Há exatos 30 anos, o desaparecimento de uma criança no bairro Jardim Social, em Curitiba, continua sendo um grande mistério para a sociedade paranaense. Guilherme Caramês Tuburtius, com 8 anos na época, sumiu no fim da manhã na Rua Ozório Duque Estrada e, desde então, a incerteza e a dor caminham diariamente ao lado de Ewaldo e Arlete, pais do menino. Objetos pessoais de Guilherme estão guardados com a esperança de um dia voltar ao verdadeiro dono e acabar com a angústia de uma família que jamais descansou.

Para relembrar essa história, a reportagem da Tribuna do Paraná procurou pessoas que tiveram algum tipo de contato seja na investigação ou mesmo na cobertura jornalística da época. Alguns questionamentos seguem com as lacunas abertas como, por exemplo, onde foi parar a bicicleta de Guilherme que sumiu junto com ele? Foi vingança? Foi sequestro e algo deu errado? Se Guilherme morreu, onde está o corpo? O processo criminal foi arquivado, mas, de acordo com a Polícia Civil, o caso segue sendo investigado até hoje.

“Eu fiquei praticamente seis meses sentada em um sofá olhando para a janela esperando o retorno dele. Guilherme é o meu único filho, minha vida. Eu era tão feliz com ele e não sabia. São 30 anos de muita tristeza, lembranças e de esperança. É um pedaço que se foi e não tive oportunidade de nada.  Não sei o porquê fui a escolhida, mas tenho a esperança de que este mistério seja desvendado. Seria a maior alegria da minha vida ”, desabafou Arlete Caramês, mãe do Guilherme, atualmente com 77 anos.

Arlete, mãe do guilherme, desaparecido desde 1991
“É um pedaço de mim, não sei onde ele está, não sei de nada. Continuamos na esperança que se desvende este mistério”, disse Arlete à Tribuna.

O desaparecimento de Guilherme

No fim da década de 1980 e começo da década de 1990, várias crianças desapareceram no Paraná. Em alguns casos, uma quadrilha liderada por Arlete Honorina Victor Hilu, chegou a ser condenada por tráfico de crianças que eram vendidas para casais estrangeiros.

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O sumiço de Guilherme foi perto das 12h daquela segunda-feira, 17 de junho de 1991. Como de costume, funcionária do banco Banestado, Arlete acordou às 7h30 e enquanto se arrumava, chegou a pensar em não ir trabalhar naquele dia para ficar com o filho e com a mãe, Sueli Caramês, que comemorava 67 anos.  No entanto, desistiu da ideia.

Guilherme desapareceu em Curitiba em 1991
Guilherme Caramês Tuburtius, com 8 anos na época, sumiu no fim da manhã na Rua Ozório Duque Estrada. Foto: Arquivo Pessoal/Gerson Klaina.

Próximo das 8h, Arlete se despediu do marido, o aposentado Ewaldo Oscar Tiburtius, na época com 66 anos. Parabenizou Sueli pelo aniversário e avisou que mais tarde iria ter uma pequena comemoração pela data. Sobe as escadas da residência e vai e direção ao quarto do filho e se despede de longe do menino que ainda dormia. Na mesma manhã, por volta das 10h, Guilherme pega uma pequena bicicleta para dar voltas na quadra. Algo comum na rotina. Antes de voltar para casa, Guilherme liga para o celular da mãe, de um número desconhecido, pedindo um dinheiro que ele tinha encontrado um dia antes num passeio, e havia pedido a ela que o guardasse. O valor seria usado para comprar um coelho.

Pouco antes do meio dia, a avó o chama para almoçar e se arrumar para ir ao colégio. Guilherme pede para a avó Sueli para dar uma última volta de bicicleta. A partir desse ponto, entra a incerteza, a dor e a investigação de uma criança que desapareceu sem deixar vestígios.

Arlete, mãe do Guilherme, espera há 30 anos para saber o que aconteceu com o menino Guilherme
“Continuo esperando por uma notícia”, disse Arlete com muita emoção à Tribuna.

A investigação

A Polícia Militar (PM) logo foi avisada do desaparecimento de Guilherme e disponibilizou vários policiais para a ação. O responsável pelo comando foi o coronel Nemésio Xavier de França Filho, falecido em dezembro de 2020.

Segundo Arlete, a PM não mediu esforços para tentar localizar o filho. “Eles fizeram um rastreamento por toda a região e procuraram em um rio perto de casa com cães farejadores, mas não encontraram nada. A Polícia Civil também entrou no caso e ficaram dias dentro da minha casa. Com o tempo, algumas denúncias foram aparecendo, mas nada concreto. Fui para muitos lugares e nada. Cheguei a ir em uma seita religiosa em Buenos Aires, na Argentina, porque me disseram que havia muitas crianças no local. Todas as pistas foram falsas e nenhuma tocou meu coração. Parece que o Guilherme foi abduzido ou tragado”, reforçou Arlete que também foi ao Paraguai.

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O desaparecimento de Guilherme foi amplamente divulgado pela imprensa. Mara Cornelsen, jornalista e repórter da Tribuna do Paraná por 35 anos, acompanhou os bastidores da investigação e lembra que a notícia do sumiço chegou rápido na redação do jornal.

“A cobertura do caso de desaparecimento do menino Guilherme Caramês Tiburtius foi intensa. As polícias Civil e Militar atualizaram os métodos de busca e investigação devido à Arlete Hilu, procurando divulgar rapidamente o sumiço de qualquer criança, buscando desta forma impedir a saída da cidade e do Paraná, dos eventuais sequestradores. Tão logo o desaparecimento chegou ao conhecimento da polícia, avisada pelos pais, a notícia chegou à imprensa. A família também procurou jornais e outros veículos de comunicação solicitando a divulgação de fotos do menino e ajuda para encontrá-lo.  O caso de Guilherme se diferenciava da maioria por ser um garoto de família rica, filho único, que raramente ficava sozinho”, relembra Cornelsen.

guilherme desapareceu em 1991
Foto: Arquivo Pessoal.

E por se tratar de uma família com mais recursos, uma das linhas de investigação foi que poderia se tratar de um sequestro. No entanto, ninguém fez contato com a família oferecendo a troca do garoto por dinheiro. Além disso, um sequestrador não teria motivos de levar a bicicleta de Guilherme, que jamais apareceu.

João Ricardo Kepes Noronha, delegado na época da delegacia Anti Sequestro, lembra que assumiu a investigação um ano após o desaparecimento e nunca teve uma pista concreta que pudesse chegar ao menino. “Eu assumi a investigação depois de um ano do desaparecimento. Ouvi algumas pessoas envolvidas, mas nunca tivemos realmente uma pista que deixasse a gente confiante. Na época, chegamos a pensar que poderia ter sido uma vingança, mas não conseguimos veicular ninguém. Algumas situações como o sumiço da bicicleta e mesmo a falta de contato de um possível sequestrador sempre deixou a gente inquieto”, afirmou Noronha.

Projeção mostra como estaria Guilherme, 30 anos depois do desaparecimento.
Projeção mostra como estaria Guilherme, 30 anos depois do desaparecimento. Foto: Reprodução/Polícia Civil

Objetos do Guilherme seguem guardados

Com o passar do tempo, as pistas e as denúncias foram diminuindo. No entanto, a esperança de um dia ter novamente a presença de Guilherme, faz com que Arlete guarde até hoje alguns objetos do filho. Sapato, uniforme da escola, roupas que ele usava em aniversários e os vários porta-retratos que estão localizados na sala de estar. “Todo dia tenho a esperança que ele bata naquela porta e me abrace. Seria a maior alegria e o maior presente da minha vida. Nem queria saber quem foi ou como foi, mas tendo ele de volta seria uma recompensa muito grande”, salientou a mãe que não consegue segurar as lágrimas ao imaginar a cena do filho de volta para casa.

Aliás, a residência que os Caramês moravam em 1991 permanecesse sendo da família, mas o casal Arlete e Ewaldo residem em outro bairro. No antigo local, funcionou uma espécie de sede do Movimento Nacional em Defesa da Criança Desaparecida do Paraná (CriDesPar). Com o trabalho da ONG e de outras mães que tiveram o desaparecimento de filhos, a causa ganhou repercussão nacional com campanhas em novelas que mostravam as imagens dos filhos, inclusive a luta ajudou na criação da Lei 11.259, de 30 de dezembro de 2005, que alterou a redação do Estatuto da Criança e Adolescente que determina a busca imediata de crianças e adolescentes desaparecidos, sem a necessidade de esperar 24 horas.

Objetos do Guilherme seguem guardados
Sapato, uniforme da escola, roupas que ele usava em aniversários e os vários porta-retratos que estão localizados na sala de estar. Foto: Gerson Klaina.

No Paraná, em 1996, foi criada uma delegacia especializada na busca de crianças desaparecidas (Sicride). Uma das formas de não deixar esses casos antigos serem esquecidos é a utilização de imagens e cartazes com a progressão de idade. O objetivo é mostrar como estaria hoje em dia o rosto daquela criança. Patrícia Paz, atual delegada da Sicride, afirma que no caso do Guilherme, a investigação segue ativa, mas somente quando surge uma denúncia. “ Faz um bom tempo que não aparece, e quando surge são pessoas que verificam as imagens de progressão e acham alguém parecido. Sabemos que hoje em dia a capacidade laboratorial é avançada e temos material genético das famílias. Posso dizer que eu desconheço algo pior que a angustia dos pais quando o filho desaparece”, salientou a delegada que teve ano passado, 169 casos de crianças desaparecidas no Paraná e com todos os casos solucionados.

Mesmo após 30 anos da fatídica manhã daquela segunda-feira, 17 de junho de 1991, a cicatriz da perda não cicatrizou no coração da família Caramês Tuburtius. ”Dizem que não tem crime perfeito, mas com o Guilherme foi assim. Eu continuo esperando uma resposta para saber onde está meu filho, seja da forma que for”, completou Arlete.

”Dizem que não tem crime perfeito, mas com o Guilherme foi assim”, disse Alerte.