No último ano as porções servidas na cozinha de Maria Nilceria Nogueira, 47, ficaram modestas. Uma panelinha de arroz, outra de feijão, alguns filés… o suficiente para a refeição da família. Acostumada a cozinhar para um batalhão, a merendeira não reclama. Mas confessa sentir falta da rotina por trás dos tachos da cozinha do Colégio Estadual Avelino Antônio Vieira, no bairro Fazendinha, em Curitiba. Desde o decreto do isolamento social estabelecido pelo Governo do Estado como forma de prevenção da covid, a merendeira que trabalha há 22 anos cozinhando para os estudantes, afirma, em um papo com a Tribuna do Paraná, que, apesar das saudades, ainda não se sentia segura para retornar às atividades até que saísse sua dose da vacina.

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Vinte quilos de feijão, vinte e cinco de arroz, outros tantos de carne e salada. Por período, eram essas as quantidades que Nilceria estava acostumada a servir antes da pandemia. “Parece muito né? Mas quando a fila começa a se formar no balcão da cantina a gente sabe que acaba rapidinho”, relembra a merendeira. “Ainda mais quando é arroz, feijão, carne e salada. Todo mundo acha que a criançada só quer saber de batata frita mas o bom e velho arroz com feijão é, de longe, a refeição favorita da turma”, diz. Saudosa dos dias movimentados à frente da cantina da escola que atende alunos do ensino infantil ao médio, Nilceria ri ao lembrar-se do alvoroço na hora das refeições. “Eles vêm correndo, se atropelando, se empurrando na fila. Quando a gente demora muito pra subir a grade, eles vem bater pedindo: ‘tia, abre a porta! tô com fome’ “, recorda.

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Dividindo o tempo entre os afazeres de casa e o cuidado com os netos de 5 e 9 anos, Nilceria conta que a adaptação ao isolamento foi difícil, e que a distância dos estudantes a fez perceber a influência que a profissão exerce em sua vida doméstica. “Às vezes meus netos ficam de frescura para comer um alimento ou outro. Aí eu faço com eles igualzinho eu faço no colégio. Pergunto: ‘você experimentou’? E coloco um pouquinho no prato para que eles desenvolvam o paladar à comida. Servindo na escola eu aprendi que basta ensinar. As crianças aprendem e começam a comer bem por conta própria depois de um tempo”, revela.

A lição, segundo Nilceria, marca pra vida de muitos estudantes. “Em 22 anos de escola, muitos alunos já se formaram e foram embora. Mesmo assim, quando me encontram na rua alguns ainda vem me cumprimentar com saudades. No fim das contas arrisco dizer que como ‘tia da cantina’ a gente marca a vida deles quase tanto quanto os professores “, afirma. Sobre a expectativa de retornar às atividades, a merdendeira afirma estar dividida. “Sinto muita falta do meu trabalho, do convívio na escola. Mas enquanto a vacina não sair, acho que não vou estar cem por cento segura”, diz.

No Paraná, cerca de 5 mil merendeiras da rede estadual foram afastadas de suas rotinas na pandemia. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

A insegurança não é exclusiva de Nilceria. No Paraná, cerca de 5 mil merendeiras da rede estadual compartilham do mesmo sentimento e, afastadas de suas rotinas, têm suas vidas fortemente impactadas pela pandemia, adaptando-se aos novos desafios da profissão. Em algumas escolas, por exemplo, as merendeiras têm sido responsáveis pela distribuição de alimentos às famílias de alunos cadastrados no Bolsa Família. Em outras, a “nova função” demanda a preparação e higienização de kits de alimentação e materiais para envio aos alunos no ensino remoto.

Na última segunda-feira (7) mais 100 escolas voltaram a ter aulas presenciais. Destas, 23 ficam na região metropolitana de Curitiba. Estas novas escolas com aulas presenciais se unem às outras 200 escolas que deram início às aulas presenciais há cerca de um mês.

Muito mais do que “encher a barriga”

A merendeira do Colégio Estadual Silveira da Motta, Maria Assunta de Godoi, de 67 anos estava há vinte e oito anos no comando da cantina do colégio, tempo mais que suficiente para colecionar boas memórias junto aos alunos. Para ela, o ofício de servir o alimento está muito mais ligado ao vínculo emocional que se cria com os estudantes do que o simples “encher barriga”.

“Sinto como se formássemos uma família. Começando pela equipe da cozinha que separa tudo e prepara com tanto amor, até os próprios estudantes que, não raras vezes, comem melhor na escola que em casa”, revela. Segundo Assunta, histórias de estudantes cuja única refeição era a merenda, foram as que mais marcaram sua vida profissional.

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“Tinha uma aluna que chegava para estudar e vinha direto na cozinha ver se tinha algo pra comer. Ela vinha escondida, sozinha e fora do horário da refeição. A gente sempre arranjava alguma coisa. Depois, quando batia o sinal pro recreio, ela vinha novamente fingindo que aquela seria sua primeira refeição e comia de novo, junto com os colegas”, relembra. Assunta conta que, depois de um tempo, a família da garota foi procurada. “Nós descobrimos que ela trabalhava o dia todo sem comer nada pois a família era muito carente. Quando chegava pra estudar, no fim do dia, ela estava verde de fome. A merenda era tudo que aquela menina tinha pra comer”, relata.

Experiência semelhante à de Nilceria, que revela já ter até mesmo lavado o uniforme de alunos cujos pais não cuidavam da higiene. “Já cheguei a emprestar camiseta do uniforme no almoxarifado da escola e lavar roupa de aluno de tão sujos que eles apareciam na aula. Partia meu coração ver coisas assim”, afirma. São motivos como esses que tornam ainda maior o anseio dessas profissionais pela vacinação e pelo retorno à rotina. “Nos sentimos responsáveis por esses crianças, quase como se fossem da nossa família. É difícil estar longe”, afirma Assunta.

Carinho, afeto, atenção, comida boa. Não é sem razão que “as tias da cantina” alcançam tamanho espaço na memória e no coração dos estudantes. E se realmente “não existe amor mais sincero do que pela comida”, como dizia o dramaturgo irlandês Bernard Shaw, tão mais sincero é o amor por aquelas que a preparam, tendo como ingrediente de cada refeição um único item principal: o amor.