Logo quando começaram a aparecer os primeiros casos de coronavírus em Curitiba, o estudante dos cursos de filosofia e direito Cesar Lavalle, de 24 anos, sentiu um baque. Fumante há 10 anos, ele aproveitou o período de isolamento social do coronavírus para parar com o vício. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os fumantes são considerados os mais vulneráveis a covid-19. Tanto pelo fato de, durante o ato de fumar, levar os dedos em contato com a boca, o que aumenta a possibilidade de transmissão do vírus, como também de desenvolver mais doenças pulmonares em decorrência do cigarro. 

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Cesar brinca que esta é a 53º vez que tenta parar de fumar, diante das várias tentativas sem sucesso. E desta última vez, ele já comemora três meses sem colocar um cigarro na boca. “Até agora tá fácil porque estou em casa, o desafio vai ser quando afrouxar a quarentena, sair com os amigos”, conta o estudante. 

Enquanto está em casa, o estudante tem mantido a rotina saudável. “Eu faço alongamento em casa, bicicleta ergométrica, acabo cuidando melhor da alimentação. Uma coisa foi puxando a outra”, salienta. Adepto ao budismo, Cesar também tem controlado a vontade de fumar meditando em casa. 

Cesar tem mantido a rotina saudável na quarentena. Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná

A última vez que tentou parar com o vício, Cesar chegou a ficar seis meses sem fumar. “Eu já tentei parar de todas as formas possíveis. Usei adesivo de nicotina quando fiquei seis meses sem fumar, o que ajudou bastante”, explica. Dessa vez, os adesivos deram alergia e a dependência química tornou o primeiro mês bastante difícil.

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Com experiência das tentativas anteriores, Cesar acredita que desta vez a chance de sucesso é maior. “Eu no começo me culpava muito, só quando parei de me cobrar que foi positivo. E parar na quarentena é perfeito, você tem tempo para lidar com isso sem o estresse da vida lá fora. Eu espero continuar sem fumar. Os benefícios para a saúde são incríveis”, confessa o estudante.

Parar de fumar de uma vez ou aos poucos?

Nunca é tarde para parar de fumar. De acordo com o psiquiatra especialista em dependência química, Gustavo Sehnem, o fumante tem a tendência de postergar o fim do vício. “Diz que ano que vem vai parar e aí passa um ano, dois, dez anos e não parou”, comenta o especialista. Para o médico, o ideal é sempre adiar o próximo cigarro o quanto puder. “É mais fácil parar quando se fuma cinco cigarros por dia do que parar fumando 20 cigarros”, alerta.

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É necessário também ter um dia D, o dia em que se para de fumar de vez. “Se você ir reduzindo gradualmente, mas quando se vê numa situação de estresse, vai voltar a fumar uma carteira de novo. Por isso o dia D é importante”, ressalta. E por que se demora tanto para parar de fumar? “Todo mundo sabe dos problemas que o cigarro causa, mas eles parecem muito distantes. É diferente de outras drogas, as pessoas buscam rapidamente ajuda porque prejudica em pouco tempo. O cigarro afeta mais a médio e longo prazo, os problemas vão aparecer daqui 20 anos. Então sempre vão retardando o dia de parar de fumar”, explica o psiquiatra.

Apesar de ser um vício socialmente aceito, o tabagismo causa forte dependência química e psíquica. “É como o da heroína, que vicia muito. Eu trabalho com dependentes de cocaína, crack, álcool, a nicotina é o mais complicado”, conta Sehnem. Nem sempre é possível parar de fumar na primeira tentativa, mas o segredo é manter a motivação. “Se muitas pessoas conseguiram, por que eu não vou conseguir? O período mais crítico é o das primeiras semanas. Com o tempo, o organismo consegue viver de forma mais saudável sem o cigarro”, reforça. 

E quando é difícil parar com o vício sozinho, é possível sim pedir ajuda. “Estudos apontam que de 3% a 6% das pessoas que tentam parar sozinhas, realmente acabam com o vício. Já com ajuda profissional, de 30% a 60% conseguem parar”, conta o médico. Medicamentos, que devem ser prescritos por um médico, podem ajudar na dependência química da nicotina e também aliviar a ansiedade – dependendo de cada caso.

Ajuda para parar de fumar

Foto: Pixabay

Mesmo com a pandemia, é possível pedir ajuda profissional. Afinal, grávidas e quem passou por alguma situação recente de infarto ou derrame e que ainda é fumante, deve parar de fumar o quanto antes. Confira a seguir onde conseguir auxílio para acabar com o vício.

Programa Controle do Tabagismo – Prefeitura de Curitiba

O programa Controle do Tabagismo, desenvolvido pela Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba, oferece gratuitamente apoio para quem está disposto a parar de fumar. Ele é composto por duas vertentes: a terapia cognitiva comportamental, que auxilia a pessoa a largar o vício com quatro reuniões semanais e depois encontros mensais; e a terapia farmacológica, que auxilia o paciente no controle da abstinência com adesivos ou gomas de nicotina e outros medicamentos. 

“Nesse momento, as reuniões em grupo foram suspensas, mas é possível atendimento individual dependendo de cada caso”, explica Marcelo Kolling, médico do programa de Cessação do Tabagismo da Secretaria da Saúde. 

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A prefeitura tem ajudado muita gente a parar com o cigarro. Em 2018, cerca de 2 mil pessoas participaram do programa. No ano passado, a adesão cresceu, com mais de 3 mil participantes. “Em 2020 caiu bastante por causa desse nosso contexto, mas a participação vinha aumentando. E temos um índice de que 45% conseguem parar de fumar, o que é muito bom”, avalia o médico.

Para participar do programa da prefeitura, é necessário buscar ajuda numa unidade de saúde mais próxima.”Nem todas estão oferecendo o programa, mas se perguntar na unidade, vão indicar qual é a mais próxima que oferece o serviço”, explica Kolling. A pessoa passa por uma entrevista inicial, recebe as informações das reuniões, podendo até receber medicamentos que auxiliem no tratamento, todos prescritos por um médico e de acordo com cada paciente. 

Programa Você Sem Cigarro – Unimed

Os fumantes que querem acabar com o vício e tem o convênio médico da Unimed podem participar do programa Você Sem Cigarro. Antes da pandemia, as reuniões em grupo aconteciam presencialmente. Neste momento, por questões de segurança sanitária, os atendimentos são feitos on-line pela plataforma de videoconferência Zoom. “O que chama a nossa atenção foi que o número de inscritos no programa aumentou 100%, temos mais pessoas participando agora do que quando o grupo era presencial”, analisa Marcos Kaminski, gestor da área de qualidade da Unimed Curitiba.

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O programa, que funciona desde 2017, atende anualmente cerca de 120 pessoas. “É um número relativamente baixo, apesar do tabagismo que vem sendo discriminado cada vez mais entre a população. Cerca de 20% a 25% das pessoas que participam conseguem parar de fumar”, explica Kaminski. O grupo conta com suporte de médicos, psiquiatras e terapeutas.

Para participar, o beneficiário do plano de saúde pode se inscrever pelo telefone (41) 3021-4735 ou pelo e-mail pse@unimedcuritiba.com.br. Os encontros são semanais e acontecem cinco vezes. Após esse período, ainda há mais duas sessões de acompanhamento e também orientações psicológicas pontuais via WhatsApp.

“O programa é um novo viés do plano de saúde, não queremos que seja um plano de doença. A nossa proposta é trabalhar de forma preventiva para evitar que as pessoas fiquem doentes e tenham uma vida mais saudável e plena”, salienta Kaminski.


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