Há quem sonhe em transformar o comércio da região central de Curitiba numa espécie de “shopping a céu aberto”, com segurança reforçada, horários estendidos e um mix de lojas que ofereça ampla gama de produtos e serviços. Por outro lado, a ideia de copiar os espaços esterilizados dos shoppings não é exatamente o que mais agrada aos técnicos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc).

Essa é apenas uma das muitas divergências entre o comércio e o poder público municipal sobre qual é hoje a situação do centro da cidade e quais os caminhos para revitalizá-lo. O debate, é bom contextualizar, acontece entre atores que viraram antagonistas em função das medidas restritivas à circulação de pessoas durante a pandemia da Covid-19: no fim de maio, o presidente da Associação Comercial do Paraná, Camilo Turmina, chegou a pedir a renúncia do prefeito Rafael Greca após o decreto que instituiu bandeira vermelha na cidade.

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Para Turmina, o movimento no Centro tem diminuído a cada ano e, se a prefeitura não der atenção à região, as pessoas vão se dirigir cada vez mais aos shoppings. Para ele, é preciso revitalizar as calçadas, melhorar a acessibilidade, a segurança e pensar em legislações que favoreçam o trabalho em períodos noturnos. “Como tem uma lei que limita e define algumas coisas, custaria para uma loja o dobro de custos para abrir fora do horário permitido. Uma pequena loja não vai se estruturar para abrir se tem percalço de custo”, diz.

Além disso, Turmina defende que é preciso tratar a cidade como um grande shopping a céu aberto: “O consumidor tem que andar e encontrar lojas e restaurantes que quer. Quando o prefeito quer fazer boulevard, tem que ser no coração da cidade, tem que partir do miolo. Estamos com centro deteriorado, e os shoppings estão avançando”, reclama.

A menção ao conceito “boulevard” não é gratuita. Em julho, a prefeitura apresentou projeto para criar um boulevard numa área de dez quadras do entorno do Mercado Municipal, dando prioridade aos pedestres e aos deslocamentos não motorizados. Um outro projeto, no entanto, mais antigo e para o Centro, não decolou: trata-se da criação de um boulevard gastronômico no entorno da praça Osório, no Centro, apresentado ao prefeito Rafael Greca por empresários e arquitetos em 2019.

Tanto a prefeitura como a Associação Comercial concordam que um avanço importante seria manter o comércio funcionando até depois das 19h. “Se todo mundo fecha, quem vai querer ficar olhando a porta fechada? As pessoas vão quando tem bom serviço, um bom restaurante, um bom bar com cadeiras externas”, diz Mauro Magnabosco, arquiteto do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). O problema, acrescenta, é que os próprios comerciantes não pensam desta forma. Segundo Magnabosco, por conta de questões trabalhistas e sindicais, que encarecem os custos para manter um negócio na ativa até tarde da noite, ninguém quer manter as portas abertas neste período. “A prefeitura é flexível, mas aí tem uma resistência muito grande do próprio comércio”, diz.

Cidade deve ter hora para fechar, diz professor da PUC

Horário estendido do comércio não é necessariamente uma fórmula de sucesso, na análise do professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana (PPGTU) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e arquiteto, Clóvis Ultramari. “Faz parte da vida da cidade ter uma hora pra usar e uma hora para fechar”. Além disso, o professor não considera que o movimento na região central da cidade tenha diminuído. “Se pegar a Rua XV e distribuir a densidade que tem às 16h, por 24h, vai ver que tem resultado positivo”, diz.

Para o professor, as mudanças na preferência do público são esperadas, ou seja, em determinados momentos, a população vai preferir frequentar as regiões mais centrais, enquanto em outros, não. “A ocupação dos espaços muda um pouco de acordo com a moda”. Desta forma, na opinião de Ultramari, é muito difícil que o centro entre em decadência. “O centro já tem um mix de lojas extremamente competitivo, não consigo imaginar o seu fim. Se houver decadência econômica, não será pelas suas características”, diz.

Enquanto a ACP busca inspiração nos shoppings para revitalizar o comércio central, a ideia, de saída, não agrada ao arquiteto do Ippuc. “Eu não gosto desse termo shopping a céu aberto”, rebate. Em relação à crítica de que faltam intervenções da prefeitura no centro, Magnabosco entende que, no momento, o ideal não é apostar em grandes obras, para não causar transtornos e atrapalhar a retomada econômica do comércio, fortemente afetado pela pandemia. E mesmo assim, segundo ele, existem projetos da prefeitura previstos e em andamento no Centro de Curitiba, como o Caminhar Melhor, com investimentos de R$ 40 milhões em melhorias de estruturas cicloviárias e de calçadas; o Rosto da Cidade, que realiza o despiche e a recuperação urbana; a revitalização de todo o entorno do Mercado Municipal, entre outros.

Segundo o arquiteto do Ippuc, um dos fatores que justificam a demora em revitalizações pontuais é a lentidão no processo obrigatório a ser seguido para a implementação de uma obra. Além disso, Magnabosco afirma que a prefeitura sempre pode sempre melhorar, mas que é necessário dar o passo de acordo com a necessidade de investimento e outros setores precisam agir em conjunto. Neste ponto, Turmina sugere a criação de ruas temáticas para impulsionar o consumo. “Se estabelecermos a criação de um mix adequado, tenho certeza que isso seria possível”, reforça. Outra sugestão do presidente da ACP é que parte do IPTU arrecadado deveria ser aplicado na rua onde ele é produzido.

Intervenções pontuais dão resultado, garante Ippuc

O representante do Ippuc afirma que os projetos pontuais de revitalização da área central, como o realizado da Rua Voluntários da Pátria, têm trazido resultados animadores para a cidade: “Toda vez que a gente melhora e requalifica, a gente tem um resultado; é super bom para o comércio que recebe uma injeção de ânimo”.

Em relação à segurança, Turmina destaca que é preciso criar uma lei específica para proibir o tráfego de bicicletas no calçadão da Rua XV de Novembro, já que a circulação estaria favorecendo ataques “sobre duas rodas”. Outro problema apontado pelo presidente da ACP é a falta de fiscalização de vendedores ambulantes. Magnabosco reconhece que existem problemas deste tipo, mas segundo ele, o poder público está trabalhando dia e noite para contorná-los. “Nosso centro é muito bem atendido, claro que muitas vezes não na quantidade que a gente gostaria, mas dentro das políticas de requalificação e manutenção, a prefeitura tem feito um esforço brutal. Não vamos fazer tudo ao mesmo tempo porque temos carências em outras áreas”, diz.

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