Com o aumento expressivo nos casos de contágio e mortes por coronavírus em Curitiba e em todo o Paraná, não apenas os serviços de saúde sentem a sobrecarga de trabalho. Na capital, outro serviço essencial, o das funerárias, vive dias de trabalho duro e ininterrupto.

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“Trabalho há 15 anos no setor e nunca vivi um momento desse. Passei pela H1N1 e na época a gente tinha o mesmo medo do contágio, tinha muitos cuidados… Mas nunca teve nada parecido com o volume de trabalho de agora”, afirma Fabiana Miranda, gerente de relacionamento do grupo Jardim da Saudade, que possui funerária, cemitério e crematório na região de Curitiba.

A realidade não é exclusiva do grupo, um dos 25 concessionários do serviço funerário da capital. De acordo com o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Serviços Funerários do Estado do Paraná, Rauli Sysocki, a quantidade de atendimentos, de uma maneira geral, dobrou nas últimas semanas.

“A gente tem feito ajustes nos plantões e horas-extras dos funcionários e, atualmente, até os patrões estão tendo que trabalhar na ativa para dar conta da demanda. Isso é geral, não só em Curitiba, pelo menos dobrou a demanda de trabalho,” afirma o presidente.

Apesar das jornadas de trabalho mais longas e exaustivas, o setor é unânime ao dizer que a capital paranaense não corre o risco de ver colapsar o sistema funerário, a exemplo do que ocorreu em outras cidades do Brasil. Ainda que o trabalho esteja mais intenso, afirmam, não há falta de pessoal, insumos ou espaço para sepultamentos.

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Em Foz do Iguaçu, carros de funerárias fizeram fila na porta do Hospital Municipal, em 10 março, por conta do número até então recorde de mortes registradas na cidade do Oeste paranaense: 12 óbitos no mesmo dia. Em Curitiba, a média diária de mortes, registrada nesta quarta-feira (24) pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS) é de 39,4. Ainda assim, as autoridades garantem que o número tem como ser absorvido pelo sistema.

“Em nenhum momento vai faltar túmulo ou qualquer coisa desse tipo. Temos desde março de 2020 um plano de contingência em ação aqui em Curitiba. Houve um aumento muito expressivo de sepultamentos nas últimas semanas, mas em nenhum momento nós corremos risco de colapso”, afirma Clarissa Grassi, diretora de Serviços Especiais da Secretaria do Meio Ambiente (SMA).

“Acredito que ainda teremos duas ou três semanas difíceis pela frente, mas não acredito em colapso. Tanto em Curitiba como na Região Metropolitana temos um sistema funerário muito robusto”, diz Fabiana Miranda. “Mas é preciso que a população se conscientize e se cuide. Temos visto cada vez mais famílias despedaçadas, trazendo entes queridos pra cá com diferença de três, quatro dias entre cada um”, lamenta.

O serviço funerário municipal, que centraliza o atendimento a todos os óbitos ocorridos em Curitiba, por qualquer causa, também reforçou as equipes de atendimento nas últimas semanas. “A gente teve ao longo de 2020 alguns picos da doença em julho, agosto e dezembro. Depois isso se estabilizou de certa forma mas, nessas duas últimas semanas tivemos um aumento superior a 50% nos atendimentos”, afirma Clarissa Grassi.

O volume maior de trabalho é impulsionado também pelas mortes de residentes de outras cidades que procuram internamento em Curitiba e acabam falecendo aqui. Além disso, o serviço também atende os casos de óbitos fora da cidade, mas que serão sepultados na capital.

Despedidas têm de ser mais curtas

“A diferença é que hoje praticamente não existe mais cerimonial. Antes a gente ficava de um a dois dias para planejar velórios com as famílias. Agora, quando o caso é suspeito ou confirmado de Covid-19, nem cerimônia tem. E quando não tem suspeita, as cerimônias precisam ser rápidas mesmo assim. É por isso também que damos conta da demanda atual”, afirma Rauli Sysocki.

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Embora a pandemia já dure um ano em solo paranaense, no momento difícil da perda de um ente querido muitas famílias acabam relaxando nos cuidados. “Muitas vezes temos cinco ou sete membros da mesma família que vêm declarar o óbito juntos. Isso é muito complicado, gera aglomeração e precisamos constantemente orientar”, conta Grassi.

“A questão do velório tem sido complicada também. Na maioria das vezes o fator de contaminação não é o morto, são os vivos. O luto envolve abraço, choro, e uma pessoa nesse lugar pode estar contaminada. É um momento difícil, mas que precisamos da colaboração das famílias”, complementa a diretora.

Campanha busca valorização dos trabalhadores funerários

Depois de um ano de trabalho e com o acirramento da situação de pandemia, os agentes funerários buscam apoio em seus pares para continuar a prestação de serviços. Na empresa de Fabiana Miranda, foi criada uma campanha de valorização dos trabalhadores, com a divulgação mensal da foto e história de vida de cada um dos funcionários da empresa que atuam na linha de frente.

“Somos todos seres humanos e também trabalhamos com receio do contágio. Mas quem trabalha no ramo funerário eu acredito que tem um dom. Assim como um médico e enfermeiro, que trabalham mesmo com medo, a gente entende que é um trabalho muito necessário e tem uma importância muito relevante pra sociedade. Isso ajuda a manter a equipe e a motivação. Saber que estamos fazendo algo importante, ainda que no momento final”, conta Fabiana.