Ao sair de casa, ainda no início de fevereiro, a dançarina e coreógrafa ucraniana Darina Konstantinova, de 25 anos, já se sentia inquieta pelos conflitos entre seu país de origem e a Rússia, mas torcia para que a guerra, preocupação recorrente desde 2014, fosse apenas uma ameaça distante. Darina chegou a Curitiba cerca de dez dias antes da invasão do exército de Vladimir Putin no leste da Ucrânia, no último dia 24, dando início à guerra.

Desde então, está impossibilitada de voltar para casa, e não sabe quando poderá rever os pais, na cidade de Khmelnitski, a 350 km da capital Kiev. Já em solo brasileiro, soube da guerra e colheu informações pelo telefone e pela internet. O
celular, inclusive, foi seu fiel escudeiro enquanto telefonava para amigos e familiares, em busca de notícias e de apoio.

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E foi pela mesma tela do smartphone que Darina descobriu a polêmica envolvendo seu país de origem e o Brasil, em que o deputado estadual Arthur do Val (Podemos-SP) gerou indignação ao afirmar, em áudio vazado pelas redes sociais, que as refugiadas ucranianas “são fáceis porque são pobres”. A coreógrafa, que começou a estudar dança ainda aos 5 anos, e que já viajou por diversos países (mais de trinta, segundo seu perfil no Instagram, com mais de 300 mil seguidores), diz não ter se
revoltado ao ouvir os áudios do parlamentar.

“É impossível não saber os detalhes dessa história, está em todo o lugar. Mas eu não quis prestar atenção. Sabe por quê? Porque ele não sabe nada sobre as mulheres ucranianas, mas eu sei. Elas são guerreiras, e o que ele disse é estúpido, ofensivo. Não o conheço, mas sei que as mulheres ucranianas jamais se envolveriam com alguém com um pensamento tão retrógrado quanto esse. Tenho conversado com várias mulheres e elas estão todas conectadas, rezando para seus deuses, para seus soldados e por suas famílias”, afirma Darina, em entrevista à Tribuna.

Neste 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, a dançarina ainda reflete sobre a importância de ser uma mulher ucraniana em um momento como o que sua nação vive, durante os duros dias de guerra. “Ser mulher agora, uma mulher ucraniana, é ser forte, poderosa, não perder a esperança e poder dar muito apoio a todos os homens, mulheres e crianças que estão sofrendo nesse momento. Como diz um ditado de nosso país: se os soldados homens estão no campo de batalha, sendo um ‘chapéu’ de proteção para nossas famílias, as mulheres têm de ser agora o pescoço que sustenta toda a engrenagem”, reflete orgulhosa.

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Experiência brasileira

Apaixonada pelo Brasil, Darina está em sua quarta passagem pelo país. A coreógrafa conversou com a Tribuna ontem, após ser homenageada na Assembleia Legislativa do Paraná, em uma sessão especial em solidariedade e apoio ao povo ucraniano. “Estou amando Curitiba, é uma cidade linda. Espero voltar em breve, em condições mais apropriadas”, acrescenta.

Foto: Dálie Felberg / ALEP

E a mulher na política?

Com o caso do áudio vazado do deputado Arthur do Val, não há como deixar de lado a reflexão sobre a representatividade da mulher na política. Quando se fala em cargos eletivos ocupados por mulheres, o Brasil ainda está longe do ideal da equidade. A balança ainda pende para o lado masculino, mas o caminho para esse equilíbrio político entre homens e mulheres vem dando sinais de mudança. Uma lenta mudança, mas que não pode ser ignorada, e sim, motivada.

Um relatório produzido em maio de 2021, pela Comissão de Estudos para Implementação do Projeto Mulheres na Política, constituída no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná pela Portaria PRESID nº 674/2019, mostra que as mulheres são a maioria do eleitorado, representando 52,50%(77.649.569 de eleitoras) do eleitorado nacional e 52,57%(4.212.195 de eleitoras) do eleitorado paranaense.

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Nas últimas eleições, segundo o relatório do TRE/PR, houve 9.059 (16,05%) vereadoras eleitas em todo o Brasil,um aumento de três pontos percentuais em relação às últimas Eleições Municipais de2016, quando 7.816 (13,5%)mulheres conquistaram uma vaga no legislativo municipal.

Em 2020, o mesmo relatório aponta que o Brasil teve 655(12,04%) prefeitas escolhidas nos 5.568 municípios brasileiros. Foram 19 a mais que em2016, quando 636 (11,04%)mulheres elegeram-se para comandar o executivo municipal. Ainda em 2020, foram 898(16,51%) vice-prefeitas eleitas. Nas Eleições 2016 haviam sido 791 (14,48%).

Nas Eleições Gerais de 2018– que servirão de parâmetro para a evolução da representatividade feminina nas eleições previstas para 2022 –, o TRE/PR aponta que as mulheres conquistaram 15,56% (161)das vagas nas assembleias legislativas, 15,01% (77) na Câmara dos Deputados e 11,54%(6) no Senado. No Executivo, a participação feminina limitou-se à eleição de 7 vice-governadoras (26,92%) e 1 governadora (3,85%).

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