A ideia de “capital europeia” que Curitiba carregou como slogan turístico por muitos anos escondeu uma verdade dolorida: a importância dos negros na construção da cidade. Entre dores e flores, 2020 foi ano importante para a luta antirracista, ano em que as buscas sobre racismo bateram recorde de consultas no Google, em que o movimento Vidas Negras Importam sacudiu os EUA e também o Brasil, ano em que também Curitiba elegeu a primeira vereadora negra. 

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Segundo aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017, 24% da população se reconhece como negros e negras em Curitiba, percentual que torna a capital paranaense como a mais negra do Sul do país. Nesta sexta-feira (20), Dia Nacional da Consciência Negra, a reportagem da Tribuna foi atrás de pesquisadores para entender a força que o movimento negro ganhou na cidade nesses últimos anos. 

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De Diva até Carol

A professora paranaense Diva Guimarães, que em 2017 ganhou visibilidade com seu discurso sobre o racismo durante uma palestra da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), relatou que a cidade é dividida por seu racismo estrutural. “Todo mundo acha que Curitiba é uma cidade europeia, de intelectuais. De coisa nenhuma! Vai viver em Curitiba como negro e como morador da periferia para vocês tirarem esse encanto”, desabafou a professora, na época. 

Na contramão do racismo, movimentos negros têm conquistado cada vez mais espaço. Para a uma das organizadoras da Marcha do Orgulho Crespo em Curitiba, a cantora Michele Mara, o engajamento pelas redes sociais têm sido uns dos principais motivos da força do movimento negro. “Depois de 2016, ano da primeira marcha, ela se espalhou pelo Brasil. Esse ano tivemos a honra de participar da Black’s Afro Day, um evento que aconteceu em Londres. Quem representou a gente foi a Ana Paula, de Curitiba. Eu acho que essa geração da lacração, geração “tombamento”, está mais ativa. Veio com toda força. Na minha época, de 15, 17 anos, eu não tinha esse engajamento social e político que eles têm hoje”, revela a cantora.

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Atualmente, Curitiba tem dezenas de movimentos sociais negros. Além da Marcha do Orgulho Crespo, tem o Encontro da Negritude, a manifestação do Afoxé, a Festa do do Rosário, Roda de Rua, Um baile Bom, oficinas Pontes Móveis em Travessias Afrocontemporâneas, e tantos outros. 

Bloco Pretinhosidade, no Carnaval de Curitiba. Foto: Stay Flow.

A pesquisadora de cultura da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Glaucia Pereira, dedicou seu trabalho de mestrado ao racismo em Curitiba. Em seu trabalho “Territorialidades Negras em Curitiba: ressignificando uma cidade que não quer ser negra”, Glaucia revela que os movimentos negros acontecem na cidade há décadas e que vêm conquistando espaço desde a década de 1980, com a volta da democracia.

“Esses movimentos que existem hoje é fruto dos que vieram anteriormente. Vieram de referências de pessoas mais velhas, que fundaram os primeiros movimentos na década de 1980. Hoje eu vejo que há um misto, de movimentos que já existiam com um movimento mais estético, que é um lado muito forte da juventude”, comenta a pesquisadora.

E a luta da juventude negra refletiu no resultado das urnas esse ano. Formada em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Carol Dartora foi a terceira vereadora mais bem votada em Curitiba nas Eleições 2020. Além de professora, ela é representante de grupos feministas e do movimento negro. A votação de Carol ultrapassou os 8 mil votos.

“A nossa proposta sempre foi um mandato coletivo, para que possam ter voz as pessoas que eu represento. Trazer debates que ficam relegados, que não têm a amplitude da voz quer precisavam”, disse a vereadora eleita, um dia depois do resultado das urnas saírem. 

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Autorreconhecimento

Os movimentos sociais antirracistas de Curitiba revelaram ao longo dos últimos tempos um maior reconhecimento da população como negros e negras. “Esse processo de ressignificar aumentou muito, em todo o Brasil. Se você pegar dados do IBGE, pessoas que se autodeclararam negros deu um salto. É o resultado da representatividade na mídia, das discussões nas redes sociais. Organizar um debate é muito mais fácil agora que antes. O entendimento de racismo também vem sendo trabalhado forte”, comenta a pesquisadora Glaucia.

Para ela, a compreensão do racismo passou a ter mais compreensão, o problema social é muito mais complexo do que se imaginava. “Ele não está atrelado ao comportamento do indivíduo. Processo é muito mais complexo, não individualista. A exploração das relações sociais acabam produzindo fenômenos como o desemprego, o genocídio de negros, a intolerância religiosa. Hoje as pessoas estão começando a compreender isso”, finaliza.