No último mês, circular a pé pela Rua Deputado Heitor Alencar Furtado, no bairro Mossunguê, em Curitiba, tornou-se uma atração à parte. Debaixo das folhagens avermelhadas que enfeitam o outono da rua, famílias, casais de namorados, noivos, mulheres grávidas e turistas disputam, a cada metro das margens da canaleta do expresso, o melhor ângulo para tirar fotos e, é claro, postar nas redes sociais.

Famoso no Instagram, o “corredor vermelho” do Mossunguê ganhou visibilidade Brasil afora por conta das belas árvores de folhas em forma de estrela que, nessa época do ano, conferem à rua o aspecto bucólico e um visual de encher os olhos, a ponto de transformar a região residencial em ponto turístico. O nome é complicado: “Liquidambar” e na internet, há quem diga que a graça do cenário está no fato de “nem parecer no Brasil”. Enganam-se, em partes.

De fato, as árvores vieram de fora mas, por aqui adaptaram-se tão bem, que pouco exigem manutenção, revelando-se de cultivo simples e praticamente imunes às pragas. O que mostra que, na verdade, não foi Curitiba quem as escolheu, mas sim elas é que escolheram a cidade.

Nos idos de 2001, Roberto Salgueiro, engenheiro florestal do Horto Municipal da Barreirinha, ligado à Prefeitura da cidade, não imaginava que as pequenas mudas escolhidas para a arborização do trajeto que começa nas imediações da Rua Mario Tourinho e segue até o Terminal Campo Comprido, virariam atração turística vinte anos mais tarde.

Foi ele o responsável pela escolha, cultivo e plantio da espécie na cidade. “Naquele tempo a região do Mossunguê começava a erguer-se como polo residencial. Sem muitos prédios e com o longo trecho da canaleta do expresso, a ideia era construir um corredor verde para a passagem do ônibus. Optamos pelo Liquidambar devido à estética e não imaginávamos que, no fim das contas, os tons de vermelho cairiam tão bem à rua”, revela.

Da “gringa” pro Mossunguê

Importados dos Estados Unidos e plantados quase artesanalmente pela equipe da prefeitura, oitocentos e cinquenta e três Liquidambares – que levam o nome por conta da resina cor de âmbar que produzem – foram instalados um a um, a cada dez metros, às margens da rua. “A gente ia subindo a pé fazendo as marcações para cada árvore. Os recursos eram diferentes naquele tempo. Hoje a gente usa um spray que torna tudo bem mais prático”, lembra Roberto que, a princípio, tinha em mente plantar as mudas na Rua Padre Anchieta, no Bigorrilho.

No fim das contas, elas adaptaram-se melhor lá mesmo, no Mossunguê. “Jamais imaginei que as árvores fossem agradar tanto e que se tornariam cenário para as fotos de tanta gente. Fico emocionado ao saber que o público de Curitiba valoriza a paisagem local com tanto carinho”, diz Roberto.

Orgulhoso “da cria”, o engenheiro avisa: os que encantam-se com a beleza das árvores hoje, não perdem por esperar! “Daqui a alguns anos as folhagens dos Liquidambares vão expandir e fechar sobre a rua, formando não um corredor, mas um túnel de folhas vermelhas. Se hoje já é bonito, daqui um tempo vai ficar de tirar o fôlego”, avisa. Perguntamos se ele próprio rendeu-se à bela paisagem. “Confesso que já fui até lá para tirar uma selfie, esse ano”, brinca.

Cenário dos bons

“É muito bonito, perfeito pra falar a verdade”, disse o fotógrafo Charneski. Foto: Marco Charneski/Colaboração

Os fotógrafos Marco Charneski e Raquel Kriger foram chamados para fotografar um casamento no cartório do Campo Comprido. Pelas restrições da covid-19, não puderam fotografar dentro do estabelecimento. Ao saírem de lá, ficaram de queixo caído com o cenário. “Lançamos a ideia de fazer umas fotos ali perto. Andamos um pouco e vimos as árvores. Nunca tinha ido ali no outono e chocamos. É muito bonito, perfeito pra falar a verdade”, disse Charneski.

O sucesso das fotos foi imediato. “No que a Raquel postou algumas fotos no seu Instagram, choveu de gente perguntando como fazer ensaio ali, quanto custava. Foi um sucesso. Curitiba tem um belo cartão postal a cada nova estação do ano”.

No que as fotos foram postadas, seguidores de Raquel ficaram curiosos pra saber onde era o cenário. Foto: Marco Charneski/Colaboração

Quanto mais, melhor

Com um total de trezentas e trinta mil árvores plantadas em vias públicas, Curitiba ocupa o quinto lugar no ranking das cidades mais arborizadas do Brasil, segundo o IBGE. Destas, muitas foram escolhidas propositalmente pela beleza, sendo plantadas em pontos específicos da cidade, como as cerejeiras japonesas da Avenida Anita Garibaldi, no bairro Cabral, ou os jacarandás da Avenida Presidente Kennedy, no Parolin.

No que depender da Secretaria do Meio Ambiente, Curitiba seguirá no top 5 da lista, ainda por um bom tempo. Segundo Roberto Salgueiro, há previsão de novos plantios nas ruas João Gualberto e Avenida Paraná, entre os bairros Ahú, Cabral e Boa Vista. Por lá a ideia é cultivar ipês, formando um corredor multicolorido quase até a divisa com Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC).

Plano parecido quase obteve êxito na Rua das Flores, no Centro. “A ideia era encher a rua de cores, mas por conta da sombra dos edifícios as mudas não vingaram por lá”, revela o engenheiro, cuja missão é arborizar a cidade ao ponto de fazer parecer que – como disse – “são os prédios que brotam do meio das árvores e não as árvores que brotam do meio dos prédios”.

Curitiba dá o aval e, se a força dessas sementes que trocam o concreto pelo verde for tão cultivada quanto a de sair bem na foto, o curitibano terá, cada vez mais belas paisagens à vista.