Os comerciantes de Curitiba estão atravessando um grande dilema com a pandemia. Ao mesmo tempo em que sabem do risco que é abrir seus estabelecimentos e se expor ao coronavírus, também estão perdendo o sono com os prejuízos que o isolamento social está causando.

Tanto que desde o último fim de semana, marcado pela Páscoa, muitos comerciantes que trabalham com produtos não essenciais voltaram à ativa, contrariando as recomendações das autoridades sanitárias da capital. Principalmente nos bairros distantes da área centrall.

Sexta-feira (10), a Associação Comercial do Paraná (ACP) chegou a convocar seus associados a voltar ao trabalho. Entretanto, após notificação do Ministério Público alertando para o risco de contágio, a entidade voltou atrás. Mesmo assim, nos bairros, muitas lojas voltaram ao trabalho.

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A reportagem da Tribuna esteve no Centro de Curitiba nesta segunda-feira (13) e observou que praticamente todas as lojas de serviços não essenciais – como as que vendem roupas, celulares e eletrodomésticos – estão fechadas. Até mesmo o comercio ambulante desapareceu das ruas do Centro. Situação bem diferente dos bairros, onde aos poucos os estabelecimentos vão reabrindo mais e mais.

Na Avenida Manoel Ribas, a principal via do bairro de Santa Felicidade, por exemplo, quase todas as lojas de móveis estavam abertas nesta segunda-feira, mesmo sem clientes. No bairro vizinho do São Braz, a mesma situação na Avenida Toaldo Túlio.

A loja de bolsas de Valéria Ramos, 57 anos, no São Braz, ficou 20 dias fechada durante o isolamento social. Agora, a comerciante decidiu reabrir para tentar recuperar um pouco as vendas e atenuar o acúmulo de contas. Com o marido no grupo de risco por ser hipertenso, ficou somente com Valéria a missão de tentar levar o sustento para casa durante a pandemia. Com tanto tempo sem vender absolutamente nada, o medo tomou conta da comerciante para pagar a despesa mensal de R$ 7 mil do estabelecimento.

“Também estou sujeita ao vírus, tenho essa preocupação, mas sou obrigada a abrir. Se fico em casa, fico preocupada. Meu pensamento se altera 60 vezes ao dia. Estamos sofrendo”, lamenta a lojista. “Não consigo dormir de tanta preocupação, estou com dor em tudo. O estresse emocional está muito pesado. Se não morrer do coronavírus, morro de nervoso”, desabafa Valéria.

Para tentar vender bolsas, mochilas, chinelos e outros acessórios, a comerciante já alterou até os preços das mercadorias. Promoções de 50% e até mesmo vendas pela internet são algumas das estratégias para tentar recuperar o prejuízo. Mesmo assim, pouco tem adiantado. Na opinião de Valéria, os clientes estão gastando o dinheiro apenas com alimentação, bebida e remédios justamente pelo medo de como vai ficar a economia.

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“Quem vende produtos como os meus está sofrendo, pois muitos falam que é supérfluo. As contas não param, tenho que pagar o cartão de crédito que lá consta a compra das mercadorias, a prestação do carro e os aluguéis que preciso honrar. Como vou pagar se não estou vendendo nada? Não temos caixa para emergência, porque a situação já estava ruim antes do coronavírus”, lamenta a comerciante.

Os governos federal e estadual tomaram medidas para reduzir os problemas financeiros das empresas, tentando socorrer principalmente as pequenas empresas com concessão de empréstimos a juros reduzidos, prorrogação para pagamento de impostos, entre outras medidas. Apesar destes pacotes econômicoso, Valéria não acredita que a situação vá melhorar. “Se eu pegar esse dinheiro emprestado, vai virar uma bola de neve as contas. Não sei como agir. Estamos sofrendo”, enfatiza.

Medo do desemprego

Se os proprietários das lojas estão com dificuldades de pagar as contas, os funcionários estão ainda mais receosos. Com o comércio praticamente parado, ainda não se sabe o impacto no número de demissões.

Em uma loja de brinquedos no bairro Bacacheri, a compra pela internet foi o que salvou em parte as vendas durante a pandemia. Mesmo assim, a gerente Franciele Otto, 33 anos, teme pelo pior, ainda mais pelp fato de o marido ter sido demitido de uma oficina mecânica.

Francielle Otto, gerente de uma loja de brinquedos: medo de perder o emprego por causa da pandemia. Foto: Gerson Klaina / Tribuna do Paraná

Com esse temor, ela defende a volta do comércio, mesmo com a orientação da Saúde Pública de que não é recomendável afrouxar o isolamento social neste momento. “Não posso entrar nesta conta do desemprego. Acho que é preciso voltar tudo ao normal com medidas de proteção para todos. A loja não tem nem um ano. Se eu for demitida, vai ficar muito difícil para a minha família”, disse Franciele.

A previsão do Ministério da Saúde é de que o Brasil chegue ao pico do contágio do coronavírus entre maio e junho.