A reunião entre o prefeito Rafael Greca (PMN) e vereadores , realizada na tarde desta quinta-feira (22), terminou longe de um consenso. Em menos de uma hora, os parlamentares que integram o bloco de oposição se retiraram da sala, bastante irritados. Sem acordo, o pacotaço enviado à Câmara pelo prefeito deve ser mesmo votado na próxima segunda-feira (3).

Os vereadores de oposição apresentaram uma proposta a Greca, solicitando a retirada do pacotaço, para que a Câmara possa debater as medidas de forma mais ampla – os projetos tramitam em regime de urgência. Com ampla maioria na Câmara, porém, o prefeito não abriu mão de que o pacote vá a plenário já na próxima semana. Segundo Greca, já houve mais de 74 reuniões para debater as propostas e, portanto, o “plano de recuperação de Curitiba” será votado na semana que vem.

“Eu recebi a oposição a pedido do Ministério Público e esperava que trouxessem contribuições racionais. Trouxeram argumento emocional de que devo adiar mais uma vez (…) Temos um plano de recuperação e temos uma oposição que agoniza na sua tirania sindical, porque eles são só oito [vereadores] e querem impedir a maioria de votar”, disse o prefeito. “Se a sociedade ceder a milícias fascistas, a sociedade perderá a democracia”, completou.

Clima tenso

O clima da reunião foi definido como “tenso” pelos vereadores da oposição. Eles disseram que, por vezes, Greca se alterou e deixou claro que é ele quem manda na cidade – postura que os parlamentares classificaram como “intransigente e autoritária”. “Ele disse que ele que manda, que é do jeito dele. Aí fica muito difícil um diálogo, uma conversação (…). Ele está com a base. Aí a despreocupação com o debate. Quem tem a maioria não precisa discutir. Vota”, apontou Noêmia Rocha (PMDB).

Segundo o vereador Goura (PDT), a bancada de oposição pediu a retirada dos projetos e a ampliação do debate como forma de evitar um novo episódio de violência, como o que ocorreu nesta semana – quando manifestantes ficaram feridos ao tentar entrar na Câmara, que estava cercada por centenas policiais.

“De fato, nosso argumento era emocional. Nós vimos pessoas sendo agredidas, sendo machucadas e não queremos que isso ocorra”, disse o vereador. “Todo corpo de funcionários está desesperado e é um script já previsto de que isso [violência] vai acontecer semana que vem. Se vão mexer com seus direitos, é óbvio que você vai se revoltar. Como que o prefeito acha que não vai ter uma reação e que todo mundo vai aceitar passivamente isso?”, acrescentou.

“Insisto em dizer. Sou servidora desde 1985 e é a primeira vez que vejo a Câmara cercada e com policiais em quantidade enorme. Reflete uma postura autoritária e antidemocrática”, disse a vereadora Professora Josete (PT).

Sem celulares no encontro

A reunião desta quinta-feira (22) na prefeitura ocorreu a portas fechadas, em um salão em frente ao gabinete de Rafael Greca. Nenhum dos vereadores pôde entrar no anexo com seus celulares – os aparelhos foram confiscados logo na entrada. O ato provocou críticas da oposição.

“Eu acho um absurdo. Como se nós tivéssemos ido para espionar, como se fôssemos falar coisas secretas. Não. Era uma reunião pública”, destacou Goura.

Greca, por sua vez, disse que a decisão de vetar os celulares ocorreu “por respeito ao Poder Legislativo”. “É usual que não haja transmissão de uma conversa que era resguardada pela ética. Eu também não queria ser visto num diálogo que pudesse ser interpretado como interveniência minha na autonomia da Câmara”, disse o prefeito.

Base de apoio presente

Inicialmente convocada para ser uma reunião do prefeito com a bancada de oposição, a audiência também contou com a participação de vereadores da base de Greca. Alguns dos apoiadores do prefeito – entre os quais, o presidente da Câmara, Serginho do Posto (PSDB) – deixaram o encontro logo no início para participar de outra reunião, desta vez na Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp).

Segundo o tucano, lá seria discutido o esquema de segurança para garantir que a votação ocorra. Ou seja: o prédio da Câmara deve novamente ser isolado pela Polícia Militar. O presidente do Legislativo destacou que a Casa está amparada por decisões judiciais – um interdito proibitório e um mandado de reintegração de posse – que respaldam a operação.