A confusão no fim do protesto contra o racismo e o presidente Jair Bolsonaro na noite de segunda-feira (1) na região central e no bairro Centro Cívico, em Curitiba, ligou o alerta nas polícias Militar e Civil preocupadas com futuros manifestações. Na manhã desta terça-feira (2), enquanto a bandeira do Brasil que foi queimada no protesto era trocada na parte de fora do Palácio Iguaçu, do lado de dentro o governador Ratinho Jr se reuniu com a cúpula da segurança pública para avaliar a situação.

A ordem a partir de agora é não dar moleza aos manifestantes que praticarem atos de vandalismo ou qualquer outro tipo de crime. Na noite de segunda, sete pessoas foram presas e um adolescente apreendido. O menor foi liberado, mas os sete adultos seguem presos. A PM também encontrou no local miguelitos, peças pontiagudas usadas para furar pneus de viaturas. A investigação está com o Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), grupo de elite de investigação da Polícia Civil, que também está monitorando outros grupos, assim como o Serviço de Inteligência da PM.

O primeiro grande teste já está marcado para o próximo domingo (7), quando está programado um ato de um grupo de esquerda das 14h até às 18h na Praça Santos Andrade, o mesmo endereço no Centro onde começou o protesto de segunda-feira. A promessa é de reforço no efetivo da PM para acompanhar a manifestação. Antes, a Polícia Militar acompanha no fim da tarde desta terça um protesto de lutadores de artes marciais que pretendem fazer um hasteamento simbólico da bandeira nacional no Centro Cívico.

Nesta terça-feira (2), os organizadores da manifestação do ato Contra o Racismo em Curitiba enviaram uma nota lamentando as ações de vandalismo. Segundo a organizações, os manifestantes protestaram de forma ordeira durante todo o evento. Confira a nota na íntegra ao fim da reportagem.

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Em entrevista à Tribuna do Paraná logo após a reunião no Palácio Iguaçu, o comandante do policiamento na capital, coronel Hudson Leôncio Teixeira,disse que a inteligência das policias estão monitorando os grupos que promovem protestos e que a PM está preparada para agir se for necessário. “Algumas pessoas usam o protesto como escudo ou muleta para promover a desordem”, revela o coronel.  “A PM está preparada para dar segurança para aqueles que não forem participar de qualquer manifestação e também aqueles que estarão nesses atos”, garante o comandante do policiamento na capital. Veja a entrevista.

Tribuna – Como foi a reunião com o governador Ratinho Junior e o que foi conversado?

Coronel Hudson Leôncio Teixeira – Demos o retorno ao governador e ao secretário de segurança pública do Paraná do que aconteceu na noite de segunda-feira e estratégias de como proceder na sequencia.

Coronel Hudson Leôncio Teixeira, comandante do policiamento da capital, vai reforçar o efetivo em protestos. Foto: AEN

O clima desta reunião foi pesado? Quem aprontar nas ruas vai ser reprimido?

A reunião foi tranquila, dentro do esperado. Quanto aos incidentes de segunda, fizemos todo o patrulhamento. A nossa intervenção veio após alguns se manifestarem de maneira violenta, com dano ao patrimônio público e privado. Teve até brigas entre eles mesmos.

A PM está preparada para dar segurança para aqueles que não forem participar de qualquer manifestação e também aqueles que estarão nesses atos. Se por ventura, houver excesso, estas pessoas serão responsabilizadas de imediato. Já aqueles que estão promovendo isso nas redes sociais também estão sendo identificadas.

Quem esteve por trás deste vandalismo vai ser punido?

Tudo é muito polêmico e contraditório. Algumas pessoas usam o ato como escudo ou muleta para promover a desordem. A princípio, seriam da esquerda, mas estamos vendo se existe alguma veiculação política, se tem antifascismo ou se são black blocs. Estamos identificando pelo setor de inteligência do estado e lideranças serão chamadas para ser responsabilizadas.  Existe uma mistura de grupos que não são muito organizados.  

A bandeira do Brasil queimada foi o ápice da desordem da manifestação?

Isto causa um desconforto enorme para nós policiais militares, mas não foi este o principal motivo que levou a nossa atuação mais pontual. Foi uma afronta ao país e ao Paraná.

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Está programado para esta terça-feira uma manifestação de pessoas ligadas às artes marciais que irão seguir do shopping Mueller até o Palácio Iguaçu. A ideia é fazer um hasteamento simbólico uma nova bandeira do Brasil. A PM vai acompanhar essa manifestação?

Daremos toda segurança para as pessoas, pois tem todo o trânsito também. A nossa expectativa é de que ocorra tudo dentro da normalidade. Mas estaremos preparados para qualquer evento negativo.

Já no domingo (7) está marcado um protesto de movimento de esquerda. Como vai ser o planejamento?

Nosso planejamento é pautado na avaliação de risco, como aconteceu ontem [foram convocados 200 policiais para acompanhar a manifestação]. Para domingo, a nossa inteligência já está em campo para avaliar o número de pessoas que estarão na manifestação, mas posso garantir que o efetivo será maior para evitar qualquer surpresa ou desconforto para a sociedade

Outra grande preocupação é com a transmissão do coronavírus nessas manifestações. Como fazer este trabalho sendo que as pessoas estão aglomeradas, muitas podem estar sem máscaras?

É complicado para todo mundo. A manifestação legitima é aceitável, mas agora neste período de pandemia existe até decreto para que não ocorra aglomeração. Quem participa está expondo a si mesmo e os policiais militares que estão trabalhando. É claro que quem organiza esse tipo de ação também é responsável por isso. Não se pode ter concentração de mais de 50 pessoas em eventos planejados. Essas pessoas estão convocando a maior participação em algo proibido pela situação da pandemia.

Outro lado

“A organização do ato CONTRA O RACISMO EM CURITIBA vem a público manifestar que, diferentemente do vinculado nas redes sociais e na imprensa, os manifestantes, além de utilizar proteção para evitar a propagação da epidemia de COVID-19, comportaram-se de maneira ordeira, em defesa da democracia e contra o racismo.

O ato foi um sucesso. Reuniu muitas pessoas, teve uma atmosfera esperançosa por dias melhores.

Nossa luta é por igualdade, contra o racismo, a violência contra jovens negros nas periferias, a proliferação de grupos que propagam o ódio e o genocidio de brasileiros promovido pela falta de uma política clara de saúde durante esta pandemia.

Infelizmente, no final do ato, em uma dispersão de alguns poucos, houve vandalismo contra o patrimônio público. O que, ao nosso ver, é muito estranho e suspeito e representa a presença organizada de infiltrados que desejam a criminalização do movimento.

O uso de força excessiva por parte da polícia demonstra também a incapacidade de diálogo e a opção pela agressão.

Conclamamos a união de curitibanos de forma individual ou através dos movimentos sociais para a defesa da democracia contra o racismo”.

Assinam esta nota:

Movimento Feminista de Mulheres Negras
Bando Cultural Favelados da Rocinha FAVELA
União da Comunidade dos Estudantes e Profissionais Haitianos ( UCEPH)
J23 – Juventude do Cidadania
Rede nenhuma Vida a Menos
Apoio do Grupo Dignidade e da Aliança Nacional LGBTI+
Coletivo Enedina da UTFPR


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