Contrários ao fechamento das academias em Curitiba, profissionais de Educação Física promovem uma manifestação diferente no Centro Cívico. Por 101 horas (quatro dias), eles darão voltas correndo ao redor da prefeitura. A capital paranaense adotou há três semanas, no último dia 12, a bandeira vermelha da covid-19 que proíbe a abertura de vários espaços, inclusive setores ligados a espaços esportivos.

Anteriormente, com a bandeira laranja, as academias podiam abrir de segunda a sábado até às 23 horas, com proibição de abertura aos domingos.

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A reclamação por parte dos educadores é de que o protocolo sanitário para o funcionamento das academias é considerado um dos mais rígidos e não se tem comprovação de pessoas infectadas pela covid-19 dentro das instalações. Além disso, o setor é considerado serviço essencial em Curitiba.

Edson Marcelo Lopes, vice-presidente da Associação dos Centros de Atividade Física do Brasil (ACAF-PR), relata que esta manifestação pretende mostrar para a população que o fechamento é injusto para quem auxilia pessoas a cuidar do corpo fisicamente e mentalmente. “Estamos fazendo uma corrida de revezamento por 101 horas, mas respeitando o toque de recolher. Começa às 7h e vai até 19h. Uma pessoa corre ao redor da prefeitura e outra fica atenta ao movimento para não atrapalhar ninguém”, explicou o protesto.

“A gente não entende o tratamento da prefeitura com o nosso setor. Todas as evidências científicas comprovam a segurança no trabalho com 42 itens no protocolo sanitário e somos considerados o setor mais seguro, dentro de tantos outros. Não faz sentido ter segurança e profissionais capacitados e estarmos sendo impedidos de fazer este tipo de trabalho para a população. Nós fazemos parte da solução e não do problema”, reforçou o dirigente da ACAF.

Durante a entrevista coletiva em que confirmou a ampliação do prazo para o término das restrições ao setor, a Secretária Márcia Huçulak falou exatamente o contrário do representante da ACAF sem, no entanto, apresentar os números ou estudo. “Sabemos das dificuldades, temos sensibilidade, mas todos os estudos de contaminação mostram claramente que esses ambientes tem alta contaminação. Tem casos de relatos de contágios em academias e, segundo a OMS, tem pesquisas que mostram alta taxa de transmissão do vírus”.

“Está faltando sensibilidade”

O setor ligado aos profissionais de Educação Física não aprovou as declarações da secretária municipal de saúde de Curitiba, Márcia Huçulak. “Quero que a secretária nos mostre casos de contaminação nas academias”, reclamou Edson.

No momento mais polêmico da fala de Márcia Huçulak, a secretária citou Darwin, teórico da evolução das espécies, para mandar um recado para o setor. “Sobrevive quem se adapta, dizia Darwin. Não será mais possível sobreviver da mesma maneira”.

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A resposta veio como um desabafo. “Sobre a gente precisar se reinventar, digo que nós estamos fazendo isso há sete meses, mas não temos mais o que fazer. A gente precisa honrar a folha de pagamento sem nenhum recurso do poder público. Falta sensibilidade!”, afirmou Edson Marcelo Lopes.

Ainda segundo ele, comparar academias com outras atividades esportivas é um equívoco. “Outra coisa, colocar todos os setores no mesmo balaio não dá, pois cada um tem sua particularidade. Não dá para misturar academia com bar ou futebol. Não é todo mundo que tem condição financeira para pagar um personal trainer ou mesmo ter a motivação de fazer aula online. Temos depoimentos de alunos que estão com problemas psicológicos, por não sair de casa e ir para um lugar seguro que dá prazer”, completou Lopes.

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Márcia tentou amenizar a crítica na mesma entrevista. “A gente não inventou o vírus. Estamos no nosso papel de administrar uma crise sem precedentes nesse século”, comentou. E acrescentou. “Recebemos muita crítica, mas estamos há mais de um ano trabalhando sem parar. Minha formação é gestão da saúde e cuidar da vida das pessoas. Escolhi cuidar. Sempre defenderei a vida”, justificou-se.

Por fim, Márcia desafiou o setor a apresentar soluções, que segundo ela, ainda não foram apresentadas. “É um dos setores mais abalados e sei que tem empresas falindo. Quando falo em adaptação, eu chamei eles, fizemos inúmeras reuniões, mas eles precisam nos ajudar. Precisamos de uma alternativa, de ideias, para o setor funcionar. Abrir como antes não adianta. Se houver risco, não vamos liberar. O setor precisa pensar em como conviver com isso, qual alternativa, trazer propostas”.