A covid-19 alterou radicalmente a vida e a rotina e quem trabalha diretamente na área da saúde enfrenta diariamente o medo, a preocupação e o distanciamento da própria família. Centenas de mulheres seguiram firmes na pandemia, inspirando e sendo exemplo no combate à covid-19.

A força feminina representa 65% do total de seis milhões de profissionais que ocupam o setor público e privado da saúde, tanto nas atividades diretas de assistência em hospitais, quanto na Atenção Básica. Dados do IBGE mostram que na Fonaudiologia, Nutrição e Serviço Social, elas são a grande maioria, com mais de 90% de participação. Em outras, como Enfermagem e Psicologia, elas são acima de 80%. 

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Em algumas atividades profissionais, a proximidade com qualquer tipo de doença é real e faz parte do dia a dia. Para quem escolhe trabalhar na área da saúde é até normal conviver com lamentações e perdas. No entanto, tem o lado legal de acompanhar a melhora clínica, a recuperação, o contato com a família e claro, a alta do paciente.

Marlene Carneiro Betim, chef de cozinha do Hospital Universitário Cajuru. Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná.

Nesta segunda-feira (8), comemora-se o Dia Internacional da Mulher, e, mesmo cansadas e aflitas, elas seguem dando exemplo em tempos tão incertos. Marlene Carneiro Betim, chef de cozinha no Hospital Universitário Cajuru, teve que convencer a família para seguir trabalhando na pandemia. Em março do ano passado, os três filhos pediram para ela largar a atividade que tanto gosta para ficar mais reclusa e cuidar da saúde. A preocupação do trio era que a mãe estaria próxima da covid-19 e prestes a completar 60 anos de idade, ou seja, grupo de risco da doença.

“Eles entraram em pânico e pediram uma reunião comigo. Combinaram de conversar e falaram que eu não poderia mais trabalhar. Aí falei que ainda não estava com 60 anos, não era aposentada e não queria parar. Prometi que iria me cuidar bastante até para ajudar os outros. Eu amo o que eu faço e não poderia deixar a cozinha”, comentou Marlene, que atua na área hospitalar há 11 anos, sendo 5 como chef de cozinha no Cajuru.

A decisão de Marlene de seguir trabalhando foi aceita pelos filhos, mas a profissional teve que acatar uma condição –  não poderia pegar o ônibus no trajeto para o hospital. “Eles são muito cuidadosos comigo e revezam todos os dias para eu chegar e sair bem do Cajuru. Quando eles não podem, pedem um carro por aplicativo de carona. Posso dizer que estamos nos cuidando mais e se protegendo até para que o prato chegue com mais segurança a todos”, afirmou Marlene.

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O medo do vírus

Outra grande guerreira nos corredores dos centros médicos é a Marli Barbosa de Resende, 42 anos, copeira no Hospital Marcelino Champagnat há três anos. Moradora de São José dos Pinhais, na região metropolitana, Marli entra em quartos e até em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para entregar as refeições aos pacientes. Qualquer descuido na proteção pode ser fatal e o foco precisa estar 100% no trabalho, ou seja, as preocupações ficam na porta de entrada do hospital.

O vírus não escolhe o sexo, idade, classe social e profissão. No entanto, as mulheres são aquelas que mais são infectadas pela covid-19, em Curitiba. Segundo dados da Secretária Municipal de Saúde, 54% dos casos confirmados da doença ocorreram no sexo feminino, sendo que a maior parte atingida foi entre mulheres entre 30 e 39 anos. Nessa faixa etária, muitas delas são responsáveis por levar o sustento para casa, cuidar dos filhos e dos pais e ainda buscar uma qualificação no trabalho ou no ensino.

“Eu entro no quarto e em algumas UTIs. Vou toda equipada e confiante que estou ali para auxiliar as pessoas. Já tive muito medo no começo da pandemia, mas preciso trabalhar. Converso muito com meu filho de 19 anos sobre isso e reforço a importância de estar no hospital ajudando e trazendo o dinheiro para casa”, disse a copeira. Marli trabalha 12 horas consecutivas, faz curso de técnica de enfermagem e ainda estuda Pedagogia em uma universidade.

Infectada pelo novo coronavírus em 2020, Marli teve alguns sintomas leves e se recuperou em casa. Apesar de ter tomado duas doses da vacina, evita sair desnecessariamente e tem ficado mais distante da mãe Maria Aparecida Barbosa, que está com 70 anos.

A pandemia trouxe para a rotina de Marli algumas imagens que ela vai demorar para esquecer. “Já vi várias pessoas morrendo na minha frente, mas também vi algumas recuperações. Lembro do doutor Jamal que ficou com a gente e voltou para casa com saúde. O que eu mais desejo é saúde para todos, especialmente para as mulheres no nosso dia. Não desanimem! Lutem pelos seus sonhos”.