O cineasta curitibano Thiago Nascimento Busse, 38 anos, passou por momentos de tensão, medo e humilhação por quase três dias ao chegar nos Estados Unidos. Sem receber explicações, ele foi preso no Aeroporto Internacional de Los Angeles (LAX) quando tentava embarcar para outra cidade americana na expectativa de visitar a irmã. Thiago chegou a ser algemado em um avião e passou horas na incerteza. Um cenário de terror que só terminou quando foi deportado para o Brasil, na última terça-feira (22).

A viagem de Thiago para os Estados Unidos tinha como objetivo uma visita para a irmã, que reside em Portland, no estado do Oregon. Antes de chegar ao destino, o curitibano foi até a Cidade do México, onde passou alguns dias a convite de um amigo cineasta. Embarcou do México para os Estados Unidos no último sábado (19) com todos os documentos em dia. Passaporte, teste de covid-19, passagem de retorno ao Brasil comprada, ou seja, era hora de curtir a família.

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No entanto, ao chegar próximo das 19h no setor de imigração do Aeroporto Internacional de Los Angeles, notou que algo estranho começou a ocorrer. Um oficial pediu para que ele se encaminhasse a uma sala. “Sem falar muita coisa, fui encaminhado para uma sala e fiquei proibido de utilizar o celular. O oficial me olhava com expressão de ódio e fiquei assustado com a sensação que ele estava me condenando. Não dava tempo de responder nada, pois ele falava que ia me pegar. Humilhava falando que eu era brasileiro e que estava indo para Oregon, pois lá tem plantação de maconha e que eu ia trabalhar lá”, disse Thiago, em entrevista para a Tribuna do Paraná.

Curitibano é deportado dos EUA
Thiago estava com passaporte, teste de covid-19, passagem de retorno ao Brasil comprada. Foto: Gerson Klaina.

O terror iria aumentar

Na tentativa de buscar algo irregular da vida de Thiago, os oficiais americanos utilizaram estratégias pesadas no aspecto emocional. Após a primeira conversa, o curitibano foi encaminhado para outra sala do aeroporto. Ao chegar no espaço, percebeu que outras pessoas estavam recolhidas e ignoradas.

“Fui para outra sala com várias pessoas. Vários latinos e todos desamparados. Faziam piadas e humilhações. Fiquei horas sem ter contato com meus familiares, pois estava sem celular e minha mochila. Cortaram o cordão da minha calça e fizeram eu tirar o cadarço do meu tênis. Depois fiquei sabendo que é para evitar que alguém cometa suicídio. Na alimentação, deram um macarrão instantâneo”, relatou Thiago.

Após esta violência moral e emocional, o cineasta curitibano foi para uma terceira sala, onde na teoria seria escutado oficialmente por autoridades americanas. Antes de iniciar um depoimento gravado, um agente falou que o brasileiro iria adorar a sopa na prisão.

“A minha cabeça estava a mil e não entendia o motivo de estar preso. Eu só pedia para ligar para minha família ou para a embaixada brasileira. O policial, quando começou a gravar a conversa, mudou o tom e tentou ser educado. Liberou meu telefone e obrigou a colocar a ligação no viva-voz. Liguei para minha irmã e falei que estava vivo, mas quando disse que estava sendo tratado como lixo, ele tirou o celular da minha mão. Ele ficou irritado ainda mais”, relembra Thiago.

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A partir desse ponto, o curitibano ficou 32 horas sem saber o que estava acontecendo e se perguntava o motivo daquilo. Já tinha viajado outras vezes para os Estados Unidos e tem pleno conhecimento dos procedimentos para entrada e saída do país. Aliás, Thiago tem amplo domínio da língua inglesa, o que poderia na prática ajudar em algum imprevisto.

Prisão em Miami e retorno ao Brasil

Na madrugada de segunda-feira (21), Thiago foi escoltado por agentes até um avião com destino a Miami, no estado da Flórida. Chegou a imaginar que o terror teria terminado, pois seria deportado para o Brasil com uma escala. Apesar da confiança e mais aliviado, os problemas não iriam acabar.

Ao pousar em Miami, Thiago teve o nome chamado no avião para se encaminhar até à frente da aeronave. Quando se apresentou, logo veio a pior parte – a prisão na frente de todos os passageiros. “Dois policias colocam meus braços para trás sem falar nada e me algemaram na frente de todos os passageiros. Foi a situação mais humilhante que passei na minha vida. Eu chorava e fui empurrado pelo aeroporto até colocarem em uma sala. Bateu o desespero e foi a pior sensação do mundo. Foi um terrorismo em todos os sentidos”, confessou Tiago.

Em um pequeno espaço no Aeroporto Internacional de Miami, o curitibano passou mais 24 horas sem comunicação. Recebeu um pedaço de frango para se alimentar e percebeu que era mais um ali perdido. “Vi coisas pesadas demais nesses dois aeroportos que recebem pessoas do mundo inteiro. Tem gente passando fome, preconceito racial e muito mais. É triste demais ver o tratamento que é dado para o próximo. Tenho noção que tem pessoas que são culpadas por estar ali, mas não era o meu caso”, reforçou o cineasta.

Na madrugada de terça-feira (22), Thiago foi oficialmente deportado ao Brasil. Ao chegar no país, foi impossível segurar as lágrimas mesmo diante de autoridades brasileiras que trabalham na alfândega. “Fui bem acolhido e um policial relatou que muitos brasileiros estão sendo barrados, uma média de 30 por dia. Digo que agora que está caindo a ficha e estou conseguindo absorver o que rolou”, explicou Thiago.

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Depoimento em comissão

Apesar do caso ser recente, algumas medidas já estão sendo tomadas pela família de Thiago. O irmão, Diogo Busse, é advogado, mestre em direito das relações sociais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e foi assessor Especial da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Com trânsito em Brasília, as cenas vividas por Thiago nos Estados Unidos não devem cair no esquecimento.

“Já fui convidado para prestar depoimento em uma comissão em Brasília. Minha irmã também entrou em contato com um advogado nos Estados Unidos e quero que outras pessoas não passem por isso. Eu tenho esse privilégio e não consigo parar de pensar nessas pessoas que estão largadas lá. Eu consegui voltar e quantos não conseguem”, completou o Thiago.

E aí, autoridades?

A Tribuna do Paraná procurou a Embaixada dos Estados Unidos e o Itamaraty com questionamentos. mas não teve resposta até a publicação da reportagem.