Moradores da Vila Nova Concórdia II, na Cidade Industrial de Curitiba, bloquearam por quase duas horas o quilômetro 595 do Contorno Sul, a BR-376, na tarde desta terça-feira (19). O motivo da manifestação é uma ordem de despejo que eles têm e que devem sair na manhã desta quarta-feira (20).

Segundo a moradora Roselei dos Santos, de 42 anos, pelo menos 150 famílias terão de sair da vila e não têm para onde ir. ‘O motivo da ordem de despejo é o de que o local seria um lixão. Realmente foi, no passado, mas nós já moramos há um bom tempo e nunca tivemos problema nenhum. Nosso advogado, por sinal, sequer encontrou informações que comprovem que isso existe‘, disse.

A intenção dos manifestantes é pressionar a empresa dona do terreno a assinar um acordo que permitiria que continuassem morando no local. ‘Ou, no mínimo, um novo laudo que nos comprove que o terreno não tem condições de abrigar a gente. Mas aí também teríamos que ter uma garantia de um local para nos mudarmos‘, defendeu um dos moradores.

Depois de um período de negociação, o Contorno Sul foi liberado. O congestionamento registrado foi de pouco mais de quatro quilômetros em cada sentido. ‘Mas nós prometemos voltar, porque é a nossa vida que está em jogo‘, alertou Elaine Mathias, de 21 anos.

Sem respostas

Filha de Marivaldo vende balas no semáforo.
Foto: Lineu Filho.

‘Nós fomos atrás da prefeitura e não houve acordo, nos disseram que dependem da dona do terreno. Já a empresa que responde pelo terreno sequer atendeu aos telefonemas e não nos recebeu. Se sairmos daqui, nós ficaremos literalmente na rua‘, contou Marivaldo Rosa de Lara, de 48 anos, que vive na ocupação há seis meses com esposa, dois filhos e uma neta.

A filha de Marivaldo, que tem 20 anos, enquanto o pai e a mãe tentam buscar por algum bico, vende balas em semáforos. ‘Nós não temos renda. Eu, por ter sofrido um acidente com descarga elétrica, não dou conta de trabalhar, só faço bico. Minha mulher não encontra emprego. A situação tá complicada‘.

Desespero é geral

Na vila, moram famílias há pelo menos cinco anos. ‘Tem gente aqui que mora há meses, um ano, isso varia, mas todos que vieram pra cá, foi porque precisam. Não somos bandidos e muitos de nós trabalham. Essa justificativa de que o terreno seja um lixão não cola‘, desabafou o homem.

Segundo os moradores, com a crise, muitas pessoas que foram demitidas acabaram pegando a família e se mudaram para a vila. ‘Eu pagava aluguel com minha esposa, filhos e netos, mas nos vimos obrigados a vir pra cá. Meu salário não dá conta nem de aluguel, muito menos para pagar a comida‘, disse Ataíde Simões, de 70 anos.

Ataíde dá conta da família toda. Foto: Lineu Filho.

O idoso, que vive com seis netos, três filhas e um genro, perdeu a esposa há um mês. ‘Completou ontem. Era ela quem me ajudava muito. Não tive nem como pensar na perda, sentir o luto, porque já veio esse turbilhão de coisas junto. Pra onde vou com todas essas crianças?‘, desabafou Ataíde.

O homem, que hoje sustenta toda a família, contou ainda à reportagem da Tribuna do Paraná que recebeu uma proposta da Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab). ‘Indecente. Me disseram que se tivéssemos que sair da vila, eles até conseguiriam arrumar um lugar para ficarmos, mas teríamos de nos separar. Minhas filhas ficariam em um lugar, as, crianças em outro e eu separado de todo mundo. Como isso?‘.

A história de Adonir de Santana Lopes, de 51 anos, é forte e muito parecida com a de outras famílias que vivem na vila. Sozinho, o homem cuida da esposa e de dois filhos deficientes. ‘É uma luta diária. Não tenho como deixá-los sozinhos, por isso, não posso trabalhar e me vi obrigado a mudar pra cá‘.

Adonir cuida de três familiares deficientes.
Foto: Lineu Filho.

A esposa de Adonir e um dos filhos têm esquizofrenia. Já o outro filho foi considerado com demência parcial. ‘Eles dependem de mim 24 horas por dia. Do remédio a comida, o banho. Desde quando viemos pra cá, vamos vivendo. Mas renda, não temos. Passamos dificuldade mesmo‘, desabafou o homem.

Risco a saúde

A Prefeitura de Curitiba informou, através da assessoria de imprensa, que a ocupação em questão fica na área de um antigo aterro sanitário, conhecido como “lixão da Vila Barigui” ­ e, portanto, a permanência no local representa risco para a saúde e a integridade física das pessoas, dado o alto grau de contaminação, inclusive por lixo hospitalar.

Desde o início da ocupação, em março deste ano, a Curitiba S.A., empresa de economia mista proprietária da área, vem fazendo tentativas amigáveis de desocupação. Diante da resistência dos moradores e do risco que a ocupação representa para eles, a empresa recorreu à Justiça pedindo a reintegração de posse, que foi concedida pela juíza Patrícia de Almeida Gomes Bergonse, da 5ª Vara da Fazenda Pública de Curitiba. Na decisão, a juíza afirma que é “evidente que a própria ocupação coloca em risco a saúde dos ocupantes, diante do alto nível de contaminação do local”. O prazo de 10 dias para a desocupação voluntária do local não foi cumprido, mas não há data agendada para o cumprimento da ordem judicial de reintegração.

A Prefeitura mantém diálogo com as famílias da ocupação por meio da Administração Regional da CIC e da Cohab, que já iniciou o cadastramento no local. Após o levantamento dos dados de todas as famílias, a Cohab verificará a situação de cada uma e a possibilidade de inclusão no programa habitacional do Município.

Lineu Filho
Fila de veículos na região do protesto é de quase 10 km. Foto: Lineu Filho.

Sem retorno

“Nós fomos atrás da prefeitura e não houve acordo, nos disseram que dependem da dona do terreno. Já a empresa que responde pelo terreno sequer atendeu aos telefonemas e não nos recebeu. Se sairmos daqui, nós ficaremos literalmente na rua”, contou Marivaldo Rosa de Lara, de 48 anos, que vive na ocupação há seis meses com esposa, dois filhos e uma neta.
A filha de Marivaldo, que tem 20 anos, enquanto o pai e a mãe tentam buscar por algum bico, vende balas em semáforos. “Nós não temos renda. Eu, por ter sofrido um acidente com descarga elétrica, não dou conta de trabalhar, só faço bico. Minha mulher não encontra emprego. A situação tá complicada”.