Há muito tempo, o ser humano instituiu arbitrariamente o calendário, que já teve diversos formatos até chegar ao atual. Assim, dia 31 de dezembro marca o fim de um ano e o início de um novo em que se planejam coisas novas. O ser humano gosta de rotinas, ritmos e rituais e isso nos coloca em uma dimensão universal.

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Lidia Dobrianskyj Weber é psicóloga (CRP 0774), palestrante, professora e pesquisadora da UFPR, autora de 13 livros, entre eles, “Família e Desenvolvimento” (Juruá).

Estabelecem que é preciso fazer uma lista de “resoluções”de Ano Novo e pretendem grandes mudanças. As pessoas fazem listas enormes achando bobamente (ou ingenuamente?) que, só porque o ano muda, as coisas vão começar a acontecer magicamente.

Emagrecer, parar de fumar, fazer um curso novo, praticar um esporte, não ser tão ciumento, passar mais tempo brincando com os filhos, viajar para as Ilhas Fiji…

Poucos são os que conseguem seguir suas resoluções. Em verdade, parece que ao fazer a lista de resoluções na passagem do ano as pessoas precisam de uma razão extrema, quase uma desculpa para reinventar uma nova versão de si mesmas.

Como se fosse preciso uma fator externo poderoso como o início de um novo ano, ou superstições como pular ondinhas, comer romãs e lentilhas para o nosso desejo de mudar. Mudar o comportamento não é fácil.

Somente pular ondinhas ou somente o desejo não é suficiente para mudar. Muitas vezes precisamos alterar contingências ao nosso redor e buscar novas fontes de alegrias e recompensas. E nem precisamos esperar a mudança do calendário para fazer isso.

No entanto, mudar é possível se fizermos parte integral e consciente dessa mudança. É preciso, ainda, ser um pouco realista em seu sonho. Dividir grandes projetos em partes e compartilhá-los com mais pessoas tem sido um bom caminho para conseguir modificações duradouras.

Por exemplo, desejar perder 15kg em 2 meses não é realista. Decidir cortar os doces em dias de semana e avisar a família e os amigos, além de matricular-se em uma academia de ginástica (e freqüentá-la) são resoluções mais fáceis de seguir e, portanto, de realizar. Ao finalizar pequenas etapas, uma semana sem doces, por exemplo, dê a si mesmo uma recompensa.

Ir ao cinema pode ser um bom prêmio para essa etapa e não necessariamente comprar uma torta inteira recheada de chantilly, chocolate e doce-de-leite!

De qualquer forma, esse ritual de passagem de ano é poderoso e bonito. Embora existam fusos horários diferentes no mundo, fazemos parte de uma comunidade de sete bilhões de seres humanos que, juntos, têm a esperança de que a realidade do mundo fique melhor.

Sim, como as misses, gostaríamos de paz universal, de igualdade e justiça, de maior aceitação com o diferente, de mais amizade, generosidade e afeto nas relações interpessoais. Não existe magia que faça acontecer tudo de uma só vez e não adianta ficar esperando que outros se encarreguem.

Você faz parte. Tanto algo mais ou menos simples como começar a fazer ginástica regularmente, como muito mais difícil como a paz no mundo, cada um de nós tem responsabilidade com esse Universo e pode ajudar um pouquinho que seja. Às vezes militar por uma causa é essencial.

Às vezes pequenos gestos para ajudar o outro e palavras gentis podem fazer florescer o dia de alguém. Podemos começar com a paz na família, com os amigos, a bondade com desconhecidos, vivendo o Ano Novo com coragem, envolvimento e ternura.

Todos dizem que foi um ano difícil, mas estamos vivos, então que tal lembrar das coisas boas e ter gratidão? A palavra final deixo para o poeta Carlos Drummond de Andrade:

“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre”.