Em 21 de fevereiro de 1999, após um temporal ter atingido em cheio as bacias do Rio Belém e do Barigui, Curitiba sofreu a maior enchente dos últimos 40 anos. Várias regiões da cidade ficaram submersas. Na Boca Maldita, no centro, o alagamento teve um pico de 70 cm de altura. Na região da PUC, o Rio Belém chegou a 400 m de largura. Ruas ficaram intransitáveis e centenas de famílias foram desabrigadas e desalojadas.

Essa tem sido uma cena nada incomum na capital paranaense pelo menos desde meados do século passado. E a situação não é muito diferente nos dias atuais. O alagamento causado pela chuva desta quarta-feira (14) não é novidade. No início do ano, uma forte chuva que atingiu a região do bairro Água Verde alagou ruas, comércios, garagens de condomínios e até o cemitério. No Mossunguê, o engenheiro Joelson Barguinea Fonseca teve seu carro arrastado pela correnteza do rio ao atravessar uma ponte e foi encontrado morto após 15 horas de buscas.

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Ao longo das últimas décadas, as sucessivas gestões municipais têm implantado obras e adotado medidas para enfrentar o eterno problema dos alagamentos. Nos anos 1970, por exemplo, foram criados parques e bosques compostos por lagos com a função de reter a água das chuvas. A coleta do lixo reciclável soma-se a essas iniciativas voltadas a reduzir a carga de resíduos que contribuem para entupir bueiros, córregos e rios da cidade. Mas essas ações demonstraram ser insuficientes.

Um levantamento da Defesa Civil de Curitiba mostra que centenas de pessoas ainda são vítimas das enchentes todos os anos. Em 2016, por exemplo, 127 pessoas foram desalojadas ou ficaram desabrigadas na cidade em decorrência dos alagamentos. No ano passado a situação foi pior, com 183 desalojados. E nos primeiros dias de 2018, já foram 34 pessoas que tiveram que ir para casas de parentes e amigos ou foram para abrigos públicos após ter a casa invadida pela água.

Há saídas para os desastres

Uma pergunta que surge naturalmente é por que a cidade parece estar condenada a conviver para sempre com os desastres das cheias? Para especialistas que há anos estudam o problema dos alagamentos, acabar cem por cento com as enchentes é muito difícil, mas é possível amenizar o problema com medidas que vão desde obras até a educação ambiental da população.

Para o professor Fabio Teodoro de Souza, do curso de Engenharia Civil da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), como em praticamente todas as cidades dos países em desenvolvimento, em Curitiba sempre tentam o agora e esquecem o planejamento de longo prazo. “Se é um problema que existe há muitos anos, ao longo de décadas, não existe solução do dia para a noite”, critica.

Souza observa que a taxa de urbanização de Curitiba aumentou muito nos últimos anos e continua aumentando, o que exerce forte pressão sobre as redes de escoamento de água. “Áreas que antes eram permeáveis, como bosques, áreas rurais, vegetação, hoje estão cobertas por telhados, estacionamentos, asfalto. A água da chuva não tem mais espaço para penetrar no solo”, diz.

Bairro Osternack ficou alagado após chuvas no verão de 2002. Foto: João de Noronha
Bairro Osternack ficou alagado após chuvas no verão de 2002. Foto: João de Noronha

Crítico das medidas tomadas “no afogadilho”, o professor avalia que a solução pontual aplicada por muitos gestores é como tapar o sol com a peneira. “A cidade tem que ser repensada para o futuro. Tem que ter planejamento e gestão urbana com uma visão de médio e longo prazo”, afirma ao apontar como um erro histórico o estabelecimento de moradias às margens dos rios e córregos.

“A natureza necessita do espaço dela. O rio não é um lugar para se morar do lado. Mas essas regiões de risco têm sido uma alternativa para as pessoas carentes, principalmente pessoas das classes sociais mais vulneráveis, que ocupam essas áreas”, acrescenta.

O pesquisador Roberto Fendrich, do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que há três décadas estuda as enchentes nas cidades paranaenses, diz que faltam obras de desassoreamento dos rios, canais de macrodrenagem e mais redes de microdrenagem. Ele defende ainda que a solução só virá com a instalação de microreservatórios nas residências, nos edifícios, nos estabelecimentos públicos, nas empresas, para compensar a impermeabilização do solo.

Prefeitura promete a conclusão de duas grandes obras

A prefeitura de Curitiba argumenta que as obras na área de saneamento passam por várias gestões e abrangem muitos programas, envolvendo recursos e projetos dos governos municipal, estadual e federal.

De acordo com informações da Secretaria Municipal de Obras Públicas e Infraestrutura, “duas grandes obras de drenagem e perfilamento, de cerca de R$ 140 milhões, estão em andamento na cidade”. As obras fazem parte do PAC Drenagem e Gestão de Riscos de desastres naturais, financiadas pelo Ministério das Cidades e pela Caixa Econômica Federal.

Segundo a secretaria, a maior obra em execução pela prefeitura para controle de cheias e alagamentos está sendo implantada nos afluentes do Rio Pinheirinho. “Os córregos Henry Ford, do Cortume e Santa Bernadete e o Rio Vila Guaíra passam por uma transformação, que trará efeitos positivos para 57,1 mil moradores dos bairros Lindóia, Parolin, Fanny, Guaíra e Hauer”, afirmou em nota a prefeitura. Estão em execução, segundo a secretaria, três grandes lotes de obras de macrodrenagem, com investimento de R$ 120 milhões.

Outra obra, ainda segundo a prefeitura, é a de drenagem e perfilhamento dos 22 quilômetros do Rio Barigui, retomada ano passado após ficarem paradas por dois anos e dez meses. “A obra irá aumentar a vazão do rio e, consequentemente, diminuir riscos de enchentes nas comunidades dos bairros Caximba, CIC, Tatuquara e Fazendinha. Os investimentos são de R$ 15 milhões”, informa.

A prefeitura diz ainda que, além dessas grandes obras, o Departamento de Pontes e Drenagem vem desenvolvendo ações e obras corretivas e preventivas em rios e córregos da cidade.