após atendimento nas unidades de saúde, seja para internamentos ou consultas com médicos especialistas.

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O planejamento de como os 13 hospitais vão aplicar esse dinheiro será definido entre cada unidade e a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) nos próximos dias. Entre as ações nas quais a SMS quer que os hospitais invistam para dar mais velocidade nos processos está a teleconsulta – atendimento em que o médico atende o paciente por videochamada.

Para os hospitais, a ajuda da prefeitura é mais do que bem-vinda. Porém, os aportes municipal e do SUS ainda não bancam os custos dos atendimentos, fazendo com que as instituições continuem a buscar outras fontes de recursos.

O aumento no repasse da prefeitura era uma reivindicação dos hospitais nos últimos anos para ajustar a inflação dos custos da saúde desde 2012. Gastos que foram potencializados ainda mais com a pandemia do coronavírus, quando as despesas com medicamentos, insumos e contratação de profissionais explodiram.

Até o anúncio do reajuste no dia 5 de julho, eram 10 hospitais que recebiam da prefeitura R$ 150 mil por mês cada um. Agora, o repasse da Secretaria Municipal de Saúde será para 13 hospitais nos valores de R$ 400 mil, R$ 250 mil e R$ 150 mil, conforme a complexidade de atendimento das unidades. Foram incluídos mais três hospitais no aporte: Erasto Gaertner, Madalena Sofia e Maternidade Mater Dei – essa última por ter absorvido os atendimentos da Maternidade Municipal Victor Ferreira do Amaral, que na pandemia passou a atender casos de Covid-19.

Os hospitais Cajuru, Evangélico Mackenzie e Trabalhador receberão o maior valor, de R$ 400 mil mensais cada, por terem pronto-socorro. No segundo patamar vêm a Santa Casa e o Hospital da Cruz Vermelha, unidades beneficentes com foco principal no atendimento clínico, com R$ 250 mil por mês.

Os outros nove hospitais receberão mensalmente R$ 150 mil: Hospital de Clínicas, São Vicente, Pequeno Príncipe, Madalena Sofia, Erasto Gaertner, Maternindade Mater Dei, além dos dois hospitais do próprio município, o Idoso e o Centro Médico Comunitário Bairro Novo.

Agilidade no atendimento

A secretária Municipal de Saúde, Márcia Huçulak, explica que o objetivo do reajuste e ampliação no repasse é não só adequar os custos da inflação, mas também melhorar processos para diminuir filas de atendimento no sistema. “Esse dinheiro é para bancar custos que o SUS não cobre, não só em termos de quantidade de atendimento, mas principalmente de qualidade. A gente quer que os hospitais sejam mais ágeis para receber os pacientes encaminhados pelas unidades de saúde do município”, enfatiza a secretária de Saúde.

Segundo Huçulak, com mais investimento, os hospitais poderão melhorar a regulação assistencial, absorvendo com mais velocidade diversos atendimentos. “Uma pessoa que chega na Unidade de Pronto Atendimento [UPA] com lesão vascular por diabetes, por exemplo. Às vezes ela fica um, dois dias internada na UPA à espera de uma avaliação do médico especialista. Esse tempo de espera que queremos reduzir”, ilustra a secretária.

Uma das possibilidade para agilizar esse processo com o repasse maior aos hospitais, aponta Márcia Huçulak, é a adoção da teleconsulta. “Queremos que os hospitais apostem nesse tipo de atendimento. Não tem mais por que o paciente sair de casa só para receber do médico o retorno de um resultado de exame, por exemplo. Queremos que o paciente só vá para o hospital quando realmente precisar”, cita a chefe da saúde municipal em Curitiba.

No Hospital Erasto Gaertner, referência no tratamento de câncer no estado, o recurso da prefeitura vai justamente complementar a receita proveniente do SUS, contribuindo para reduzir o déficit orçamentário nos atendimentos. O objetivo é facilitar a entrada de pacientes que chegam nas UPAs e precisam de diagnóstico ou tratamento oncológico.

“Esse aporte apoiará as melhorias no atendimento de urgência e a aceleração das avaliações nas especialidades, que no nosso caso é a oncologia. O apoio diagnóstico para as UPAs e a absorção do paciente à rede hospitalar trará maior velocidade ao sistema de saúde, beneficiando sobretudo o paciente”, aponta a diretora geral do Complexo de Saúde Erasto Gaertner, a médica Carla Martins, em entrevista por e-mail.

Custos

O presidente da Federação dos Hospitais Beneficentes do Paraná (Femipa), Flaviano Venturim, explica que o reforço no repasse é muito bem-vindo. Mas, junto com o dinheiro do SUS, o aporte ainda não é suficiente para cobrir os custos dos atendimentos, o que força os hospitais a terem de buscar recursos em outras fontes.

“Historicamente, nossos hospitais já têm que buscar recursos além do SUS e do município. Mas a ajuda da prefeitura é sim muito bem-vinda, até porque Curitiba é dos poucos municípios do Brasil que fazem esse aporte”, avalia.

O problema maior, aponta Venturim, é justamente nos prontos-socorros, pelo alto volume e complexidade dos atendimentos. “Uma emergência de trauma, por exemplo, precisa de no mínimo um clínico geral, um ortopedista, um cirurgião, um anestesista e, dependendo da unidade, um neurologista. Só aí são R$ 1.000 para cada médico por plantão de 12 horas, o que o aporte não paga”, compara.

A diretora do Erasto Gaertner confirma essa realidade. Segundo Carla Martins, mesmo com o aporte, o hospital de tratamento do câncer continuará tendo de buscar recursos em outras fontes. “O recurso da prefeitura vem em um momento de necessidade, em que os hospitais passam por aumento significativo nos custos e de grandes dificuldades. Por isso, claro, será muito bem-vindo. Contudo, não supre todas as necessidades. O incremento de R$ 150 mil junto com outras medidas fará parte de um pacote maior de ações voltadas ao controle e equilíbrio do orçamento”, confirma a médica.