Um ano se passou do confronto entre professores e policiais militares, no Centro Cívico, e ninguém foi punido pela barbárie contra os educadores. Alguns processos foram arquivados pela Justiça, outros ainda estão em fase inicial de tramitação. Já da parte dos professores, os avanços conseguidos com as manifestações e a greve de 73 dias foram poucos, mas comemorados pela categoria.

Hermes Leão, presidente da APP Sindicato – entidade que coordenou as negociações e mobilização dos professores – diz que a categoria continua indignada pela violência que sofreu e pela impunidade, já que nenhuma das autoridades responsáveis por colocar os policiais militares para cima dos manifestantes foi punida.

O sindicalista diz que a categoria está chateada com o governador pois, segundo ele, Beto Richa teve quatro comportamentos distintos. “Num primeiro momento, ele culpou os manifestantes pela confusão. Depois, por causa da comoção pública, ele mudou o discurso e reconheceu que houve abuso de força da PM. Num terceiro momento, pediu perdão pelo que houve. Mas passado algum tempo, ele esqueceu o pedido de perdão e retomou o grau de agressividade contra os manifestantes”, lamentou Leão.

Ganhos

Apesar de tudo o que sofreram, os professores tiveram alguns ganhos. Conseguiram zerar a inflação dos salários e, no ano que vem, terão anualmente a reposição da inflação mais 1%. O governador assumiu compromisso de pagar as promoções e progressões de salários dos professores. Estas progressões já deveriam ter sido pagas há meses. Mas o governo alega ainda estar com dificuldades financeiras e uma dívida de R$ 150 milhões e, por isto, ainda não pagou. Mesmo assim, os professores já acham uma vitória o govenador assumir que está devendo e que terá que honrar este compromisso.

No total, 234 pessoas ficaram feridas no confronto.

Relembre a confusão de 2015

Professores estavam desde a segunda-feira, 27 de abril de 2015, reunidos em frente à Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), para acompanhar as discussões e votação do ‘pacotaço’ financeiro proposto pelo governador Beto Richa. Também queriam negociação com o governador em relação a melhorias salariais e de trabalho para a categoria.

Entre as medidas que seriam votadas na Alep estavam mudanças na Paraná Previdência. Alegando uma economia de R$ 125 milhões aos cofres do Estado, o governador queria transferir alguns servidores de um fundo de contribuição a outro e compensar a retirada com pagamento de royalties da Itaipu Binacional. Na visão dos professores, essas modificações podem fazer o fundo quebrar e não haver aposentadoria futura aos servidores. Por isto queriam entrar no plenário da Alep para acompanhar as discussões e pressionar os deputados a votarem contra a medida.

Apesar do direito de todo cidadão a acompanhar as sessões, no dia da votação, o governador conseguiu uma liminar judicial para que a Polícia Militar cercasse a Alep e não deixasse os manifestantes entrarem, para garantir a ordem durante a votação e a segurança dos deputados. Policiais de todo o Estado foram deslocados para reforçar o cordão de isolamento ao redor da Alep.

No meio da tarde, manifestantes tentaram transpor a barreia policial e as grades colocadas. Não se sabe quem deu a ordem (se foi o governador; o secretário de segurança da época, Fernando Francischini, ou algum dos três c,oronéis da PM que estavam no local). Mas a polícia partiu para cima dos manifestantes e houve cerca de duas horas de confronto.

Policiais jogaram bombas de gás, spray de pimenta e dispararam balas de borracha contra os professores, que não tinham nenhum tipo de arma para revidar ou onde se proteger. Foram 213 manifestantes, 20 policiais, três profissionais de imprensa e um deputado feridos.

Mesmo com o confronto acontecendo lá fora, os deputados aprovaram as mudanças propostas por Beto Richa e os professores perderam as duas batalhas: a de campo e a legislativa.

 

Protestos acontecem nesta manhã. Foto: Gerson Klaina.

Passeatas no Centro

Vários servidores públicos, não só professores, realizam passeatas pelo Centro de Curitiba, nesta sexta-feira (29), para lembrar o episódio que ficou conhecido como “massacre” no Centro Cívico. São pelo menos três grupos, que devem se encontrar em locais distintos e seguir a pé até a Praça Nossa Senhora do Salete.

Nesta manhã, os professores começaram a se reunir na Praça Santos Andrade, de onde devem sair para a Praça Tiradentes. Já servidores da saúde estadual se reunem em frente à Secretaria de Fazenda (Sefa), na Rua Vicente Machado. Outros servidores do Estado vão se reunir na Praça Rui Barbosa, de onde saem para se encontrar com os servidores de saúde, em frente à Sefa, para, por volta das 10h, seguirem juntos até a Praça Tiradentes.

Ao meio dia, na Praça Tiradentes, os três grupos participam de um ato em frente à Catedral, onde o ativista dos direitos humanos argentino, prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, falará ao público num caminhão de som. Dali, os grupos seguem juntos para Praça Nossa Senhora da Salete, onde haverá um almoço coletivo e um show da banda Detonautas, às 15h.

Será um ato político?

A assessoria de imprensa da Casa Civil informou que o secretário Valdir Rossoni teme que a manifestação em prol da pauta dos professores se transforme em protesto da CUT, do MST e de outros movimentos sociais (que estarão na passeata) em favor da presidente Dilma Roussef e do ex-presidente Lula, e contra o juiz Sérgio Moro e a operação Lava Jato. De acordo com a assessoria, são coisas que não podem ser confundidas: interesses partidários com a pauta dos professores.

A Casa Civil avalia que o diálogo com os professores tem sido bom, já que os professores já foram recebidos três vezes por Rossoni. Nos últimos seis meses, o governo pagou 14,5% de reajustes aos professores e trabalha para pagar os R$ 170 milhões que está devendo do programa de progressões e promoções. ‘Governo está aberto a atender a pauta da APP Sindicato conforme a situação financeira. Mas o governador não vai assumir nenhum compromisso que depois não possa cumprir, pois a tendência ao longo do ano é de queda na arrecadação do Estado’, expôs Sílvio Lohmann, assessor de imprensa da Casa Civil.
Amanhã não haverá aula na rede estadual, pois professores e alunos foram convocados para a manifestação. De acordo com a Casa Civil, a tendência é que o governo desconte dos salários este dia não trabalhado pelos professores.