A proposta de estabelecer um rodízio de funcionamento do comércio não essencial durante a vigência de uma bandeira vermelha, levada pela Associação Comercial do Paraná (ACP) à Câmara de Curitiba, não deve ser abraçada pela prefeitura da capital. Para a secretária municipal da Saúde, Márcia Huçulak, a ideia “não é factível do ponto de vista epidemiológico”. A proposta ainda não foi votada no Legislativo. Em entrevista à Gazeta do Povo nesta quinta-feira (17), Huçulak explica que o rodízio do comércio em uma eventual nova bandeira vermelha – atualmente, Curitiba está em bandeira laranja – não reduz a circulação das pessoas nas ruas, objetivo central das medidas de restrição, na tentativa de baixar a transmissão do vírus e desafogar os serviços de saúde.

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“A proposta da ACP não é factível epidemiologicamente porque as pessoas vão continuar saindo de casa. Se a loja de sapato abre hoje e a de vestido abre só amanhã, a pessoa vai sair dois dias de casa, um para comprar o sapato e outro para comprar o vestido. Então, epidemiologicamente não faz sentido abrir o comércio de um lado da rua e não abrir do outro lado. E a bandeira vermelha comprovadamente abaixa a transmissão do coronavírus justamente porque reduz de fato a circulação de pessoas. Com a bandeira vermelha não é só o consumidor que deixa de sair de casa. Os vendedores das lojas, os motoristas de aplicativo que levam essas pessoas ao trabalho, enfim, muito mais gente fica em casa”, argumentou ela.

Pela proposta que tramita na Câmara de Curitiba, o Executivo deve “estabelecer obrigatoriamente o rodízio de funcionamento de atividades comerciais de rua não essenciais durante o período de vigência da bandeira vermelha”. Além disso, em outro trecho da proposta, fica autorizada a “realização de compras online, com entrega a domicílio, retirada em balcão e drive-thru, de toda e qualquer atividade comercial de rua não essencial, independentemente de restrições de funcionamento”. O texto da proposta não detalha como seria o rodízio, mas a justificativa dela cita que o funcionamento poderia ser, por exemplo, “de acordo com o número de rua do estabelecimento comercial, ou seja, um dia funcionam as atividades com final do numeral par e noutro dia ímpar”.

Márcia Huçulak lembra, ainda, que as bandeiras vermelhas até aqui decretadas pela prefeitura não foram rotineiras, levando em consideração todo o período da pandemia do coronavírus – desde março do ano passado. “Na bandeira laranja todo o comércio está liberado. Fizemos um levantamento de que em 422 dias de vigência dos decretos da pandemia, o comércio ficou fechado apenas 21 dias”, pontuou ela. A mais recente bandeira vermelha na cidade vigorou entre 28 de maio e 9 de junho. Huçulak acredita que pode ter sido a última bandeira vermelha, considerando, entre outras coisas, o avanço da campanha de vacinação na cidade, mas ela não descarta a opção, já que os leitos de UTI para atender pacientes com sintomas da Covid-19 seguem lotados.

A proposta da ACP é anterior. Surgiu na esteira da bandeira vermelha adotada entre 13 de março e 5 de abril. Na época, em entrevista à Gazeta do Povo, o presidente da ACP, Camilo Turmina, disse que o objetivo da proposta era aplicar uma “vacina antilockdown” e que ela não prevê como funcionaria o rodízio em detalhes porque a ideia é que as regras sejam debatidas na Câmara de Vereadores. “É para ter mais gente pensando. Hoje, as decisões são todas monocráticas. Temos que começar a discutir, procurar alternativas”, argumentou ele. Na Câmara de Vereadores, a proposta atualmente está sendo analisada pela Procuradoria Jurídica, quando os aspectos legais dela são observados.