A volta às aulas do Ensino Fundamental e Médio em 2021 já tem planejamento da Secretaria de Educação do Paraná (Seed), mas ainda será um desafio por causa da pandemia de coronavírus (covid-19). O ensino híbrido deve prevalecer, pelo menos enquanto a vacina não estiver disponível, e o rodízio das turmas presenciais que estarão em sala de aula também. Escolas particulares de Curitiba, por outro lado, contam com um decreto municipal que permitiu a reabertura presencial em 2020.

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Com o aumento de casos de covid-19 em Curitiba e em todo o Paraná neste final de ano, além da grade curricular, os protocolos sanitários e as recomendações de especialistas da saúde para conter o contágio da doença deverão ser ponto chave para a reabertura das instituições de ensino, tanto as públicas quanto as particulares.

Professor universitário e pai de um casal, um menino de 8 anos e uma menina com 4 anos, Angelo Valles Sá Mazzarotto, 44 anos, diz que vai mandar os filhos para a escola. Mazzarotto atua na área da educação à distância em Curitiba e tem ressalvas nesse tipo de formato para as crianças. Para ele, 2020 foi um ano perdido para a educação infantil. “Na universidade funciona bem, já é uma realidade. Mas para as crianças, o que se viu foi uma tentativa precária de passar conteúdo pela internet”, reclamou.

O professor também entende que as crianças precisam da escola, dos relacionamentos com os colegas, das atividades motoras, interação. “O aprendizado delas não é só conteúdo. Claro que algumas coisas on-line podem ser mantidas, as crianças devem se preparar para o futuro, mas com planejamento”, apontou.

Para o professor, as crianças precisam da escola, dos relacionamentos com os colegas, das atividades motoras, da interação. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná.

Ainda de acordo com o pai, tomando os cuidados adequados, não há motivo para manter os filhos em casa o tempo todo. “As empresas e o comércio estão trabalhando. As pessoas saem de casa, minha esposa sai de casa para trabalhar, eu estou ansioso para deixar o trabalho remoto. Sou a favor da volta às aulas presenciais, com os protocolos sanitários. Por isso, meus filhos irão para a escola”, finaliza Mazzarotto.

As escolas particulares de Curitiba contam com um decreto municipal que permitiu a reabertura presencial em 2020 para receber alunos de até 10 anos de idade. Uma pesquisa do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Estado do Paraná (Sinepe), realizada de 25 de novembro a 1.º de dezembro, aponta que 81,5% dessas instituições já retornaram com suas atividades presenciais. A pesquisa contou com a participação de mais de 170 instituições de ensino associadas, localizadas em 55 municípios do estado – o Paraná tem cerca de 500 escolas privadas. 

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Segundo o levantamento, em 31,8% dessas escolas, a adesão dos estudantes foi superior a 40%. De acordo com o presidente do Sinepe/PR, Douglas Oliani, as escolas que participaram da pesquisa estão seguindo todos os protocolos de saúde e têm suas características em relação ao espaço físico. “A possibilidade de retorno presencial é realizada na forma gradual, e, para isso, as escolas tiveram salas de aula e demais espaços redimensionados para garantir os distanciamentos necessários”, frisa. “As escolas têm oferecido, às famílias que assim desejem, a possibilidade de seguir com as aulas no formato online”, reforça.

Para o ano que vem, esse sistema deve continuar. Oliani entende que, independente da pandemia, o convívio escolar é importante. “Não há dúvidas de que as crianças aprendem melhor na escola, trata-se do espaço onde eles desenvolvem valores sociais. Certamente esses oito meses longe das salas já trouxeram um grande impacto na educação de todos”, comenta. 

Ele também prevê que a reposição de conteúdo será necessária. “O déficit na aprendizagem terá que ser superado com reforço escolar. O Sinepe vai trabalhar muito na formação de professores e gestores no próximo ano, para trazer um olhar para as escolas sobre a nova realidade e sobre a necessidade de capacitação para enfrentar os desafios”, aponta. “Há diferenças. Cada escola, cada pedagogo e coordenador pedagógico têm o seu olhar para avaliar a progressão dos alunos. A orientação é que se faça uma avaliação para ver o que está acontecendo. E a família em casa terá o seu papel. Tudo é importante agora, não dá pra segregar os setores”, destaca Oliani.

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Sobre o retorno para a sala de aula com a segurança sanitária para evitar casos de coronavírus, o professor Emanuel Maltempi de Souza, do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da UFPR e presidente da comissão de prevenção ao coronavírus na universidade, diz que os gestores devem levar em consideração três fatores: distanciamento social, uma vez que a doença se transmite de pessoa para pessoa, o uso de máscara e optar pelos espaços abertos. Com essas medidas em conjunto, Maltempi acha que é possível manter as aulas presenciais com menos risco de contaminação, até para crianças menores. “Cerca de 95% ou mais dos pesquisadores sérios apontam que o uso da máscara surte efeito contra a transmissão da doença. Com esses fatores juntos, a possibilidade de transmissão é muito pequena”, explica Maltempi.

No entanto, para o professor, a dificuldade é justamente equilibrar essas medidas. “Seria pensar em aumentar as turmas, aumentar professores, modificações físicas nas salas, mas isso não está sendo feito”, ressalta Maltempi. Outros pontos seriam as modificações no dia a dia, como controlar o número de pessoas dentro da escola, controlar os alunos para usarem a máscara, afastar a pessoa que tem sintomas, fazer testagem da doença em larga escala e afastar professores e funcionários dos grupos de risco.

Com a vacinação, destaca Emanuel Maltempi, a segurança será maior. “O problema é que a previsão da vacina é para o ano que vem. O Brasil deve se atrasar em relação a outros países. Se o grupo de risco fosse vacinado em janeiro, por exemplo, existiria mais confiança das pessoas para a volta às aulas“.

Como ficam as escolas públicas

Segundo a Seed, um esquema de reforço na aprendizagem para alunos que avançaram de série está planejado para o contraturno, para suprir um possível déficit de conteúdo, uma vez que o ano letivo de 2020 foi baseado no ensino remoto, pela internet e televisão.

Segundo Roni Miranda Vieira, diretor de Educação da Seed, o pessoal responsável pelo planejamento está com os esforços redobrados para organizar o esquema das aulas para 2021. Na rede estadual são mais de 2 mil escolas e Miranda explica que as decisões da Educação são em conjunto com a Secretaria Estadual de Saúde (Seed). “Neste momento, nós temos um olhar específico para a pandemia. A vacina é aguardada com ansiedade e a perspectiva do avanço da covid-19 ainda é incerta. Por isso, o ano que vem está sendo planejado em um sistema de aula híbrida, com um grupo de alunos no presencial e outro grupo a distância”, ressalta Miranda. 

Mas, ainda de acordo com o diretor, embora haja um planejamento prévio, somente em janeiro de 2021, em conjunto com a Sesa, é que a decisão final será tomada. “Vamos aguardar”, diz. Enquanto isso, o que já está definido e logo será oficializado pela Seed é o período de encerramento do ano letivo de 2020, que vai até 18 de dezembro, e um período de férias escolares de 60 dias. “O retorno é só em 18 de fevereiro. Teremos esse prazo para nos organizar. Vamos investir pesado em infraestrutura para garantir que os alunos não sejam prejudicados em seu aprendizado”, aponta.

Miranda se refere ao objetivo do governo estadual em preparar novos espaços para receber alunos no contra turno. “Os estudantes que participaram do sistema de ensino remoto e foram promovidos de série podem apresentar dificuldade no ano que vem. A orientação é que as escolas mapeiem esses alunos e que eles possam receber o reforço, já que em 2020 a grade curricular foi básica e, em 2021, ela será mais intensa. Para isso, vamos criar mais salas de aprendizagem e de resolução de problemas”.