Relatos de passageiros sobre arrastões a ônibus biarticulados do transporte coletivo de Curitiba têm sido comuns e preocupam não só pelos roubos, mas também pelo fato de quase nenhuma das vítimas registrar o boletim de ocorrência (B.O.). Muitas das ações para inibir a criminalidade são planejadas pelo poder público com base em números e dados. Se não há registro, aumenta a possibilidade de que nada seja feito para acabar com esse tipo de violência na capital paraense.

O B.O. é a forma do poder público saber sobre uma ocorrência e mapear os locais que mais precisam de atuação policial. São os boletins que vão gerar dados para o planejamento das ações. Dessa forma, a falta do B.O. impede o desenvolvimento de um planejamento estratégico específico para cada tipo de ocorrência policial, por isso é importante sempre fazer o registro.

Só nas primeiras duas semanas de março, dois casos de arrastão a biarticulados foram relatados, um deles ocorreu na manhã de quarta-feira (14) e terminou com a prisão de um dos suspeitos. Segundo informou a assessoria de imprensa da Polícia Civil, dois homens entraram no ônibus da linha Santa Cândida/Capão Raso na tentativa de roubar os passageiros. A bolsa de uma mulher chegou a ser tomada, mas o crime foi frustrado porque uma viatura da Polícia Civil passava pela canaleta no momento da ocorrência e os policiais foram avisados pelos passageiros da janela do ônibus, no bairro Boa Vista. Durante a abordagem, um dos suspeitos fugiu e o outro foi preso ainda em posse da bolsa da mulher. Somente ela fez o B.O..

Outro caso relatado por passageiros aconteceu na tarde de sexta-feira (9), na estação-tubo da Praça Osvaldo Cruz. Testemunhas disseram que os suspeitos acessaram o biarticulado pela porta de desembargue e anunciaram o assalto. Ainda segundo as testemunhas, pertences de pessoas sentadas nos bancos preferenciais foram levados. A reportagem da Gazeta do Povo procurou a Polícia Militar e a Guarda Municipal para apurar detalhes da ocorrência, mas o B.O. não havia sido registrado. Ninguém foi preso.

Crimes não ficam restritos a linhas específicas. Foto: Aniele Nascimento
Crimes não ficam restritos a linhas específicas. Foto: Aniele Nascimento

“Assaltos como esses a ônibus, estações-tubo e cobradores têm se tornado comuns. Os motoristas informam que os suspeitos dos arrastões furam a catraca de acesso à porta 4 do biarticulado. Em muitos casos, o motorista nem percebe a ação dos ladrões e o ônibus segue o seu trajeto. Os passageiros também não comunicam ninguém e tudo fica por isso mesmo. É preocupante. Na hora de reivindicar mais segurança ao poder público, não há registros, não há números e ficamos sem argumentos”, alerta Dario Pereira, diretor de segurança do Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Curitiba (Sindimoc).

Por outro lado, a Secretaria Municipal de Defesa Social e Trânsito de Curitiba diz que é importante esclarecer que nem todos os delitos que ocorrem no transporte coletivo são arrastões. Em nota, a pasta explicou que “se há relatos de passageiros, os mesmos precisam ser formalizados em boletim de ocorrência para as forças policiais, para que a informação chegue às instituições envolvidas e as devidas providências possam ser tomadas”.

O que tem sido feito

Para combater os roubos dentro dos ônibus, a secretaria informou que as equipes da Guarda Municipal (GM) fazem o policiamento preventivo em estações-tubo e terminais de ônibus e realizam abordagens diárias nas mais diversas linhas do transporte coletivo da cidade, em horários diferentes. Segundo a secretaria, o trabalho é feito em conjunto com as forças policiais do estado e envolve ações ostensivas da Polícia Militar e atividades de inteligência, de identificação e de prisão de suspeitos pela Polícia Civil.

Por nota, a Secretaria Municipal de Defesa Social e Trânsito de Curitiba destacou que “a Patrulha do Transporte Coletivo da GM tem resultados efetivos: além de inibir diversas ações delituosas, tem realizado prisões constantes: a mais recente ocorreu na tarde de quinta-feira (15), na estação-tubo Eucaliptos (bairro Alto Boqueirão), onde um homem de 35 anos foi preso em flagrante após tentativa de roubo contra o cobrador”.

O Sindimoc informou que já procurou a secretaria solicitando medidas específicas para combater os arrastões a ônibus. “Ainda não foi feito um planejamento de segurança para isso, mas é possível que isso ocorra nos próximos meses”, disse Dario Pereira.