Acima, o imenso céu azul. Abaixo, a vastidão da serra. Lá no alto a única voz capaz de romper o silêncio é a do vento. Com gaviões-reais planando na altura dos olhos, mais ao longe dá pra ver o mar. De fato: visto do alto o mundo é melhor. Se você já subiu uma montanha, sabe do que estamos falando. E é justamente essa mescla de sensações que, nos últimos anos, têm atraído – como nunca antes – o público para a prática do montanhismo. Nos últimos cinco anos, o Paraná registrou um verdadeiro boom da modalidade, tendo como destinos mais procurados as cadeias de montanhas próximas à capital. Proporcional ao fascínio pelas alturas, porém, é o número de acidentes registrados no período. Por conta disso, especialistas recomendam: segurança antes, aventura depois.

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Tudo começou com a pandemia e as regras de isolamento impostas no início da crise sanitária. Assim como todos os setores, o turismo local foi expressivamente impactado pelas medidas restritivas que incluíam a proibição de aglomerações em parques, morros e reservas florestais por todo o estado. Aos poucos, com o afrouxamento das medidas e o convergente anseio do público por atividades outdoor (haja vista o isolamento doméstico), a saída foi buscar o que mais próximo havia de natureza: as cadeias de montanhas.

Segundo estimativas da Federação Paranaense de Montanhismo, depois de setembro de 2020, quando as medidas de isolamento começaram a ser flexibilizadas, o fluxo de turistas aumentou 40% nas trilhas da Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Na prática, porém, os números são bem maiores.

Viviane Rochinski é guia de montanhismo e tem um currículo extenso quando o assunto é aventura. Há cinco anos à frente da empresa Salto Alto, que viabiliza expedições para públicos de diversas idades pelas montanhas e trilhas do Paraná, ela afirma ter presenciado situações inéditas pelos morros da Região Metropolitana de Curitiba nos últimos meses. “Numa das últimas viagens ficamos impressionados. Era tanta gente subindo o morro que formaram-se filas na encosta”, relembra. Segundo Viviane, a “febre” começou cerca de 6 anos atrás, mas, desde a reabertura dos parques estaduais, depois da pandemia, o público de aventura cresceu cerca de 100% em Curitiba, principalmente entre os jovens.

Entre os picos mais procurados, segundo Viviane, os mais próximos de Curitiba são os prediletos, como o Morro do Canal (Piraquara), Anhangava (Quatro Barras), Pico Paraná (Antonina), Camapuã (Campina Grande do Sul) e Tucum (Campina Grande do Sul). “O que muita gente não sabe é que, na classificação de montanhismo, esses picos são considerados de dificuldade moderada a difícil. Marcados por terrenos bastante acidentados, alturas significativas e trechos com vias de difícil escalada. Não é como um passeio no parque”, alerta.

Viviane Rochinski com os equipamentos necessários para encarar a montanha. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Paixão x Modinha

Certamente uma das razões pelas quais os morros têm feito tamanho sucesso é a famosa “selfie no topo”. Segundo Viviane a influência das redes sociais exerceu um papel expressivo no aumento da procura por atividades de aventura. “A paisagem natural rende fotos e belas imagens que não são tão comuns e acabam por atrair o interesse de quem vê. Porém, como sabemos, a maioria só posta o que é bonito, sem passar o conteúdo de como pode ser difícil chegar até aquela paisagem”, pondera.

Por outro lado, o contato com a natureza e os benefícios da atividade ao ar livre – incluindo a adrenalina – também são fortes atrativos para os aventureiros de primeira ou segunda viagem. É o famoso “bichinho da montanha me picou”. “Basta 30 minutos de contato intenso com a natureza para que se observe benefícios como estabilização da pressão arterial, redução do cortisol e liberação de endorfinas. Quando bem orientada e segura, essa prática fascina. Por isso tanta gente acaba ‘viciando’”, explica.

Ideal seria, porém, se o hobby fosse sempre bem orientado e seguro, o que não acontece na prática.

Perigo nas Montanhas

Diferente do que mostram as redes sociais, na realidade, nem tudo é tão lindo. Ainda mais quando se fala nos riscos da atividade. Proporcionais à grande procura pelo turismo de aventura, são também os acidentes registrados nas montanhas da RMC e Litoral. Somente da última semana de Junho para a segunda semana de Julho, cinco acidentes foram registrados nos picos. Um deles com óbito, no Morro do Canal.
“As pessoas têm a falsa ideia de que condicionamento físico basta para subir uma montanha. Não é bem assim”, alerta Viviane. Segundo a guia de montanhismo, conhecimentos básicos sobre o local onde se pretende aventurar, orientação profissional e equipamentos adequados são essenciais para quem busca ir, e – sobretudo – voltar em segurança.

Ela enfatiza os riscos aos quais estão expostos os turistas desavisados como viradas repentinas do tempo, incidência de tempestades, picadas de animais peçonhentos (principalmente no verão), perder-se, fraturar-se ou cair nas montanhas. “São acidentes completamente evitáveis que, quando acontecem, mobilizam muitas equipes de salvamento que poderiam estar auxiliando vítimas de outras emergências. Ainda mais em tempos de pandemia”, pondera.

Aventura Segura

Para evitar que a aventura acabe no hospital, a guia recomenda alguns passos a serem tomados. Ela explica que, para a prática segura do montanhismo, existem três caminhos: o primeiro é recorrer a pessoas que possuam conhecimento técnico e geográfico do local. O segundo, é a procura por clubes de montanhismo que, além de auxiliarem com instrução técnica, garantem o respeito ao meio ambiente e às boas práticas do esporte. Assim como as empresas especializadas, que seriam a terceira opção. 

É o caso da Salto Alto Montanhismo, empresa administrada por Viviane. “Além de orientação profissional, os esportistas contam com apoio de seguro em caso de acidentes, transporte até a trilha e suporte de guias que possuem a experiência e equipamentos necessários em caso de emergências”, revela. Ao todo, a guia já conduziu mais de 500 pessoas morros e cânions afora.

Os itens necessários para o montanhismo ou trekking seguros, segundo a guia, são os seguintes:

*Água em quantidade suficiente para o trajeto (1 litro e meio ou mais)
*Lanches para o período
*Celular bem carregado
*Lanterna de cabeça com pilhas extras
*Capa de chuva ou corta-vento
*Três camadas de roupas
*Luvas e meias extras para aquecimento das extremidades do corpo
*Cobertores de emergência (para quem vai acampar)
*Repelente contra insetos
*Protetor Solar
*Apito

Segundo Viviane existem aplicativos de navegação configurados com o mapeamento das montanhas mas, não são suficientes para orientar quem eventualmente possa se perder. “Na dúvida, o melhor é sempre procurar suporte e jamais ir sozinho. Existem muitas instituições capacitadas para guiar os aventureiros e garantir que a expedição não vire tragédia”, destaca.

Ela recomenda ainda a adoção de boas práticas da atividade, como o respeito à biodiversidade. “É preciso ter em mente que, se cada pessoa decidisse jogar um lixinho, por mínimo que fosse, nas nossas montanhas, a cada fim de semana elas se transformariam num depósito de lixo. Por isso deve-se ter consciência de contar com acessórios adequados para o descarte desses dejetos. Quem decide acampar, deve saber que fazer fogueiras nas unidades de conservação é crime. Para isso, existem áreas de camping com a estrutura específica. Por fim, lembrar-se sempre: não levar nada a não ser as foto e não deixar nada a não ser pegadas”, finaliza.