“Demos nosso melhor durante a pandemia e agora somos jogados fora”, desabafou um servidor do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Curitiba. Ele tentou resumir a sensação de aproximadamente 50 servidores, entre enfermeiros e técnicos de enfermagem, que souberam nesta quinta-feira (14) que serão remanejados para outros setores.

A mudança e reestruturação deverá acontecer para dar lugar a uma empresa terceirizada que vai cuidar do Samu. A decisão veio à tona nesta semana, depois de uma reunião entre o Sindicato dos Servidores Municipais de Enfermagem de Curitiba (Sismec) e a Prefeitura de Curitiba.

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“Primeiro soubemos que diretores do Samu estavam sendo direcionados a outros cargos de chefia. Desconfiamos, mas como não fomos comunicados, não entendemos o que era. Nesta quarta-feira, foi convocada uma reunião para quinta, com representantes, técnicos e enfermeiros. Tentamos participar e não nos foi aberta a possibilidade de o sindicato estar junto com os profissionais”, contou Raquel Padilha, presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Enfermagem de Curitiba (Sismec). 

Ao solicitar informações a respeito da situação, o Sismec recebeu apenas a negativa. “O que soubemos é que, a partir do dia 31 de janeiro, estarão com enfermeiros e técnicos de enfermagem novos nas ambulâncias. Gente que sequer sabe desempenhar o trabalho que os profissionais já fazem há anos”, denunciou Raquel.

O que os enfermeiros e técnicos vem fazendo há alguns dias, conforme informou o sindicato, é ensinar os novos profissionais. “Essas pessoas que nem sabem, não tem domínio, sem experiência nenhuma, estão sendo ensinadas pelos outros profissionais. Mesmo sobrecarregados, trabalhando com o risco o tempo todo, ainda têm que ensinar”, comentou a presidente do sindicato. 

Segundo Raquel, o sindicato até tentou entrar em contato com a prefeitura nesta quinta-feira, mas não houve acordo. “Argumentei que a decisão não estava sendo coerente, que não tinham agido em conformidade com a lei, que dá o direito do trabalhador ter o sindicato junto. Me responderam que era para que eu tomasse as medidas cabíveis”.  

Como forma de impedir que a terceirização aconteça, o Sismec pretende recorrer. “Vamos acionar Ministério Público do Paraná (MP-PR), a Câmara de Vereadores e todos os meios que pudermos. Mas precisamos que a população se dê conta de que quem vai pagar essa conta são os cidadãos. As pessoas precisam acordar, ter consciência de vão ser atendidas por profissionais que nem sabem o que estão fazendo”, desabafou Raquel. 

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Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

“Jogados no lixo”  

Os profissionais do Samu, muitos que atuam há mais de dez anos no socorro às vítimas, se incomodaram com a notícia. Embora não perderão o emprego, os servidores sabem que é preciso preparação para desempenhar a função, que não é das mais fáceis. “Não basta colocar qualquer um numa ambulância e achar que essa pessoa vai fazer o que nós fazemos. Nunca”, comentou um enfermeiro, que preferiu não ser identificado. 

Outra profissional, que trabalha no Samu há 15 anos e também não quis ser identificada por medo de perseguição, ficou indignada com a terceirização. “Nos pediram para entregarmos os uniformes até o dia 1 de fevereiro, porque seremos substituídos. Essa decisão veio logo depois de tudo que nós fizemos durante a pandemia. Trabalhamos com medo, na linha de frente e honramos isso. Fizemos hora extra, muitos dos nossos pegaram covid, e o presente que a gente vai ganhar é tirarem a gente da noite para o dia”. 

Segundo a enfermeira, o que cabe aos profissionais, neste momento, é a união. “Estamos tentando unir forças, porque achamos que vai ser muito difícil reverter isso. Sei que são pessoas que vão assumir não têm experiência nenhuma com o serviço, com pré-hospitalar, vai ser o caos para os pacientes”, denunciou. 

Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná.

E o que diz a prefeitura?

Em nota, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informou que mantém os serviços de atenção à população em parceria com a Feas. “Em razão do grande número de afastamentos de profissionais e da necessidade de reorganização dos serviços, e considerando que metade das bases do Samu já são operadas com profissionais da fundação, a SMS está remanejando esses profissionais para reforçar o atendimento nas nossas UPAs e unidades básicas de saúde”, conclui.