Já imaginou: você está em casa, depois de um dia exaustivo de trabalho, e não pode sequer abrir as janelas de casa, mesmo com calor, por causa de uma fábrica aos arredores. Pois é isso que vem acontecendo com moradores de, pelo menos, dois bairros de Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba, que são vizinhos da fábrica de vinhos e bebidas Zanlorenzi. Segundo os moradores, o mau cheiro que vem da fábrica é insuportável.

A Tribuna do Paraná ouviu várias pessoas e os relatos são bem parecidos. A situação que acontece na fábrica começou a ser percebida pelos moradores há, aproximadamente, cinco anos. “Antes, vinha uma onda desse cheiro forte e passava. O tempo foi passando e essa rotina do mau cheiro foi aumentando. Nos últimos dois anos, piorou bastante”, contou Mônica Rivabem.

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Segundo a moradora, que vive na região há 13 anos, a situação chegou num ponto em que ninguém consegue ficar em casa mais. “São pelo menos dois bairros, mas tem dia que o cheiro chega a pelo menos um quilômetro de distância da fábrica ou até mais. Varia conforme o dia. Sabemos que é uma empresa tradicional da cidade, por isso temos dificuldade até com relação às denúncias, porque muita gente não quer se comprometer. Mas até quem não se manifesta sofre, porque sem dúvida alguma delas também sentem o cheiro forte, que é insuportável”.

O cheiro, conforme os moradores, vem dos resíduos do que sobra do que é envasado na fábrica. “É um cheiro de esgoto, de fossa, às vezes ovo podre. O cheiro vai para a região toda, inclusive de madrugada. A gente acorda com o cheiro de esgoto dentro de casa”, desabafou Mônica. 

Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

De orgulho à decepção

Morando a aproximadamente 500 metros da fábrica desde seu nascimento, Matheus Kuklik, 31 anos, disse não entender o porquê de tanto descaso. “Essa empresa sempre foi motivo de muito orgulho, levavam nosso nome para o Brasil inteiro, mas não entendemos o que vem acontecendo. Tem algum tempo já que a gente tem sentido esse cheiro muito forte vindo da fábrica”. 

Segundo Matheus, em 2020, o mau cheiro ficou ainda mais forte. “Se intensificou, principalmente na segunda metade do ano. Não sabemos o que aconteceu, se perderam a mão em algum processo ou implementaram algum novo processo que tem provocado tudo isso. Ms é um cheiro insuportável. Dá vontade de sair de casa, se mudar”. 

Matheus, que tem um sobrinho pequeno, usou o exemplo do que aconteceu com o menino para explicar o que todos os vizinhos têm sentido. “Meu sobrinho de dois anos já passou mal várias vezes. Ele vomita, não consegue comer direito quando o cheiro está muito forte. Os vizinhos e nós em casa sentimos dor de cabeça, náuseas, fora o mal estar de chegar em casa depois de um dia cansativo de trabalho e não poder nem abrir a janela, principalmente num dia de calor, porque o cheiro é muito forte”, desabafou.

Morando bem próximo da fábrica, Matheus comenta que sente ainda mais por quem mora ao lado. “Se eu, a 500 metros da fábrica, passo mal com o cheiro, dependendo do dia, porque é muito forte, imagina quem mora ainda mais próximo. Tenho pena de quem mora ainda mais perto, porque aqui em casa já incomoda demais, imagina para quem é vizinho”. 

Embora esteja às margens da BR-277, a fábrica fica numa região residencial. Foto: Reprodução/GoogleMaps.

Tudo combinado, nada resolvido

Os moradores contaram que a fábrica já foi procurada diversas vezes para tentar resolver a situação. “Já tivemos até algumas iniciativas junto à Secretaria do Meio Ambiente do município, tem até um termo que não vem sendo praticado pela empresa e nada acontece. Ficamos de mãos atadas e sem esperanças de que as coisas voltem ao normal”, contou Matheus.

Mônica, que já foi até visitar a Zanlorenzi, disse que a fábrica prometeu reformular os processos, mas não cumpriu. “A empresa tinha uma estação desses efluentes, que deve ser tratado, e isso era a céu aberto. Falaram que o cheiro vinha pelo ar da estação. Se comprometeram a fazer uma estação de tratamento 100% fechada, para que não saísse cheiro dali, mas pelo visto, não adiantou”. 

Segundo o relato da moradora, a empresa fez a instalação da nova estação de tratamento, “mas o cheiro só aumentou, não resolveu”. Por causa do incômodo, os moradores resolveram procurar as autoridades e a empresa se defendeu dizendo que era uma situação muito pontual. “Disseram que eram apenas alguns moradores que estavam reclamando, então, por isso, criamos um grupo para que as pessoas pudessem mostrar que não é pouca gente atingida”. 

No grupo do Facebook, chamado “Reclamações – Vinhos Campo Largo / Famiglia Zanlorenzi”, já são mais de 500 pessoas, que todos os dias relatam o que têm passado por conta do mau cheiro. “Depois do grupo, comecei a acompanhar mais de perto. A empresa entrou em contato, me levaram para uma visita na fábrica e questionei que eles tinham acertado que iriam resolver a situação. Passou tudo isso e continuamos na mesma. Sempre que questionamos a empresa, eles têm dito que estão instalando agora a estação, que estão resolvendo o problema, mas não é isso que está acontecendo”, detalhou Mônica.

No grupo do Facebook, moradores concentram reclamações. Foto: Reprodução/Facebook.

Só querem a solução!

Os moradores continuam tendo orgulho da fábrica, que é uma das mais tradicionais do Paraná e que fornece bebidas para todo o país. Mas o que querem é que o problema seja resolvido. “A gente não quer que a fábrica saia daqui, mas hoje em dia existe tecnologia para minimizar isso. A impressão que passa é que não querem investir para não gastar. Temos muito orgulho da marca e gostaríamos que essa história se resolvesse para o bem de todos, não só prejudicando a comunidade e eles continuando com o lucro deles”, lamentou Matheus.

“Antes, eles diziam que eram poucas pessoas que reclamavam, mas agora já são 509 moradores. Isso sem contar que já tivemos relatos até de pessoas que passam pela rodovia e sentem o cheiro também. Não vai ser resolvido?”, comentou Mônica. “A Zanlorenzi prega uma imagem de ‘empresa sustentável’, mas estão deixando os moradores no lixo. Até quando?”. 

Mônica contou ainda que, além do mau cheiro, em janeiro, os moradores foram surpreendidos com um líquido preto, parecido com chorume, que estava na rede pluvial. “A prefeitura veio até uma rua próxima da fábrica para uma obra e teve que abrir um buraco grande na galeria de água da chuva. Nisso, veio um cheiro insuportável. Apareceu o descarte dos resíduos na rede pluvial. Conseguimos com que a prefeitura e a Sanepar fizessem coleta do material para verificar e dar o parecer se era resíduo deles ou não. Ainda não tivemos resposta”. 

Líquido preto que passou por análise. Foto: Reprodução/Facebook.

E aí, Zanlorenzi?

Procurada pela Tribuna do Paraná, a Zanlorenzi disse que “concluiu a implantação de sua nova e moderna estação de tratamento de efluentes com a consequente desativação da estação anterior, estando aquela em fase de regulação do ambiente microbiológico, fatores que ainda podem gerar eventos pontuais de emissão de odor”. Segundo a Zanlorenzi, a nova estação é totalmente fechada e vai acabar com o mau cheiro provocado pelos efluentes.  

A empresa disse estar ciente do desconforto gerado por tais emissões. Por isso, alocou desde o início do projeto vários recursos, além de uma equipe de técnicos próprios, terceirizados e até empresa especializada na instalação deste tipo de equipamento, para solução definitiva dos eventos. Essa solução, inclusive, já estaria em fase final. “Chegamos a etapa final com a inoculação de lodo técnico adquirido junto a Sanepar, em condições microbiológicas próprias, para que as reações químicas provocadas pela nova estação atinjam os resultados esperados para redução/eliminação de odor”.

Conforme a Zanlorenzi, mesmo num momento de crise, o valor investido ultrapassa os R$ 2 milhões. “Tamanho investimento revela a profunda preocupação desta empresa com a comunidade local, visto que a razão fundamental pela decisão de investimento e instalação da nova estação decorre justamente do compromisso da Zanlorenzi com a promoção do bem-estar tanto de seus colaboradores como de seus vizinhos e conterrâneos”, defendeu a nota.

Reforçando estar e continuar aberta ao diálogo com a comunidade, a Zanlorenzi destacou também que não pode deixar esquecida sua contribuição para a comunidade local. “Ao longo das ultimas décadas, a empresa vem contribuindo para o crescimento da população do entorno e, consequentemente, para o desenvolvimento do bairro. Isto não se limita simplesmente a geração de empregos e promoção de negócios diretos e indiretos que aqui se instalaram, mas também no investimento em ações sócio ambientais hábeis a promoção e melhoria da qualidade de vida local”. 

Conforme a Zanlorenzi, mesmo num momento de crise, o valor investido ultrapassa os R$ 2 milhões. Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

E as autoridades?

Procurada, a Sanepar informou à Tribuna do Paraná que realmente atuou, até mesmo à pedido da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Campo Largo. Conforme a empresa, a análise até mesmo de um líquido encontrado por moradores nos arredores da fábrica, foi feita em parceria. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente, por sua vez, confirmou que vem acompanhando a reclamação dos moradores.

A prefeitura de Campo Largo detalhou também à reportagem que fiscalização ambiental realizou, no dia 26 de janeiro, uma ação conjunta com a Sanepar para verificar possível lançamento de efluente na galeria pluvial, identificada na região da Vila Operária, próximo a BR 277. “Informamos que a partir das verificações e coletas realizadas na data, os pontos de lançamento continuarão sendo monitorados pela equipe de fiscalização ambiental e na sequência serão gerados os procedimentos administrativos cabíveis”.

Ainda em nota, a prefeitura informou que “a Sanepar já enviou o laudo com as análises químicas que foram feitas no efluente na galeria pluvial. Agora, os próximos passos são a comparação desse laudo com a legislação a fim de que se possa emitir autos de infração ambiental à fábrica. Isso, em função de que, pela autorização ambiental da empresa, emitida pelo Instituto Água e Terra, não pode haver nenhum tipo de lançamento na galeria pluvial”, ressaltou a prefeitura.

A reportagem também procurou o Instituto Água e Terra (IAT) do Paraná, onde os moradores abriram uma reclamação. Segundo o órgão, técnicos estiveram na empresa na segunda-feira (8) e nada irregular foi constatado e nem odores fora do perímetro da empresa, somente na área onde está instalada a Estação de Tratamento de Efluentes (ETE).