Sirene ligada, arma em punho e o uso de força em casos extremos. Com o lema servir e proteger, o policial é preparado para enfrentar todos os tipos de situações. No entanto, quando encontra uma criança desprotegida, percebe que o atendimento precisa ser mais humano, unindo razão com o coração.

No começo do mês de setembro, a menina Alana, 12 anos, moradora de Colombo, na região de Curitiba, saiu de casa sozinha para comprar um presente de aniversário para a mãe. Ela foi para um bairro de Curitiba, bem distante de casa. Dois policiais militares a encontraram perdida na rua após uma denúncia por telefone. No primeiro contato com a equipe policial, Alana chorava e não queria ajuda: disse que não confiava na polícia.

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A falta de confiança da população em policiais é um trauma emocional que está presente nas casas de muitos brasileiros. Psicólogos alertam para o fato de que os pais podem ser os responsáveis por este tipo de pavor que as crianças têm da polícia e isso pode ser prejudicial para os pequenos.

No caso da Alana, ela encontrou os soldados Ayres da Silva Alves e Yoriel Fernando de Almeida Barros. Depois de contar sua história, a menina foi surpreendida pelos PMs, que não só a levaram pra casa como fizeram uma vaquinha pra comprar o cachorro que ela queria e até conseguiram doações para a família. Ao final, ela disse que estava muito feliz e não esperava tanto carinho.

O menino Pietro Henrique Machado, 6 anos, não só não tem medo como sonha em ser policial. Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná

O medo de Alana não é um caso isolado. A psicóloga Priscila Badotti, 41 anos, especialista em atendimento clínico com crianças, adolescentes e familiares, já prestou auxilio em várias casos como esse. Segundo a especialista, a figura do policial está no imaginário da criança por intermédio de brincadeiras. Mas também por programas policiais, séries na TV e até videogame, e a ação desses exemplos nem sempre é positiva.

“Há muitos casos de crianças que têm receio ou mesmo medo da figura do policial. Quanto mais nova for a criança, maior a chance de os temores aflorarem de forma mais intensa. Um exemplo disso são moradores, incluindo as crianças, de uma cidade ou bairro com maior incidência de crimes”, comenta Priscila.

O policial Ayres da Silva Alves se emocionou com uma das frases ditas pela Alana depois do final feliz daquela ocorrência inusitada. “Ao ouvir de um anjinho como a menina Alana a seguinte frase: ‘Agora eu confio na Policia’, também nos dá motivos para acreditar num mundo melhor. Orgulho de ser Policial Militar, e poder presenciar algo tão especial como isso”, concluiu essa bela história de domingo.

O soldado Ayres contou que é triste ver que algumas pessoas sentem medo da polícia, quando deveriam se sentir protegidas por ela. “Eu particularmente fico muito triste e preocupado em saber que crianças muitas vezes são ‘doutrinadas’ a terem medo da Policia Militar”, lamentou.

Cuidado com as brincadeiras

Desde pequeno ouvimos dos nossos pais que se fizermos algo errado a polícia vai vir e prender. Na cabeça de uma criança este tipo de pressão pode seguir para o lado do medo e não do respeito às regras. “Esse tipo de atitude deve ser evitada, pois é o suficiente para influenciar o imaginário das crianças, gerando medos e até traumas”, alerta a psicóloga.

Foi o que aconteceu com duas pacientes de Priscila. Uma delas, uma criança de 8 anos entrava em pânico só de ouvir o som da sirene de uma viatura. “Ela lembrava o dia em que a polícia foi chamada para que levasse o pai dela após uma briga do casal. Ele presenciou o pai sendo colocado no carro à força pelos policiais”, conta a psicóloga.

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Outra criança de 5 anos tinha medo de policiais e chegava a ter pesadelos recorrentes. “Ela teve o pai morto por uma bala perdida numa troca de tiros entre bandidos e a polícia quando tinha apenas 1 ano e só ouviu as histórias contatas por terceiros”, explica Priscila.

Para que esse trauma da polícia seja evitado, a psicóloga enfatiza que os pais precisam ficar atentos nas atitudes da criança. O medo excessivo causa reações fisiológicas e comportamentais que prejudicam a rotina da criança. Portanto, muita atenção nas palavras, cuidado com os programas na televisão e internet.

“É preciso avaliar caso a caso, estar atento aos sintomas apresentados por cada criança, mas de uma forma geral, é preciso avaliar até onde o medo apresentado é normal ou exagerado e se tem causado sofrimento e algum tipo de prejuízo à criança. Importante que os pais verifiquem sempre a classificação indicativa do que os filhos têm acesso na televisão e internet”, orienta a psicóloga.  

Quero ser policial

Mas também há o outro lado. Em Pinhais, cidade vizinha de Curitiba, há uma casa em que a polícia é muito bem-vinda. Pietro Henrique Machado, 6 anos, sonha em ser policial quando crescer e até já é amigo dos agentes de segurança, sendo sempre convidado pela Polícia Militar (PM) para eventos. Pietro gosta de estar com seus ídolos e tem até uma fardinha própria que ganhou.

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O pai do menino, o motorista de ônibus Mauro Cristiano Machado, 42 anos, acredita que a admiração do filho pela polícia vem do avô, que foi guarda municipal. “Acredito que o Pietro se espelhou no meu pai. A farda de Pietro é completa, foi doada e levamos na costureira para diminuir o tamanho. Ele adora participar de eventos como desfiles e brinca de policial todos os dias com os irmãos”, enfatiza o pai.

“Ele fala que vai ser policial no futuro. Tenho muito orgulho disso e sei que ele vai caminhar para o caminho do bem”, completa o pai.