O Hospital de Dermatologia Sanitária São Roque, em Piraquara, região metropolitana de Curitiba (RMC), não vai mais receber internações e será transformado em hospital-dia pela Secretaria de Saúde do Paraná (Sesa). A informação foi repassada pelo governo na tarde da última terça-feira (27). Segundo a Sesa, a instituição está passando por um processo de reestruturação para otimizar a estrutura física da instituição. O hospital é referência no Paraná no tratamento dermatológico de doenças graves como a hanseníase e tem procura até de pessoas de outros estados do Brasil. A novidade, porém, preocupa pacientes que dependem da estrutura hospitalar para o tratamento de doenças graves de pele.

Inconformada com a notícia, a paciente Sirlei Palmira da Costa Couto, 43 anos, que mora em Curitiba e sofre com osteomielite crônica e o diagnóstico de hanseníase desde os 10 anos de idade, disse que o fim da internação no São Roque trará complicações para o seu tratamento. A doença dela afeta a região do pé.

“Meu caso no pé precisa de acompanhamento constante. Pelo menos uma vez por semana, ou a cada 15 dias, tenho que ir até o ambulatório. Mas quando meu caso se agrava e tenho que tomar injeção na veia todos os dias, tenho que ser internada, pois não tenho condições de ficar indo e voltando de Piraquara”, lamenta a paciente.

Sirlei sofre com osteomielite crônica e o diagnóstico de hanseníase desde os 10 anos de idade. Ela está preocupada com a mudança no hospital. Foto: Arquivo Pessoal.

Outro motivo que a preocupa é ter que procurar outro hospital para ser tratada. Segundo a Sesa, uma possibilidade em estudo é a internação dos pacientes passar a ser feita no Hospital São Sebastião, que fica na Lapa, também na RMC. “Me deixa muito triste. Há dois anos, quando vim para o São Roque, em outro hospital eu tinha sido desenganada e queriam amputar meu pé. Diziam que era a única solução. Mas no São Roque, não. Lá, eles me trataram com dedicação e se importaram com meu caso. Se não fosse isso, eu estaria sem o pé hoje”, relembra.

Uma outra paciente, de 66 anos, que estava internada no São Roque até a tarde de quarta-feira (28), contou que não sabe o que fará quando o hospital parar com os internamentos. Ela, que preferiu não se identificar, disse que vem de outro estado para receber o atendimento. “Sem a internação, não tenho como vir pra cá e ficar na cidade. Meu marido precisa de mim, por causa de um câncer. Eu preciso ficar boa pra poder estar em casa. Só aqui consegui que me tratassem de maneira decente. Não sei o que vou fazer. Falaram pra gente que não vai dar mais pra internar”, revela.

Apesar dos pedidos para as internações continuarem, a Sesa deve manter o objetivo de transformar o São Roque em hospital-dia. “Estamos reorganizando as unidades sob gestão da Secretaria com o objetivo de ampliar a oferta de serviços para a comunidade e direcionar a aplicação correta dos recursos financeiros públicos”, afirmou o secretário da Saúde, Beto Preto.

Segundo a Sesa, avaliações realizadas pelo Datasus (Dados do Ministério da Saúde) mostram que há anos vem acontecendo redução gradativa no número de internados no Hospital São Roque. Em 2018, os dados divulgados apontam que foram registrados 181 internamentos; em 2019 foram 76; e em 2020 o registro aponta 171.

Em 2021, entre janeiro e março, a Sesa informou que o hospital manteve uma média  de 10 internamentos/mês, sendo que mantinha 30 leitos ativos e cerca de 20 ficavam desocupados na maior parte do tempo.

Porém, no mesmo período de 2021, o São Roque registrou mais de 4.500 atendimentos ambulatoriais, entre consultas, procedimentos e curativos especiais, confirmando a importância da manutenção dos serviços ambulatoriais. Os números também foram divulgados pelo governo.

Hospital é referência no Paraná. Foto: Geraldo Bubniak/AEN

“Avaliamos dois contextos: o de baixíssima procura por internamentos comprovado pelos registros e também o da constante procura por serviços ambulatoriais. Assim, baseados em análises, redefinimos o funcionamento do Hospital São Roque para hospital-dia. Estamos investindo na ampliação da oferta laboratorial, agregando profissionais especializados, equipamentos e insumos. A expectativa da Sesa, ainda no primeiro semestre deste ano, é triplicar os atendimentos”, explicou o chefe de gabinete da pasta, Cesar Neves.

“Estamos também em tratativas adiantadas com o Hospital Regional da Lapa, que irá acolher eventuais casos de indicação de internamentos. Neste período de pandemia da Covid-19, constatamos uma demanda maior por curativos especiais em pacientes que ficam por longos períodos acamados gerando lesões por pressão como uma das sequelas”, acrescentou.

De acordo com a Sesa, o ambulatório no São Roque prevê atendimento integral ao paciente, com equipe multiprofissional, exames complementares, pequenos procedimentos cirúrgicos, fototerapia (terapia com luzes especiais), reabilitação e internamentos na modalidade hospital-dia.

“Numa segunda etapa pretendemos implantar o Ambulatório Médico Especializado (AME), que vai priorizar as especialidades com maior demanda na região, com centro de apoio e diagnóstico”, explicou Cesar Neves.

Segundo ele, o projeto tem ainda uma terceira etapa que pretende instalar um centro de especialidades odontológicas e outros ambulatórios vinculados à saúde da mulher e pediatria. “Com a conclusão de todas as etapas, a expectativa é de colocar em funcionamento um grande centro de especialidades na Região Metropolitana com capacidade instalada para ofertar mais de 30 mil atendimentos/mês”, acrescentou.

O médico Hamilton Leite Ribeiro, que trabalha há mais de 30 anos no São Roque, diz não ser contra a decisão administrativa de transformar a instituição em hospital-dia, mas pede que essa mudança não ocorra durante a pandemia de coronavírus. “Temos pacientes que tomam medicamentos que baixam a imunidade. Em caso de uma transferência, por exemplo, eles correriam riscos”, aponta Ribeiro, que destaca a importância do São Roque no estado. “É um hospital referência. O ambulatório que passou a prestar atendimento aqui foi um um avanço importante. Isso vai continuar”, concluiu o médico.

Foto: Colaboração.