Da infância e adolescência ao som de vanerão, tocado pelos familiares músicos, Eduardo Calegari carregou o gosto e o dom para os acordes do violão. Habilidoso, com influência de um tio fã de rock e de primos igualmente interessados no estilo musical que revolucionava juventudes, logo passou para a guitarra e encontrou nela o destino de uma vida inteira. Depois de participar da formação de bandas como Jack Vermouth, de southern rock, e Hells Bells, tributo ao AC/DC, a partir de 2017 o guitarrista passou a integrar a Motorocker, banda curitibana reconhecida nacionalmente.

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Ainda menor de idade, Eduardo estudava, da maneira como podia, seus ídolos do rock e maneiras de se tornar um músico profissional. O primo Estevam Calegari lembra de ficar no carro com ele ouvindo fitas de Raul Seixas, Creedence Clearwater Revival e Nazareth enquanto a família dos dois tocava em algum baile. Os primos eram unha e carne, dividiam até os aprendizados da aula de violão. O aluno era Estevam, que ao chegar em casa repassava o que havia aprendido e via Eduardo fazer em minutos os exercícios que ele mesmo ia demorar uma semana inteira para conseguir cumprir.

Outra memória dos dois eram as idas ao Centro de Curitiba aos sábados de manhã para namorar guitarras pela vitrine das lojas de equipamentos musicais. A primeira guitarra de Eduardo era de segunda mão, um pouco “detonada”, mas não representava impedimento para que o músico iniciante tirasse dela ótimos sons. Aos 18 ou 19 anos, conseguiu comprar o primeiro instrumento à altura de seu talento, escolheu uma Gibson preta e dourada, cores que o Tio Toninho, que o inspirou ao rock’n’roll, gostava. “Era a guitarra que ele sempre quis. Lembro até hoje do brilho nos olhos dele quando pegou ela pra tocar”, conta Estevam.

Com as bandas da juventude, agitava os bares do Largo da Ordem. A primeira delas foi a Razamanaz, depois teve Humbucker, Tinto Seco, acústico.com e a banda 91 Rock, formada pela rádio de mesmo nome. “Ele sempre foi muito de correr atrás e organizar as bandas”, lembra a irmã Nayara Calegari Buchmann, que acompanhou desde os incansáveis ensaios em casa até a glória de ter entrada VIP em shows da estrela do rock da família. Na pele dela permanece a palheta dele em forma de tatuagem com “Eduardo Calegari” inscrito dentro, como homenagem.

Calegari, em primeiro plano, em foto de 2017 da banda Motorocker. Foto: Andre Nisgoski

Outro tributo póstumo foi prestado pelo vocalista da Motorocker, Marcelus dos Santos, ao compor a música “Edu” e gravar em conjunto com a banda Carne de Onça. No início do ano passado, a banda da qual Eduardo fazia parte estava gravando seu próximo disco, cuja finalização acabou sendo adiada por causa da pandemia. O baixista Sílvio Krüger revela que em breve o álbum deve ser lançado e contará com a guitarra de Calegari, em faixas gravadas antes do isolamento social. O companheiro de Motorocker lembra de uma frase clássica do guitarrista, sempre que algo extraordinário acontecia: “Ele falava ‘Tem coisas que só o rock proporciona’. Era muito dedicado, vivia a guitarra. Não tinha ninguém que não gostasse dele”, relata.

Não era daqueles que carregam o violão para o churrasco. Seus acordes estavam presentes no trabalho e estudo. Na hora do lazer, deixava que a caixa de som cumprisse o papel de embalar a festa. Seu gosto era simples: reunir família e amigos para uma cerveja e bons papos. Se possível, nesses momentos trocava a palheta pela colher de pau e preparava uma de suas especialidades, o risoto de camarão ou carneiro assado com um tempero que só ele sabia fazer.

Eduardo Calegari morreu no dia 12 de fevereiro, aos 38 anos, por complicações da Covid-19. Ele deixa esposa, filha e o sonho realizado de viajar o Brasil e mover multidões com sua música.

Calegari, último à direita, com a banda Motorocker no Zombie Walk de 2019, em Curitiba. Foto: Acervo Motorocker