O prefeito de Curitiba, Rafael Greca (DEM), polemizou ao comentar sobre a eleição da professora Carol Dartora (PT), primeira mulher negra eleita vereadora da Câmara Municipal. Segundo ele, a pouca presença de negros na política da cidade está associada à histórica imigração de europeus para o Paraná. E foi além: “A cor da pele é apenas uma contingência de quem foi criado mais perto [da linha] do Equador, com mais sol. Quem foi criado mais longe do Equador foi criado com pele mais clara. Mas nós somos todos iguais”, declarou, em entrevista gravada à GloboNews.

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Questionado se desconsidera a existência ou não de racismo, Greca classificou como uma “coisa detestável” que não gosta “nem de falar”. “Eu gosto mesmo é de gerar igualdade de oportunidades para todos. Gosto muito da igualdade de oportunidades para todos”, destacou. Ao longo da entrevista, citou o “pioneirismo” curitibano de negros bem sucedidos. Lembrou da engenheira Enedina Marques, a primeira mulher e a primeira negra a se formar em Engenharia no país. “Eu cresci em uma casa onde a engenheira Enedina Marques era colega do meu pai e, conosco, estava sempre”, disse.

Outro exemplo do referido pioneirismo citado por Greca foi o de Pâmphilo Assunção. “O primeiro grande advogado fundador do Instituto dos Advogados do Paraná, já em 1912, que era negro”, ressaltou. Sobre a vereadora eleita Carol Dartora, o prefeito a chamou de “moça formidável”, respeitou a opinião dela sobre o racismo estrutural e, em determinado momento, disse que “pode ser que isso [racismo] exista”. Mas deixou claro que não partilha do mesmo entendimento. “Discordo da vereadora que, aqui, haja um racismo estrutural”, afirmou.

Greca cita história do Paraná para justificar opinião

A grande proporção de brancos, pondera Greca, é explicada pela história do Paraná. “Curitiba chegou a ter 1/3 de sua população como negra no período colonial. Sou, também, um pouco historiador, escrevi um livro da história de Curitiba”, iniciou o pensamento. “Esse senso do período colonial foi derrotado em números pela imensa imigração europeia. Precisa entender a história. O Paraná foi transformado na mais jovem província do Brasil para Dom Pedro II castigar os paulistas pela Revolução Liberal [de 1842], e, nesse momento que o Paraná foi criado, em 1853, não havia mais nem tráfico de escravos e já havia a Lei do Ventre Livre”, afirmou.

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Sem mão de obra negra disponível no Paraná, prosseguiu Greca, em 1854, a terceira lei da Província mandou vir imigrantes. “Polacos, italianos, alemães, ucranianos, russos, japoneses, aos milhares vieram. Somos a maior província eslava do mundo, depois da Polônia e Ucrânia juntos. Acho que temos mais ucranianos que a Ucrânia e mais polacos que a Polônia. Essa imigração imensa dimiuiu a proporção demográfica dos negros”, concluiu.

Apesar da discordância, Greca deixou claro que deseja “toda a felicidade do mundo” à vereadora eleita Carol Dartora . “É uma boa professora, está começando um mestrado em história [a vereadora eleita corrigiu a informação do prefeito afirmando que faz no momento um Doutorado], dei meu livro a ela de presente e espero que as pessoas sejam iguais pela sua esperança, pelo seu coração, ainda além da cor de sua pele”, disse. Após uma pausa, continuou. “Não que a cor da pele seja um diferencial”, disse. A cor da pele, prosseguiu Greca, “é apenas uma contingência de quem foi criado mais perto [da linha] do Equador, com mais sol. “Quem foi criado mais longe do Equador foi criado com pele mais clara. Mas nós somos todos iguais”, comentou.

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Segundo Greca, sua gestão tem cerca de 15 mulheres em “cargos mais graduados”. Sobre a quantidade de negros em seu governo, citou seu comandante da Guarda Municipal de Curitiba. “Agora, veja, ele não é comandante da guarda porque é negro. É comandante da guarda porque é eficiente, um dos melhores guardas municipais do mundo. É uma pessoa zelosa, amorosa, atenta aos seres humanos e, por isso, é o comandante da guarda”, explicou.

Prefeito fala sobre possível candidatura de Moro para 2022

Ao longo da entrevista, o prefeito também falou sobre política. Deixou claro que não pretende se candidatar a governador em 2022 e cumprirá seu mandato. Assim, admitiu que apoiará uma provável candidatura à reeleição do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD). Para a Presidência da República, Greca reconheceu que Sergio Moro, ex-juiz federal da 13ª Vara de Curitiba e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, é um nome em potencial para a disputa.

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Contudo, Greca deu a entender que acha pouco provável que a candidatura será lançada. “Eu acho que até pode [Moro ser candidato], eu tenho simpatia pessoal por ele, pela senhora [Rosângela Moro], eles são meus amigos e da Margarita [Sansone, sua mulher], mas o processo de desgaste dele foi instaurado pelo fato de ele deixar de ser juiz”, ponderou.

Além do desgaste que Moro irá enfrentar, Greca avalia que o discurso de combate à corrupção perdeu fôlego após sua saída da Magistratura. “A Lava Jato disciplinou a política do Brasil, tornou mais veemente o mandamento da Lei de Deus de que ‘não roubarás’, e, por isso, tem todo seu mérito. Mas ela perdeu um pouco da autoridade, sem dúvidas, no momento em que o juiz Sérgio Moro desceu do pedestal, depôs a toga e foi ser ministro da República”, comentou. “Eu até mandei um cartãozinho para ele [Moro], dizendo: ‘Bem vindo à planície. Que Brasília lhe seja leve’. Pelo jeito, não foi”, acrescentou.