As primeiras doses da vacina contra o novo coronavírus, e para algumas pessoas até mesmo as segundas doses, já chegaram nas instituições de longa permanência para idosos (ILPIs), como os asilos de Curitiba. A aplicação deu ânimo para as pessoas que estão fechadas nos lares sem a possibilidade de receber a visita de parentes, amigos ou mesmo da comunidade. São mais de onze meses sem sair para a rua e a consequência deste isolamento pode resultar até em depressão.

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Essa situação de ficar somente em casa incomoda, pois a liberdade ficou comprometida. As pessoas que não estão em asilos podem deixar suas residências, desde que tomem os cuidados necessários para não sejam infectadas, com o uso de máscara de proteção e do álcool gel, barreiras importantes para evitar o vírus. Já os idosos que residem nas instituições não podem passar para o lado de fora sem que estejam imunizados, o que só acontece após a segunda dose da vacina. A contaminação de um destes idosos pode ser fatal, tanto para o infectado, como para os outros residentes dos lares.

Emocional na terceira idade

Segundo a legislação brasileira, a terceira idade compreende a faixa das pessoas com 60 anos ou mais. Nesse período, grandes transformações ocorrem na vida do indivíduo, o que inclui mudanças físicas, doenças, aposentadoria, afastamento ou perda de pessoas queridas, além de uma redução da independência e autonomia de modo geral.

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Recentemente, um grupo de pesquisadores da Universidade de York, do Reino Unido, divulgou um estudo indicando que a solidão e o isolamento social podem aumentar o risco de doenças cardíacas em 29% e o de acidentes vasculares em até 32%. No caso dos idosos, a hipertensão, os níveis de colesterol e o agravamento de quadros depressivos podem ser potencializados pela sensação de isolamento e solidão.

Lis Giocondo, é administradora do Lar Iracy que fica no bairro Xaxim, em Curitiba. Atualmente, a casa está com 26 idosas e percebeu que durante a pandemia que o comportamento dos idosos foi se alterando com o passar dos dias. Tristeza, irritação, brigas e revoltas começaram a surgir com mais intensidade no cotidiano.

“Nós somos muito atuantes e estamos atentos a tudo. A pandemia trouxe a tristeza para aqueles que recebiam a visita e outros nem tanto, pois já não tinham a presença do familiar. A gente notou a mudança no comportamento, pois ficaram mais irritadas, o desentendimento entre elas acabou aumentando e muita reclamação por não ter com quem conversar. Elas ficaram mais agitadas”, comentou Lis.

“Quero abraçar meu filho”

Sebastiana Leite Cavalcanti, 75 anos, mora há seis anos no Lar Iracy. Ativa e comunicativa, foi cantora e fez parte de bandas de forró pelo Brasil. Era conhecida como a “Pimentinha do Forró”, mas a idade foi avançando e abandonou o microfone.

Pandemia muda vida e rotina em asilos de Curitiba
Sebastiana Leite Cavalcanti, cantora de 75 anos que é conhecida como a “Pimentinha do Forró”. Foto: Colaboração

Com a pandemia do novo coronavírus, Sebastiana ficou distante dos dois filhos e a tranquilidade foi para o espaço. Eu sou uma pessoa calma, mas sem ter a possibilidade de sair um pouco, (isso) deixou a gente mais irritada e tem dia que não aguento mais ouvir a turma aqui. Ficar afastada da família e amigos deixou a gente muito triste, mas agora com a vacina, ganhamos ânimo”, afirmou a idosa.

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Questionada sobre o que deseja fazer quando tiver a chance de deixar o portão do lar, a “pimentinha do forró” não pensou duas vezes e lembrou da família. “A primeira cosia que quero fazer é ir para São Paulo para abraçar o meu filho. Quero ir para o Mato Grosso e ninguém vai me segurar. A pandemia valorizou o abraço que ninguém dava valor e estou sentindo falta”, completou Sebastiana que recebe todos os domingos a visita da filha Joselita, pelo portão do Lar Iracy.

Chamadas de vídeo e atividades ao ar livre

No asilo São Vicente de Paulo, no bairro Juvevê, 150 senhoras residem em um espaço com jardins, salão de beleza e atividades ao ar livre. Apesar de possuir uma grande estrutura, o distanciamento social acabou proporcionando o aumento da ansiedade nas vovós. A gestora Inês Barbosa, acredita que os 200 colaboradores do asilo foram fundamentais no período da pandemia.

“Temos uma equipe que trabalha 24 horas por dia e percebemos a ansiedade, agitação e até tristeza. No entanto, os nossos psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, médicos e equipe de enfermagem notaram que algumas atividades iriam amenizar o impacto da solidão. Desde o dia 13 de março estamos fechados para voluntários, famílias e amigos. Tivemos exceções, em casos de idosas que passaram mal e a família veio fazer a visita. Tivemos até a recuperação delas usando toda uma proteção”, ressaltou Inês.

Veja fotos das atividades no asilo São Vicente de Paulo

As atividades no asilo como artesanato, pintura e jardinagem ajudaram a minimizar a baixo astral das vovós. Daniela Pisoni, psicóloga do São Vicente de Paulo, reforçou a ideia dos profissionais de saúde, de estimular o lado cognitivo das pessoas com a ativação principalmente da memória. “A gente desenvolveu várias atividades desde grupo terapêutico, artesanato, oficinas gourmet, pintura e notamos que a ansiedade diminuía. A ideia foi estimular a cognição, ou seja, a memória para manter os vínculos e melhorar a qualidade de vida. No entanto, nada substitui a presença física”, complementou a psicóloga.

Outra ação que os asilos adotaram foi a uso da tecnologia. A chamada por vídeo nos aparelhos celulares acabou aproximando parentes. Em alguns casos, até mesmo pessoas de fora de Curitiba acabaram entrando em contato com os idosos para conversar, algo que não acontecia antes da pandemia.

Para a assistente social do São Vicente, Noemi Ferreira, as relações foram até resgatadas com estas chamadas de vídeo. “Realizamos três vezes por semana e eventualmente nos aniversários. A ideia foi estreitar os laços e até resgatar o contato. Muitos familiares de longe voltaram a estar com elas e foi muito importante para esse período de pandemia”, apontou Noemi.