“É até difícil de falar sem sentir a tristeza chegando. Estou desempregado. Eu iria usar o dinheiro e comprar um carro para trabalhar de Uber, até arrumar algo na minha área”, desabafa o técnico em eletrônica Israel Luiz Faccio, 47 anos. O veículo dele era um Renault Kangoo. A revolta de Faccio e de outras vítimas deve-se ao não pagamento do dinheiro em vendas consignadas à empresa FCar, loja de carros seminovos, localizada no bairro Uberaba, em Curitiba.

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A venda consignada é uma das várias formas de vender um veículo no mercado. A prática acontece quando o proprietário propõe que a venda aconteça por intermédio de uma concessionária ou loja, mas sem a necessidade de transferir a propriedade do bem. Consequentemente, o estabelecimento é responsável pela tarefa de vender o veículo dentro do prazo estipulado na negociação. Em resumo, a consignação de carros é basicamente um procedimento onde o consignante (dono do carro) deixa o carro com o consignatário (concessionária revendedora) para realizar a venda.

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O caso de Faccio é semelhante ao de inúmeras vítimas. Todas estão fazendo Boletim de Ocorrência (B.O.). “Passaram uma proposta dizendo que havia alguém interessado eu acreditei. A história é que o comprador ia pagar com o dinheiro de seguradora, que me dariam R$ 41 mil na Kangoo, sendo R$ 10 mil de sinal e o restante em 20 dias, após a vistoria da seguradora”, relata Faccio. “Só que já passou a data dos 20 dias e não me pagaram. Fica aqui o registro dos picaretas que são. Então não caiam no golpe como eu caí”. A data que ele deixou a Kangoo na loja, segundo o relato, foi 11 de agosto.

Mesma coisa com o vendedor Guilherme Henrique Albach, 32 anos. Ele conta que foi um dos primeiros a perceber que algo estava errado. “Pelo que eu sei, sou a primeira vítima ou a primeira pessoa a correr atrás de tudo. Quando eu vi que meu carro já tinha sido vendido, transferido, eu entrei em contato com a loja e comecei a cobrar. Fui na loja umas três a quatro vezes, não achei o dono lá. Depois, por mensagem, ele disse que o vendedor dele tinha roubado. Aí, começou a novela”, relata Albach, que acionou todos os meios para reclamar da loja, desde o B.O. até a reclamação em toda a internet. Outras vítimas foram aparecendo.

Albach descreve, basicamente, a mesma história, dando sinais de que o tipo de negociação era corriqueira. “Disse que o dinheiro vinha de consórcio, que iria dar R$ 10 mil de sinal para eu me tranquilizar, que o resto pagaria em 20 dias. Mas nunca pagou. Eu entrei com uma ação contra a loja, mas duvido que o dono apareça. Não tenho esperança de receber o dinheiro, mas, pelo menos, fica o alerta para outras pessoas”, ressalta.

Outros clientes que ainda não tiveram o carro transferido para outra pessoa também reclamam. “Mesma coisa. Coloquei meu carro anunciado na OLX. Uma vendedora da loja entrou em contato comigo dizendo que tinha um comprador para o carro e eu fui lá. Disseram que o cliente gostou. Fomos no cartório, fizemos o contrato, ele me transferiu R$ 5 mil e ficou faltando R$ 30 mil pelo meu Prisma. A vantagem que eu tenho é que o carro continua no meu nome”, conta o empresário Norberto Flor de Lara, 30 anos.

Na sexta-feira (8), segundo o relato das vítimas, a loja FCar foi encontrada fechada.

Polícia orienta pesquisa

Caso bem semelhante foi noticiado pela Tribuna no início de agosto. Clientes da empresa On Track Motors, loja de carros seminovos, localizada no bairro Juvevê, ficaram sem receber o dinheiro da venda dos seus veículos. Na reportagem do caso, a Polícia Civil (PCPR) orientou as vítimas da empresa a procurarem a Delegacia de Crimes Contra a Economia e Proteção ao Consumidor (Delcon). André Feltes, delegado, disse que as pessoas sempre devem verificar na internet se a empresa tem algum tipo de reclamação antes de fechar o negócio.

“A gente orienta que busque em sites como o Reclame Aqui ou mesmo no Google, se possui alguma reclamação da empresa. Pesquise a idoneidade da firma. A gente está percebendo que a venda do carro consignado aumentou demais nos últimos meses e é preciso ficar atento”, completou o delegado na época.

E aí, FCar?

A defesa da loja FCar, representada pelo advogado João Manoel Vidal de Souza, informa que a empresa passou, recentemente, por dificuldades financeiras e que está se organizando para resolver a situação. “Gostaria de informar, também, que na próxima semana iremos à delegacia prestar depoimentos e fazer boletins de ocorrência pelas ameaças que ele vem sofrendo, inclusive com arma de fogo”, diz a nota enviada à Tribuna.