Diversas cidades de porte parecido, vizinhas de Curitiba na região metropolitana, chamam atenção por registrarem dados da Covid discrepantes, ilustrando como a pandemia ainda é acompanhada de muita subnotificação ou, pelo menos, de estatísticas desatualizadas.

Um dos parâmetros que apresenta diferenças mais significativas é o da letalidade da infecção causada pelo coronavírus, obtido pela proporção entre óbitos e casos confirmados da doença. Esta taxa pode ser quase três vezes maior, quando a comparação é feita, por exemplo, entre os municípios de Araucária e Almirante Tamandaré.

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Araucária apresenta uma das menores taxas de letalidade por Covid-19 da Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Segundo o boletim mais recente da epidemia na cidade, atualizado em 12 de julho, foram registradas 443 mortes entre os 26.978 casos confirmados da doença – o que dá uma taxa de letalidade de 1,64%.

No outro extremo fica o município de Almirante Tamandaré. Os dados mais atualizados publicados pela prefeitura municipal em 9 de julho mostram que o novo coronavírus contaminou 8.993 pessoas desde o começo da pandemia. Destas, 380 morreram, o que eleva a taxa de letalidade para 4,23%. O índice é quase o dobro da letalidade média verificada em todo o Paraná, que segundo os dados mais recentes da Secretaria Estadual de Saúde é de 2,46%. Tamanha diferença parece apontar mais na direção de baixa notificação de contágios – o que naturalmente eleva o índice de letalidade – do que para uma situação mais aguda da Covid entre municípios vizinhos.

Para a diretora do Departamento de Vigilância Epidemiológica de Araucária, Alexsandra Tomé, uma série de fatores explica a baixa taxa de letalidade no município. Um só local concentra todo o atendimento primário aos casos suspeitos de Covid-19, o que facilita a coleta dos dados. Alexsandra afirma ainda que o município testa todos os pacientes com suspeitas de infecção. “Não precisa ter quadro grave, não precisa ser um caso específico, nós testamos todo mundo. A pessoa procurou o atendimento com síndrome gripal ou com qualquer sintoma, vai para o exame”, explicou.

Nas contas de Alexsandra, de cada três resultados de exames cadastrados no sistema municipal, um vem dos testes rápidos feitos em farmácias. Por um período, alguns desses estabelecimentos não cadastraram esses resultados junto à prefeitura e tiveram o alvará de funcionamento suspenso temporariamente. A medida foi tomada pelo poder público, de acordo com a diretora, como uma forma de ampliar a base de coleta de dados.

“Tivemos farmácias que ficaram reclamando desse procedimento, mas não tinha como ser de outra forma. Tem que notificar, tem que regularizar esse fluxo antes de poder fazer novos exames. Parece algo simples, óbvio, mas na prática não funcionava dessa forma. Agora temos tido um crescimento muito grande nesse volume dos testes rápidos. A maior parte desses exames é feito em farmácias, e se a gente perde esses testes acaba perdendo boa parte dos nossos dados da Covid”, pontuou.

Alexsandra apontou que dados da literatura médica resultantes de pesquisas feitas em outros países mostram que a letalidade média do coronavírus causador da Covid-19 é de 1,2%. Segundo ela, o município estava mantendo esta média durante toda a pandemia. O recente aumento para 1,6% pode ser um indicativo de que alguns pacientes contaminados possam estar passando ao largo do controle do município.

“Nosso índice atual significa que há muita subnotificação ainda. Pode ser de casos que se contaminaram e acabaram não buscando atendimento, outros que ficaram retidos no sistema privado. Eu vejo que nós perdemos um pouco da nossa capacidade de detectar os casos de infecção. Essa é a minha leitura desse cenário. A gente subiu um pouco nessa condição, mas subimos bem menos que outros municípios”, avaliou.

A reportagem da Gazeta do Povo procurou a Prefeitura de Almirante Tamandaré para comentar o alto índice de letalidade da Covid-19 no município, mas não obteve resposta em seus questionamentos.

Letalidade não é igual mortalidade

O cardiologista e professor do Centro de Epidemiologia e Pesquisa Clínica da PUC-PR, José Rocha Faria Neto, explicou que a taxa de letalidade diz mais respeito à capacidade de testagem de uma determinada região do que o risco de morrer de Covid-19. Segundo ele, “a letalidade não diz exatamente qual a chance de um paciente morrer, não é igual a mortalidade”.

Faria Neto citou algumas análises feitas no início da pandemia quando, de acordo com o cardiologista, “se começou a falar em tratamento precoce com ivermectina na África”. Os dados analisados, reforçou, foram do tipo ecológico – quando se leva em conta dados da população em geral e não informações específicas de cada indivíduo – e podem levar a conclusões equivocadas.

“Muitas pessoas falavam que a letalidade [da Covid-19] por lá era muito baixa. Mas isso é porque em muitos desses países a expectativa média de vida é cerca de 30 anos menor do que a de um brasileiro. É sabido que essa doença tem sua maior mortalidade em faixas etárias mais avançadas. As pessoas não conseguem chegar a uma idade avançada na qual se tornariam mais suscetíveis à Covid-19 e morrem antes, por quaisquer outros fatores. É um dado que chama a atenção, mas é preciso deixar claro que não é mais perigoso morar em Colombo, ou Campo Largo, do que em Araucária. Quem mora em Almirante Tamandaré, por exemplo, não tem mais risco de morrer de Covid do que quem mora em Araucária”, reforçou.

O maior risco trazido pela subnotificação e seu reflexo nas altas taxas de letalidade, como explica o médico infectologista Bernardo Montesanti Machado de Almeida, é o fato de potencialmente haver mais pessoas infectadas transmitindo a doença. Segundo o médico, identificar os casos positivos de Covid-19 é fundamental para que se possa isolar esses pacientes e assim conter o avanço da doença.

“Uma taxa de letalidade três vezes maior significa que provavelmente para cada caso identificado haja outros dois contaminados que não foram testados e podem estar circulando e transmitindo o vírus. Se você tem um caso que não é identificado, essa pessoa provavelmente não vai se isolar. Ela pode ser assintomática, pode achar que está com um resfriado bobo, ou mesmo uma rinite. E esse quadro pode não ser grave para esse indivíduo, mas ele pode transmitir o coronavírus para outras pessoas. Essa cadeia de transmissão segue sendo perpetuada, e faz com que o vírus atinja uma pessoa idosa, vulnerável, que pode então desenvolver a forma grave da doença”, avaliou Almeida.