Um profissional habituado a lidar com a dor dos outros. O neurocirurgião Sonival Cândido Hunhevicz tinha, entre as suas especialidades, o tratamento de dores crônicas, principalmente em idosos. Isso exige um nível de empatia e de sensibilidade que para Sonival eram naturais, parte de sua personalidade. Como resultado, além de obter mais sucesso nos tratamentos, conquistava o carinho dos pacientes e de suas famílias. O médico que trouxe técnicas pioneiras na área e que foi um dos fundadores do Instituto de Neurologia de Curitiba (INC) faleceu no dia 4 de março, aos 63 anos, vítima de câncer.

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Dentro da neurocirurgia funcional – área dedicada às doenças neurológicas que limitam a funcionalidade, como dores crônicas, epilepsias, distúrbios do movimento, entre outros – um dos principais pontos fortes de Sonival era uma técnica trazida por ele ao INC para tratar e neuralgia do nervo trigêmeo, problema mais comum em pacientes acima dos 50 anos que gera dor intensa ao fazer movimentos rotineiros do rosto, como os desencadeados ao escovar os dentes, mastigar ou falar. A técnica consiste em utilizar um pequeno balão para comprimir o nervo em questão.

Outra demonstração de pioneirismo foi a utilização da neuroendoscopia, que permite entrar com endoscópio dentro do cérebro. “Sem sombra de dúvidas é uma grande perda, de um profissional excelente com todas as qualidades. Fica o espaço vazio de um excelente médico com uma qualidade especial de relacionamento”, comenta o também neurocirurgião e colega na fundação do INC, Murilo Meneses, ao lembrar do tratamento gentil e humano dedicado pelo amigo a pacientes, famílias, médicos, funcionários e residentes.

Sonival Hunhevicz idealizou um centro de neurocirugia

Sonival nasceu em Palmas (PR), mas passou a maior parte da vida entre Curitiba e Araucária. Graduou-se em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) em 1983. Trabalhou no Hospital Erasto Gaertner e no Hospital das Nações. No início dos anos 1990, passou períodos de especialização em cidades da Alemanha. De lá trouxe o sonho, compartilhado por outros colegas neurocirurgiões que viveram temporadas profissionais na Europa, de criar em Curitiba um lugar em que os especialistas na área atuassem em um só local, com equipe, organização e equipamentos como nas experiências que viram além-mar. Desta vontade compartilhada, nasceu o INC.

Ali, Sonival atendia pacientes de outros estados brasileiros e até de fora do país. Era membro da Sociedade Brasileira de Neurologia e da Academia Brasileira de Neurocirurgia. Conseguia transformar o ambiente pesado do hospital em um espaço que também podia ter leveza, brincadeiras e astral mais elevado. Todos os que conviviam com ele são unânimes ao lembrar que ele combinava a seriedade e responsabilidade necessárias ao trabalho com uma animação contagiante.

Esse traço de personalidade foi essencial para que conseguisse enfrentar a doença grave e prolongada que causou seu falecimento. O colega Murilo conta que Sonival se comportou como um verdadeiro guerreiro. “Ele sempre teve muita vontade de viver, enfrentou o câncer de maneira firme”, pontua. No tempo livre, o cirurgião gostava de pescar em grupo em Araucária, município com o qual mantinha laços afetivos fortes, e de confraternizar com amigos e com a esposa, Márcia.