Se o Brasil precisasse de uma trilha sonora que resumisse o que foi o último ano, a música “Louco“, lançada pelo cantor e compositor curitibano Gui X na noite desta quinta-feira (30), seria uma ótima candidata. Numa crítica ácida e com alvos bem específicos, a canção cutuca o presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores sem dar nome aos bois (como se precisasse).

Nesta quinta-feira o Brasil ultrapassou a marca de 400 mil mortos (401.186, para ser mais exato até o boletim de quinta-feira, sendo que 4.669 em Curitiba e 22.086 no Paraná.

A música Louco engrossa o coro das diversas manifestações, virtuais ou não, contra o presidente da república, seus seguidores e suas formas de conduzirem o país num dos momentos mais difíceis de sua história. “Sempre achei que os momentos difíceis que uma sociedade enfrenta tendem a alavancar sua produção cultural crítica. A arte é uma maneira de um povo manifestar suas indignações e ideias. O que estamos vivendo hoje é tão surreal, que fica até difícil traduzir em palavras”, lamentou.

Ouça a música a seguir:

Sobre a letra, Gui X afirma que tentou traduzir o que ele e os seus sentem neste momento. “Estamos envoltos em tantas manifestações inacreditáveis de incompetência, falta de sensibilidade, falta de gestão e agressividade gratuita, que quis expressar um grito de ‘basta!’ através desta música. Me pego muitas vezes me questionando se a loucura não se tornou o normal e se o que seria minimamente normal, virou loucura”.

+ Caçadores de Notícias: Ex-alunos fazem vaquinha pra reformar fusca que compraram e deram de volta a professor

O retorno

A música nova é um marco neste retorno ainda tímido do músico curitibano às atividades. Depois do sucesso regional empunhando o microfone da banda Agente X, ele deixou os palcos para construir uma família ao lado da esposa Talyta e dos filhos. Guilherme Scheffer de Oliveira é gestor comercial, formado em Engenharia Cartográfica.

“Fiquei cerca de cinco anos sem compor nada. Com o nascimento do Bento (meu primeiro filho), quis compor uma música para ele (Você chegou, em 2015). Depois de mais dois anos, com o nascimento do João, quis deixar minha homenagem a ele também (Coisas de menino – em 2018). Então tive esse reencontro com a composição e percebi o quanto me fazia falta botar pra fora estas inspirações”.

Em seu retorno, Gui X tem juntado algumas composições em seu canal no Youtube e nas suas redes sociais. Lá estão sendo postados alguns clipes com as música de maior sucesso com o Agente X e também novas canções. “O Agente X foi uma escola e tanto. Na verdade quase 12 anos é uma vida escolar inteira (risos). Com esta banda, aprendemos a deixar de lado preconceitos artísticos, algo muito importante, em nome do trabalho e crescimento artístico”, disse o músico.

Quando a banda terminou em 2009, cada um dos integrantes foi para um lado, mas para a música Louco, o tecladista Chitão (Vinicius Scheffer, irmão de Gui), e Thiago Portella, integrante de 1999 até 2002, foram convocados para contribuir.

“Louco” é a música da vez, mas com a chegada da pandemia do novo coronavírus a criatividade do músico nas composições ficou mais aguçada. Juntando as novas letras com as que surgiram neste período o músico contabiliza 42 composições. “Tudo isso aqui guardado e daqui a pouco eu morro e tudo se esquece. Músicas são como passarinhos, não nascem para viver presas. Por isso criei o projeto ‘Letra & Música’, onde eu apresento estas composições para as pessoas”, explicou.

+ Veja também: Curitiba retoma vacinação da 1ª dose contra covid-19; veja cronograma para 60 e 62 anos

Sobre o futuro como músico, Gui X ainda não arrisca numa expedição exclusiva de volta à música. “Só sei que quero compor e criar músicas até o fim dos meus dias. É uma das coisas que mais gosto de fazer”, diz. “O futuro é sempre algo incerto, porém tenho gostado muito de criar, compor livremente, não tenho me prendido a estilos específicos, sonoridades lineares”, afirmou

Uma possibilidade é compor para outros artistas. “Recentemente compus canções de rock, pop, mais eletrônicas, levadas de samba, reggae, MPB, forró… Esse ecletismo dificulta um trabalho como interprete, mas compor músicas para outros interpretes me deixa mais livre. Mas também não descarto futuros trabalhos cantando minhas canções”.

E o Agente X?

No ano passado a banda Agente X voltou a se reunir para uma série de apresentações, começando pelo Hard Rock Café, em Curitiba, no final do ano passado. Com músicas do trabalho “Seja qual for”, gravado de forma independente em 2006, o grupo subiu ao palco com Gui X no vocal, Celso na bateria, Túlio no baixo e Aldo na guitarra para o que chamaram de projeto Agente X Reunion. O grupo pretende tocar junto sempre que possível e chamados por contratantes.