A morte do engenheiro de minas Eduardo Antonio, 43 anos, atropelado sábado (8) enquanto pedalava na BR-277 próximo à Academia Policial do Guatupê, em São José dos Pinhais, reacende o debate sobre a segurança de ciclistas em Curitiba e região. Atingido por um Corsa guiado por um motorista flagrado no exame de bafômetro, Eduardo foi enterrado segunda-feira (10), em São Paulo, como a 26.ª vítima fatal de acidentes nas estradas do Paraná envolvendo ciclistas neste ano.

A Polícia Rodoviária Federal (PRF) registrou esse ano 173 acidentes no estado envolvendo ciclistas nas rodovias sob sua jurisdição, o que ocasionou 150 feridos e 19 mortos. Já a Polícia Rodoviária Estadual (PRE) registrou 59 acidentes, com 48 feridos e 7 mortos.

Quadro que assusta os ciclistas, que decidiram na noite de segunda-feira, em reunião na Federação Paranaense de Ciclismo (FPC), fazer uma manifestação fechando o trânsito da BR-277 no próximo dia 22, um sábado. Às 8h, ciclistas se concentrarão em frente ao Jardim Botânico, de onde partirão pedalando às 9h em direção à BR-277, sentido praias. O objetivo é ir até o contorno leste, nas imediações da montadora Renault, em São José dos Pinhais, perto de onde o engenheiro foi atropelado, e voltar.

“Queremos pedir mais segurança para os ciclistas, com mais sinalização nas estradas, policiamento, e, principalmente, a conscientização dos motoristas e punição a quem comete crimes de trânsito”, Jaime Linhares, ciclista profissional da categoria moutain bike e um dos organizadores do Go Bike Day, evento realizado em Curitiba que defende os direitos dos ciclistas.

Assaltos

Além dos acidentes de trânsito, os assaltos também preocupam os ciclistas. “Mês passado, foram seis bicicletas roubadas em Piraquara [cidade da região metropolitana para onde ciclistas profissionais pedalam em treinos]. Tivemos um ciclista baleado em tentativa de assalto. Praticamente toda semana temos casos de roubo”, reforça Linhares.

Fernando Oliveira, agente da PRF, afirma que os maiores problemas para os ciclistas são os acessos e saídas das estradas. Mesmo assim, enfatiza, o próprio condutor de bicicleta também tem de seguir regras. Entre elas, a de que os ciclistas têm de circular pelo lado mais à direita da pista, em fila, conforme prevê a legislação de trânsito. “Infelizmente, muitos insistem em transitar lado a lado. Nesse caso, o ciclista da esquerda fica mais exposto. E o outro veículo nem precisa tocar o ciclista: caminhões, por exemplo, podem desestabilizar o condutor da bicicleta só com o deslocamento de ar”, reforça.

Ciclo-Paraná

Idealizado em 2013 pelo governo Beto Richa (PSDB), o projeto Ciclo-Paraná teve decreto assinado em maio de 2015, mas só em 2017 deve entrar em prática de fato, é uma das ações que pretendem diminuir os acidentes com ciclistas. “O plano é um passo importante na política de ações para a bicicleta, como na área de segurança, mas até agora, mal saiu do papel”, aponta o presidente da FPC, José Carlos Belotto.

O Ciclo-Paraná está montando em quatro alicerces: ações educativas, investimento em infra-estrutura – em especial ciclovias -, apoio e incentivo ao cicloturismo e ao esporte e o desenvolvimento de ações que incentivem o ciclismo, como redução de impostos na produção de bicicletas. “A bicicleta foi preterida na publicação do Código Nacional de Trânsito, só que nos últimos anos aumentou muito o número de ciclistas das mais diversas origens, que vai dos esportistas às pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte de fato. Por isso é fundamental a implantação de um plano como o Ciclo-Paraná”, afirma o ex-competidor Gilmar Franco, conselheiro da FCC.

Até o fim do mês serão nomeados os conselheiros do Ciclo-Paraná, com participação de entidades governamentais (secretarias estaduais do Meio Ambiente, Esportes, Educação, além do Detran e prefeituras) e civis, como a FCC, universidades e entidades cicloativistas. O governo ainda está para fechar um convênio com a Universidade de Twente, na Holanda, que tem expertise na área educacional sobre o tema.

“Eu entendo a necessidade dos ciclistas, mas temos que avaliar toda a legislação, rever decretos. Também queremos que todos os municípios se integrem ao projeto. E, infelizmente, todo esse processo não se faz do dia para noite”, explica a coordenadora de Educação Ambiental da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), Daniela Miranda, responsável pelo Ciclo-Paraná.