Um dos grandes ensinamentos no Natal ou em qualquer época do ano é respeitar o próximo e não desmerecer ninguém. Uma família no bairro Sitio Cercado, em Curitiba, reforça desde cedo que isto não é virtude, é sinal de dignidade.

Uma criança de 5 anos de idade não mede esforços para aliviar um pouco a dura rotina dos coletores de lixo com desenhos, piquenique e panetones. Tudo criado e organizado pela pequena Luísa Paixão, sobrenome perfeito para quem leva carinho para aqueles que trabalham com a coleta de lixo em sua rua.

Esta relação com os coletores começou há dois anos. Os pais Isabela e Thiago trabalham com reciclagem e levam sustento para casa separando objetos que muitas das vezes é descartado por outras pessoas. Além dos pais, a irmã de Isabela, a Simone, acabou influenciando em muitas ações a pequena garota. Luísa ficava ao lado da tia na frente de casa brincando e olhando o movimento.

Certa vez, a menina ficou encantada com o trabalho dos coletores de lixo da Cavo, empresa responsável pelo gerenciamento de resíduos, coletas e limpeza pública de Curitiba. Três vezes por semana o caminhão passa na Rua Olívio Domingos Leonardi levando os quatro mosqueteiros – Oswaldo (motorista), Marcelo, Rogerio e Emerson.

Luisa e os coletores viraram grandes amigos. Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná.

Ao ver o caminhão se aproximar da casa, Luísa sempre dá um jeito de dar um alô, vai na rua para agradecer pela limpeza e elogia o trabalho realizado pelo quarteto. “Mais ou menos dois anos atrás, a Luísa passava o fim de semana com a minha irmã. A Simone falava para ela dar oi para os meninos e assim foi. Mesmo sem a presença da tia, a Luísa seguiu com o ritual. Conversa sobre a vida, faz desenhos deles e a paixão começou a crescer”, disse Isabela, a mãe orgulhosa.  

Piquenique  

O tempo foi passando, mas o carinho só aumentou entre a criança e os coletores. Em setembro, Luísa conversou com a mãe para que se fizesse uma surpresa para os meninos. Ao invés de um novo desenho ou mesmo outra forma de carinho, a pequena decidiu organizar um piquenique na frente de casa. O objetivo era ousado, pois os rapazes não podem ficar ali comendo e bebendo no meio do trabalho. A limpeza na rua ia parar e o resultado poderia até prejudicar os coletores. “Ela deu a ideia e fiquei um pouco confusa, pois eles passam rápido. Fomos no mercado e ela pediu para comprarmos iogurte, refrigerante e preparamos sanduiches e um bolo. Ela colocou a cadeira lá e ficou na espera. Foi uma cena mágica e cheia de emoção”, confessou a mãe.

Do outro lado da história, a atenção dedicada pela criança simboliza um fortalecimento para uma categoria que nem sempre é valorizada pelas pessoas. Muitas das vezes, a coleta só é notada quando o caminhão fica na sua frente na rua ou se não ocorre a limpeza. Como forma de agradecimento pelo empenho de Luísa, os coletores entregam flores e até usaram roupa de Papai Noel e gorro neste fim de ano para dar uma roupa nova para a menina.  

Luísa conversou com a mãe para que se fizesse uma surpresa para os meninos. Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná.

Não precisa ter medo!  

Alguns artifícios em forma de ameaças usados pelos pais quando a criança não se comporta como por exemplo, a expressão “ vai ficar com o carrinheiro” ou mesmo ser entregue para a polícia pode ser prejudicial. A Tribuna do Paraná já contou a história da Alana, 12 anos que ao ter contato com uma equipe policial, ela chorava e não queria ajuda: disse que não confiava na polícia. Luísa, na sua pureza e sem maldade sonha ser massagista no futuro não separa gênero, classe social e nem quem é mais legal. O essencial é valorizar a todos e nos ensinar que o medo precisa ficar muito longe do preconceito. “ Eu gosto deles e de todos. A minha mãe ensinou a gostar e não precisa ter medo deles. Eles estão aqui para deixar a cidade mais limpa e sempre dão atenção e carinho. Todos são legais”, resumiu a nobre Luísa.