O Brasil perdeu na quarta-feira (19) mais um de seus ícones da arquitetura. José Maria Gandolfi, que integrou o time de arquitetos paulistas que lecionaram na primeira turma do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná (UFPR) na década de 60 – com alunos como Jaime Lerner, Manoel Coelho e Lubomir Ficinski Dunin – e assina obras icônicas pelo país, como o edifício sede da Petrobrás, faleceu vítima de câncer.

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A informação foi confirmada pela família e ocorre poucos dias após o aniversário de 88 anos do arquiteto, celebrado no último dia 2 de maio. “Nós comemoramos o aniversário, ele estava bem, quis ir para a chácara. Mas, de lá para cá, seu estado piorou e ele passou a última semana internado”, conta a arquiteta Alessandra Gandolfi, nora de José Maria.

O velório e o sepultamento estavam previstos para a manhã desta quinta-feira (20), no Cemitério Parque Iguaçu, em Curitiba.

Edifício sede da Petrobras, no centro do Rio de Janeiro (RJ). Foto: Fernando Frazão/Arquivo/Agênica Brasil

Um legado

Um grande nunca se vai sem antes deixar um legado. E este é o caso de José Maria Gandolfi. Conversador nato e amante de ursinos de pelúcia — conforme contou de forma leve e descontraída para essa HAUS em perfil publicado no fim de 2020 –, o arquiteto deixa sua marca na história da arquitetura brasileira ao projetar prédios-ícones da escola brutalista paulista e que são referência até hoje, como a sede da Petrobrás, no Rio de Janeiro. Foram 37 prêmios em concursos de arquitetura, sendo 22 deles de 1º ou 2º lugares.

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“Ele foi tudo para mim. Sempre me orientou como o mais velho. Ele me convenceu a fazer arquitetura. Graças a ele eu consegui um estágio com o Paulo Mendes da Rocha, um arquiteto de primeira grandeza. Aprendi muito com o Paulinho. Depois eu ajudei no projeto do Santa Mônica e ele veio para Curitiba. Algum tempo depois ele foi me buscar. Cuidou de mim sempre. Nunca precisei me incomodar com coisa alguma. Eu só trabalhava, produzia, e ele me ancorava”, confidencia o irmão Roberto Gandolfi, 84 anos.

José Maria Gandolfi. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo

Gandolfi deixa uma marca também em todos os profissionais com quem trabalhou ou dividiu seu conhecimento. “Gostaria de transmitir meus pêsames aos familiares do José Maria. Somos companheiros desde a escola, durante alguns anos trabalhamos juntos no escritório Forte Gandolfi e fizemos obras notáveis em Curitiba, trazendo para cá a arquitetura brutalista utilizada em São Paulo, onde nos formamos no curso Arquitetura da [Universidade Presbiteriana] Mackenzie. O Gandolfi sempre foi muito trabalhador”, aponta o arquiteto Luiz Forte Netto, que foi contemporâneo e sócio dos irmãos José Maria e Roberto Gandolfi no escritório acima citado.

“O José Maria era um arquiteto muito importante para Curitiba. Foi responsável por algumas das obras mais importantes da cidade. É uma perda muito grande, lamentável”, comenta o arquiteto Domingos Bongestabs, outro ícone da nossa arquitetura, que chegou a ser aluno de José Maria na primeira turma de Arquitetura da UFPR.

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Em Curitiba, levam a assinatura de Gandolfi o prédio da Paraná Previdência, as sedes do Santa Mônica Clube de Campo e do Clube Curitibano e o ginásio do Círculo Militar, para citar alguns.

Seu legado também está vivo em muitas ruas e praças da cidade. Afinal, ele plantou cerca de 350 mil árvores quando esteve à frente da Diretoria de Praças e Parques de Curitiba, a convite do então prefeito Jaime Lerner.

“O José Maria soube preservar e manter as espécies que plantamos, como fizemos no projeto da Rua das Flores e de muitos parques [da cidade]. Cabe lembrar a participação dele na beleza dos jardins do Jardim Botânico, além do cuidado e da preservação também daquela área verde nativa. Lembrando também que hoje a Rua das Flores está completando 49 anos… Ele escolheu bem o dia [de partir]. Espero que a família possa assimilar esse momento da melhor maneira”, diz o arquiteto Abrão Assad, outra das figuras marcantes da arquitetura de Curitiba, ao lamentar a perda do colega de profissão.

“José Maria Gandolfi, um dos pioneiros da arquitetura a chegar a Curitiba nos idos da década de 1960, ajudou a formatar a história da arquitetura urbana da nossa cidade. Como diretor do Departamento de Parques e Praças de Curitiba foi um dos responsáveis pela implantação de espaços de preservação que expandiram como uma rede de parques que garantem até hoje o saneamento ambiental e o lazer aos curitibanos”, complementa a equipe do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), em nota de agradecimento a Gandolfi pelos feitos à cidade e à população curitibana.

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A pedido da reportagem, o prefeito Rafael Greca (DEM) também se manifestou. “Margarita e eu lamentamos profundamente a passagem para a Eternidade, aos 88 anos, do arquiteto José Maria Gandolfi, um entusiasta do Meio Ambiente, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, mentor do plantio de 350 mil árvores para Curitiba na gestão do prefeito Jaime Lerner. Gandolfi foi autor dos projetos do prédio do Paraná Previdência, das sedes do Clube Curitibano e do Santa Mônica Clube de Campo, e do Ginásio de Esportes do Círculo Militar do Paraná. Paulistano, de alma italiana, apaixonado por Curitiba, morador de idílica residência no caminho poético entre a Barreirinha e a Cachoeira. Possam os anjos velar seu repouso com cânticos de glória. Seja recebido na Casa do Senhor pelo muito que amou e trabalhou. Sabia cultivar o otimismo como perfume da vida.”

O arquiteto Orlando Busarello, sócio-fundador do escritório Slomp&Busarello, que trabalhou por alguns anos com Gandolfi no escritório Forte Gandolfi e que tinha o arquiteto como um de seus principais mestres da profissão, também lamentou sua morte. “Eu fico impactado com o falecimento do Zé. Ele era muito querido, falante, e uma pessoa importantíssima para a minha formação. Conheci ele desde o tempo de estudante na UFPR, quando eu era estagiário do irmão dele, o Roberto Gandolfi, no final da década de 1960. Depois trabalhei um tempo com ele no escritório Forte Gandolfi”, conta. Para ele, Gandolfi deve ser lembrado como um profissional que ia a fundo no detalhamento, nas questões funcionais, na questão técnica. “Lembro-me que várias vezes a gente viajava para o litoral. E todo sábado ele reunia os amigos e fazia a sua tradicional feijoada. Vinham muitos profissionais e intelectuais. A convivência era saudável, alegre e culta”, finaliza.