Indignação e revolta. Esses foram os principais motivos apontados pelas centenas de pessoas que foram às ruas na tarde deste domingo (4) em Curitiba. Bandeiras do Brasil, chapéus, apitos, buzinas e vários cartazes contra a corrupção e a favor da Operação Lava Lato deram o tom da mobilização convocada pelo “Vem pra rua”. Na capital paranaense, o movimento estima que pelo menos 15 mil pessoas participaram do protesto. Já para a Polícia Militar, 8 mil pessoas estiveram presentes na mobilização.

Crianças, jovens, casais e idosos participaram do protesto. A administradora Cleusa Nogueira afirmou que só essas ações podem conter os políticos. “O brasileiro tem que ir pra rua mesmo. É uma vergonha o que está acontecendo neste país. Das outras manifestações eu não participei, mas dessa eu me senti obrigada a participar. Acho que o que a gente vê aqui hoje é uma indignação coletiva. Falta punição neste país e quando aparece algo moralizador como é a Operação Lava Jato, os políticos querem impedir”, afirmou.

Os manifestantes se reuniram em frente à sede da Justiça Federal, local de trabalho do juiz Sérgio Moro, na Avenida Anita Garibaldi. Em vários estados e cidades do Brasil, as manifestações pintaram as ruas de verde e amarelo. Famílias inteiras carregando a bandeira do país, com o rosto pintado, nariz de palhaço e um discurso único contra a corrupção.

marcelo 21
Manifestantes criticaram mudanças nas 10 Medidas Contra a Corrupção.

O casal Antônio e Raquel Saldanha sempre participa dos protestos. Segundo eles, esta união é que faz a diferença. “Essa manifestação é uma forma de dizer chega. Não aguentamos mais. O Brasil está carregado de políticos ruins. Nós precisamos agir. Estamos aqui também para apoiar o Sérgio Moro”, contaram.

Entre os motivos para o ato estavam as mudanças promovidas pelos deputados no pacote das “Dez Medidas Contra a Corrupção” e também a atualização da lei do abuso de autoridade. Membros do Ministério Público do Paraná se mostraram indignados. “Nós recebemos essa possibilidade de alteração da pior maneira possível. O que os políticos querem fazer é amordaçar juízes, promotores e procuradores.

Eles querem inibir a ação do MP através de ameaças. Essa tentativa de mudança já aconteceu outras vezes, mas agora com a Lava Jato o combate às ações do MP alcançou altas esferas, por isso eles querem mudar a lei. É importante que a população saiba que não são só os juízes que serão atingidos, é qualquer ação penal”, disse o procurador de Justiça Mário Schirmer.

Dias melhores

Um dos gritos mais ouvidos nas ruas era “Fora Renan”. Vários cartazes pediam a saída do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB). Em contrapartida, o juiz Sérgio Moro tinha o seu nome ovacionado. “A gente precisa apoiar integralmente o trabalho do Moro que está sendo ameaçado. O trabalho que ele está fazendo é louvável, eu acredito que é através dessa limpa promovida pela Lava Jato que o Brasil vai voltar a crescer. Eu acredito nesse país e por isso estou aqui hoje”, afirmou Moacir Paranhos, diretor de operações.

A empresária Margarete Wosniak afirma que foi às ruas pelo futuro dos filhos e netos. “Eu virei em quantas manifestações existirem. É tanta roubalheira neste país que isso é o mínimo que podemos fazer. Eu acredito em dias melhores, por isso venho pra luta”, afirmou. Margarete e a irmã Marli participam de todas as mobilizações contra a corrupção. “Às vezes parece que tudo é em vão, mas não podemos deixar de protestar. Protesto até o fim. Luto pelo meu país”, declarou Marli Wosniak.

Foto: Felipe Rosa
Foto: Felipe Rosa

Ato nacional

A mobilização nacional foi convocada pelo movimento “Vem pra rua”, que estima que pelo menos 220 cidades participaram de atos. Houve manifestações ontem em pelo menos oito estados – Alagoas, Amazonas, Bahia, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo -, além do Distrito Federal.
No Paraná, 18 cidades tiveram atos: além de Curitiba, as cidades de Apucarana, Campo Largo, Cianorte, Cascavel, Dois Vizinhos, Foz do Iguaçu, Francisco Beltrão, Guarapuava, Londrina, Maringá, Mercedes, Palmeira, Palotina, Pato Branco, Ponta Grossa, Rio Negro e Toledo também organizaram mobilizações.

Dez Medidas Contra a Corrupção

Criada pelo Ministério Público Federal no ano passado, o pacote das “Dez Medidas Contra a Corrupção” tem como objetivo reforçar o combate à corrupção em todo o país. As medidas tratam de mudanças específicas em leis penais e processuais. Para que o pacote chegasse até o Congresso Nacional eram necessárias mais de 1,5 milhão de assinaturas. A população aprovou a iniciativa e o número de assinaturas ultrapassou a casa dos 2 milhões.

A revolta da população é porque essa proposta do MPF foi totalmente deturpada na madrugada da última quarta-feira (30 de novembro). Os deputados, em uma sessão que durou mais de sete horas, aprovaram diversas modificações no texto que saiu da comissão especial.

De acordo com o MPF, do texto original, só foram mantidas as medidas de transparência a serem adotadas por tribunais, a criminalização do caixa 2, o agravamento de penas para corrupção e a limitação do uso de recursos com o fim de atrasar processos. O projeto aprovado pela Câmara dos Deputados ainda precisa passar pelo Senado antes de chegar às mãos do presidente Michel Temer (PMDB).

Abuso de autoridade

Um projeto de lei que modifica a legislação referente a abuso de autoridade também foi alvo de protestos ontem. A mudança no texto do abuso de autoridade, que tramita no Senado, prevê mais rigor nas punições aplicadas a juízes, promotores e delegados que cometam algum tipo de excesso. O juiz federal Sérgio Moro foi a Brasília na última quinta-feira e argumentou que talvez este não seja o melhor momento para uma alteração na lei já que pode de alguma forma, coibir as investigações da Lava Jato.

No ato de ontem, a população mostrou-se contrária a essa alteração e manifestou apoio integral a juízes, promotores e policiais envolvidos na operação Lava Jato e que seriam atingidos pela mudança da lei.